Fazendo Gênero


“Quase” é muito medíocre,  por Mariana Tonin

 

Há pouco mais de um ano eu vivia um dilema: não sabia como concluir o mestrado com calma e com dedicação, afinal, não podia viver só para estudar; eu precisava mesmo trabalhar!

Infelizmente as despesas e responsabilidades da vida falaram mais alto e eu tive que conciliar as duas atividades, me acovardando!

Foi ai que um grande amigo me fez uma pergunta, que na época me deixou intrigada, e até hoje ainda serve como auto-análise na minha vida!  Ele disse: "E aí Marola, você vai mesmo optar pela mediocridade e se contentar com o quase-sucesso, a quase-felicidade e o quase-amor?"

Evidente que a pergunta me incomodou, e evidente que era esse o propósito dele... No fundo, ele é tudo o que uma pessoa acomodada precisa: ele é o chacoalhão.

Claro que eu não quero ser medíocre!!!

Deus não me deu esse sorriso largo, essa alegria desencanada de viver, esse coração imenso e essa sede por saber à toa. Eu devo ser especial, eu devo ter algum talento.

Não! Eu não quero ser medíocre! Eu não quero desistir! Eu não quero optar pelo caminho mais fácil! Eu não quero que a energia negativa me enterre!

Foi ai que decidi pedir demissão da minha “vidinha”.

Hoje eu continuo trabalhando como psicóloga e como educadora, ganho por isso, mas tenho a sensação mais maravilhosa que já tive em toda a minha vida: o prazer de fazer o que gosto.

Sim! Eu conseguir me tornar uma psicóloga pesquisadora!

O passo seguinte foi desoprimir meu coração...

Eu tinha (tenho?) um grande amor: bonito, inteligente, seguro,  ...,  gostava de sair pra jantar, de ir ao cinema, de viajar, de estar com a família, de colocar Pink Floyd pra gente ouvir, ...,  gostava de arte, de interpretar a vida de um jeito que se tornou, aos poucos, o meu também, ..., e me chamava de criança, mas me tratava como mulher.

Não é à toa que foi o único homem que marcou a minha vida, afinal, ele era quase-perfeito... 

Mas faltava aquele olhar que o homem lança, não só quando digo alguma coisa inteligente e estou bem vestida, mas quando me olha nos olhos e vê minha alma, ..., faltava aquele cuidado e respeito genuíno com meus sentimentos e opiniões, ..., faltava aquela coragem em dar um passo adiante em nossa relação, ..., faltava aquela pegada de quem te conhece, mas parece acabar de te conhecer, ..., faltava aquele ritmo que aquieta um coração afetivo e cheio de curiosidades como o meu, ..., faltava uma tranqüilidade de amor recíproco, que me desse coragem de continuar investindo, ..., faltava, principalmente, mais ação, ..., mas sobravam pensamentos confusos, rótulos, espaços e angústias de traição. 

Foi aí que lembrei do meu velho amigo e me perguntei: “Vou mesmo me contentar com esse quase-amor que ele me oferece?”

Então resolvi perguntar se ele queria levar aquilo adiante! E eu perguntei 800 mil vezes, mas ele nunca respondeu seguro ou agiu a favor de resolver isso...  Na verdade, ele nunca respondeu de fato essa pergunta, e nunca mais vai ter a chance de responder, porque eu cansei!!!

E aqui estou eu aberta a um grande amor...

Eu não sei se ele existe, da mesma forma que eu não sei se um dia serei uma grande psicóloga pesquisadora; só sei que estou preparada para quebrar a minha cara, porque eu posso ser romântica, idealista e infantil, mas eu não sou medíocre.



Escrito por Mariana Tonin às 15h10
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P.Q.P., seja lá onde isso for..., por Mariana Tonin


Já tinha acontecido! Não dava mais pra disfarçar! O melhor mesmo era conversar sobre o assunto! Meu nome, definitivamente, não era aquele que ele tinha dito...

Como assim? Ele não podia “quase” fazer silêncio daquele jeito! Não se solta assim um verme "corroedor" de almas numa mulher ciumenta e depois pede mais um chopp ao garçom, né?!

Eu precisava saber o que essa mulher havia feito para merecer aquele olhar de devoção preguiçosa, algo entre o melancólico e o submisso, entre a saudade e o repúdio, afinal, aquele olhar pensativo lançado ao horizonte era o olhar que toda mulher sonha causar em um homem!

