Fazendo Gênero


Tentar de novo o mesmo amor, por Mariana Tonin

 

Sabe aquele homem por quem já fui loucamente apaixonada? Pois é... Ele cruzou outra vez meu caminho!  E eu descobri que definitivamente ele não é um homem qualquer, porque um código secreto me revelou que algo não está totalmente apagado e, de repente, tudo me pareceu fácil e tentador...

 

Mas o que me atrai outra vez nesse homem???  Em partes, tudo aquilo que já me atraiu anteriormente mas, sobretudo, a facilidade do conhecido. Algo conhecido sempre é bastante tranqüilizador!

 

Eu pensei que ele pode até não ser perfeito, mas com alguns arranjos aqui e acolá, essa relação pode emplacar dessa vez... E assim, banhada de otimismo e boas intenções, me pergunto: será que dá pra recomeçar tudo?

 

Atenção! Reprise! Vamos passar novamente as melhores cenas, repetir aquele beijo, cair apaixonados na cama e viver outra vez aquele amanhecer, ..., mas atendendo a pedidos vamos cortar as brigas, os mal-entendidos, as traições e, principalmente, aquele final sofrido e cheio de prantos.

 

Palmas! Nada com um bis pra nos deixar satisfeitos, né?!   Mas e a realidade, como fica?

 

A realidade é que embora tudo pareça tão conhecido, o resultado da segunda vez pode ser tão ou mais imprevisto do que o da primeira.

 

Isso não significa que não se deva tentar!  Muito pelo contrário! São as tentativas que nos ensinam viver e amar melhor. Apenas convém preparar um pequeno arsenal para enfrentar com mais chances o segundo round.  Trata-se de um conjunto de dados, conhecimentos e sobretudo lucidez, capaz de capitalizar tudo que se viveu na primeira tentativa e transformar não apenas em lembranças românticas, mas também em aprendizado, afinal, só assim os mesmo erros não irão se repetir.

 

Mas nunca é demais lembrar que melhores que sejam as lembranças, houve erros que acabaram levando a relação ao fim, e se agora vamos trazê-la de volta não há de ser apesar dos erros, e sim graças a eles, uma vez que eles serão nossos mestres nessa segunda chance a esse amor.

 

Mas onde, exatamente, um amor interrompido começa? Infelizmente não é no encantador princípio, como gostaríamos; também não há de ser no meio, quando ambos já estavam em desavenças; e não é, muito menos, por aquele fim dolorido e que gostaríamos de esquecer. Então, por onde?

 

Eis ai um dos pontos básicos da segunda tentativa! Um amor não se retoma; ele tem que ser refeito, com outro princípio e meio, para que tenha outro fim!

 

De uma forma bastante simplista, podemos dividir a segunda tentativa em dois padrões básicos.

 

O primeiro padrão ocorre é quando a relação tornou-se inviável, apesar do casal ter vivido muitas coisas boas juntos... A separação foi uma solução natural, dolorosa como sempre são as rupturas, mas não dilacerante, e cada um seguiu em frente, razoavelmente inteiro. Houve afastamento, tempo, um certo esquecimento e até outras pessoas, mas um dia aconteceu o reencontro e a constatação agradável de que algo ainda seria possível. O tempo e as experiências fizeram com que ambos se modificassem, ganhando uma visão melhor da vida e do amor. Atraíram-se uma vez, poderão atrair-se novamente, mas não nos mesmos moldes. Se o que os separou da primeira vez foram radicalismos ou incompreensões, isso já foi resolvido através de outros amores ou de uma reflexão coerente, que funcionaram como estufa de amadurecimento para que este se realize dessa vez.

 

No segundo padrão, a paixão revelou-se impraticável e aos trancos chegou-se a ruptura... A separação foi dolorosa, sofrida e deixou a sensação de uma coisa mal resolvida. Um queria, o outro não queria, e por isso ensaiavam a separação para voltar no dia seguinte, e logo tornavam a brigar. Por fim um deles não agüentou e foi embora de fato! E ficou no ar a sensação de algo não dito, ou feito ou desperdiçado... O tempo passou lento, e embora tivesse um deles (ou ambos) encontrado outra pessoa, continuaram se gostando a distância, relembrando, cultivando lembranças e fantasiando, até que um dia se reencontraram. O encontro não foi vivido como um estudo cauteloso de possibilidades, e sim como um chance de reaver a paixão perdida.

 

O fato é que seguindo o primeiro ou o segundo padrão, o reencontro mexeu com a gente e gerou um flashback.  E é de recaídas que se fazem muitas das segundas tentativas...  E a recaída acaba se tornando uma espécie de arremate, eliminando as dúvidas possíveis (não há dúvida que não se esclareça na segunda tentativa), restaurando a força da realidade acima da imaginação.

 

Por isso reafirmo que não tenho nada, portanto, contra as segundas tentativas!!! E é repassando cenas, vendo melhor, que analisamos mais alguns detalhes importantes que nos escaparam antes...

 

A objetividade deveria ser a grande vantagem da segunda experiência, afinal, por já conhecermos aquele homem, sabemos até onde podemos ir na tentativa de conseguir aquilo que achamos fundamental.  A pura insistência em algo insatisfatório é bem mais do que teimosia, é quase uma cegueira voluntária.

 

É importante se ter em mente que a segunda tentativa deve se definir rapidamente! Assim, se as diferenças continuam intoleráveis e os obstáculos continuam ali, não há porque recomeçar o antigo sofrimento.



Escrito por Mariana Tonin às 12h38
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