Eu precisava saber se o corpo daquela va&¨%ca era deslumbrante... Aposto que era! Só uma mulher muito gostosa enlouquece um homem a este ponto, e só uma mulher muito gostosa simplesmente dispensa um homem daquele.

Não, nada disso! Ela deve ser uma mulher muito bem resolvida, isso sim...  Ela tem celulite e é um pouco flácida, mas deve fazer o tipo chique, que senta na beira do sofá com uma roupa cara, mas despojada, e toma vinho tinto em taças gigantes. Ouso até dizer que ela tenha um cachorro médio porte, tipo Labrador ou Boxer, e que faz carinho no pescoço dele enquanto pede para o convidado escolher um DVD cult para assistirem jogados no tapete felpudo branco, que combina perfeitamente com seu aconchegante apartamento clean de mulher em vias de se tornar bem-sucedida.  

Ah...  Se for isso, está no papo!  Aposto que ele prefere 800 mil vezes o meu jeito de mulher-menina, ousada e brincalhona, afinal, dizem que os homens gostam desse híbrido, né?! 

Meu pai... Ou será que é uma garotinha? Pode ser uma daquelas com doce suor ginasial, pele dura, malícia pseudo-ingênua, meio burra sobre política, meio tapada para livros, que só gosta dos rocks que estão na moda e associados a algum evento com patrocínio de celular (e de música eletrônica, é claro).

Bom, se for isso, certamente ele prefere ouvir pela milésima vez aquele CD do Pink Floyd ao meu lado, cheio de músicas antigas e boas para a gente ouvir enquanto namora, quando voltamos nossos olhares um pro outro....

Nossa! Quem será essa criatura? Quanto mistério...

Talvez essa fulana seja o mistério em pessoa, daquele tipo que encanta e fascina a mente investigativa de um homem com seus joguinhos inteligentes... Mas uma mulher misteriosa ia rir daquele cara previsível, meio metido a machista e cheio de piadas ruins? Ela ia conseguir tomar banho naturalmente enquanto ele fazia xixi a seu lado? Não! Claro que não! Ela era fresca demais pra isso...  

E por isso eu acho que ele ainda ama essa va&¨%ca, porque quando o homem respeita mesmo uma mulher, ele fica nervoso demais para ficar a vontade. Mas será que é bom ficar sempre nervoso na presença de alguém? Colocar uma mulher muito no pedestal não significa não conseguir abraçá-la e viver sozinho?

Amanda! Era esse o nome! E ao trocá-lo desatento, ele sorriu, vingando-se inconscientemente em mim de todas as mulheres que já o haviam deixado perdido.

Claro que passei a noite em claro escrevendo o nome Amanda no Google e no Orkut, relacionando-o a Manaus, e repetindo esse nome estupidamente para meu cérebro.

Ela podia ter 28 anos, formada em odontologia, interessada em amigos e network, ..., ou uma artista plástica que faz uns pássaros horríveis com papel colorido e tem um site brega para divulgá-los, ...., ou apenas Mandinha, uma garota de programa que topava dupla p... (estava escrito assim mesmo no seu site), ...., ou aquela que passou em quarto lugar no curso de Direito na Universidade Federal do Amazonas em 2003, ..., ou a Mandita,  amiga da Tati, uma patricinha idiota cheia de amigas idiotas, ..., ou a dona de um currículo com experiência no pacote completo do Office 2005, ...,  ou ter dezesseis anos e um blog cheio de dúvidas sobre a vida, ...,  ou a dona de uma pousada com cachoeira em Presidente Figueiredo, ...., ou a mulata gostosa, casada com o alemão rico, que deixa recados na comunidade “Saudades de Manaus”, ...,  ou a vocalista de uma banda só de mulheres.

Amanda também era nome de escola, igreja, cidade e muitaaaaas mulheres de Manaus! Mas acima de tudo, Amanda era alguém que dormia naquela hora, enquanto minhas vísceras buscavam sua presença e ausência na internet.

E de tanto tentar esquecer Amanda o tempo todo (porque o tempo todo ele só pensava nela, e me fazia pensar também), eu resolvi fazer este texto e mandar a Amanda e o meu namorado pra P.Q.P, seja lá onde isso for....



Escrito por Mariana Tonin às 15h23
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