Fazendo Gênero


Cuidado, frágil!,   por MARIANA TONIN

 

Por favor, não grite comigo!  

Há uma conexão otorrinolaringológica que faz com que qualquer voz feroz que entre pelos meus ouvidos se liquefaça em seu trajeto e termine por sair pelos olhos em forma de lágrimas.

Se possível, não minta pra mim!

Deposito muita fé no ser humano, acredito em tudo o que me dizem e reluto em aceitar que pode haver provas em contrário.  Isso me faz cair em muitas armadilhas e, certamente, uma será fatal, porque sempre que me enganam, morro um pouco além do dia que passa e me consome.

No cômputo geral dos lugares-comuns, que frige os ovos e encerra as contas, sou uma mulher frágil!!!

Minha força interior - que sustenta o peso de meus ossos, carnes e erros  -, suporta carga extra até um determinado ponto...  E como resultado do excesso, eu desabo.

Desabo, desmonto, desmorono...

Minha energia vital escorre e forma ao meu redor uma poça de inseguranças.

Mas passa! Um dia passa...

Mas agora, nesse momento, ainda estou no “durante”, ..., e no  “durante” eu sofro muito.

Sofro com o que não concordo e não compreendo, ..., sofro com o que não espero e não aceito, ..., sofro entre o desejo de me conformar e a vontade de alterar as formas.

Quando sou conteúdo de um recipiente doloroso, sofro porque não quero me conter ou ser contida.

Hoje, estou frágil!

Hoje eu só preciso de uma mão segura que me dê apoio sem cobranças.

Hoje eu só peço um punhado de esperanças.

 



Escrito por Mariana Tonin às 13h11
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Aborto sem aforismo, por Mariana Tonin

Coincidentemente, duas pacientes de meu grupo psicoterápico engravidaram mês passado e, por motivos que não vem ao caso, ambas não quiseram dar continuidade a gravidez. O curioso é que elas vivenciaram experiências tão idênticas e tão antagônicas ao mesmo tempo!

Uma delas, que optou por uma possibilidade confortabilíssima (e caríssima também), usou como método abortivo a sucção e foi atendida numa clínica ginecológica moderna, dentro dos mais altos padrões de higiene e limpeza. Foi anestesiada para não sentir dor alguma e não ver como a intervenção ocorria. Terminado o processo, ficou 3 horas em observação antes de receber alta. Em casa, já devidamente medicada e podendo fazer repouso, sentiu dores semelhantes ás cólicas menstruais e pôde voltar a suas atividades normais em pouco tempo.

A outra, não dispondo de recursos financeiros e educativos melhores, após atentar contra sua própria vida várias vezes (tomando porções intoxicantes, introduzindo objetos perfurantes em seu ventre e carregando móveis terrivelmente pesados), finalmente optou por um método mais barato, mesmo ainda sendo um preço bem acima de suas posses. Ela comprou um remédio abortivo, introduziu em seu útero e sofreu, sozinha, contrações horríveis até que o feto fosse expelido aos pedaços. Foi atendida no Hospital Geral alguns dias depois, vitimada por uma inflação abdominal grave causada por resíduos desse abortamento.

Independente da forma que o aborto se deu e do preço que elas pagaram por ele, ambas sentiram a clandestinidade da ação e saíram de lá criminosas, além de terem seu corpo e sua alma mudados pra sempre...

Como o artigo 124 do Código Penal Brasileiro prevê detenção de 1 a 3 anos para a mulher que provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lhe provoque, fica evidente tratar-se de um crime hediondo, repudiado tanto por nossas leis quanto por nossa psiquê saudável. Assim, a mulher que aborta se sente criminosa e esmagada pela culpa, a ponto de ficar dias, meses e até anos vivenciando esse dilema.

O que a sociedade esquece é que a questão em si envolve bem mais coisas que uma mulher e uma criança... Vai muito além disso! Pode ser uma má formação do feto, ..., ou uma mulher cuja saúde pode estar em risco, ..., ou um meio social opressor que não vê com bons olhos aquela gravidez, ..., ou um homem que vira as costas, deixando a mulher desesperada, ..., ou mesmo uma mulher decidida que aquele não é o momento certo para ter o filho, por inúmeras razões que não nos caberiam aqui enumerar e explicar.

O fato é que essa “não-escolha” ocorre e é ferida que nossa bem pensante sociedade não quer aceitar, escamoteando-se atrás de nobres preceitos morais e religiosos, usando o advento do anticoncepcional como solução para o problema.

Método anticoncepcional? Oras... Num país miserável como o nosso, contracepção faço eu, fazem minhas amigas instruídas, e assim mesmo ainda engravidamos e/ou corremos o risco de engravidar, haja vista que nenhum método sozinho é 100% eficaz.

Por isso me pergunto quem afinal comete o crime, se é a mulher ou a sociedade que condena seu gesto desesperado? Não quero problematizar questões que geram conversas intermináveis sobre em que momento se dá a vida, se um embrião ou um feto tem alma ou se são apenas a junção de dois gametas. Sem dúvida é uma conversa bonita... E sem dúvida me tocaria se eu não visse a realidade pela frente...

Mas a realidade nos mostra que são realizados mais de 25 mil abortos por ano no Brasil, o que equivale a 15% da quantidade de abortos realizados no mundo, nos dando o record invejável de segundo lugar no ranking, perdendo apenas para a China.

Evidente que esses números não retratam a realidade total do Brasil, afinal, é impossível ter dados precisos sobre uma atividade ilegal, certo?! Eles são baseados no número de mulheres que dão entrada num Hospital Geral vitimadas por complicações decorrentes de um abortamento induzido. E os outros? E aqueles que deram certo? Definitivamente não fazem parte dessa estatística!!!


O argumento dos que dizem SIM AO ABORTO são lógicos, de uma lógica tão lógica que ficamos chocados frente á ela, ..., os argumentos dos que dizem NÃO AO ABORTO são igualmente lógicos, afinal, é justo que as pessoas sejam responsáveis por seus atos sexuais e pela criança que tem direito a vida, já que não pediu pra nascer.

O bom seria ir além dessas lógicas, fazendo com que a sociedade visse o direito á vida no seu real sentido, haja vista que a vida não é só nascer. Viver é alimentar-se; é crescer com recursos sociais, físicos e emocionais satisfatórios; é receber afeto e educação de um pai e uma mãe participativa e é, principalmente, se sentir amado e desejado desde o início.

Antes que me perguntem, ..., Sim! Sim!, ..., eu tenho meus princípios. Mas como o próprio pronome diz, são meus!!! Eles não me fazem juíza da moral, da religião e muito menos das escolhas de alguém, além das minhas próprias.



Escrito por Mariana Tonin às 07h41
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Porto Seguro ou Além-mar?
por Mariana Tonin


Escuro total e eu deitada sem o menor sono...

Respiro fundo com o rosto enfiado no travesseiro, dizendo pra mim mesma: “Claro! Claro que não tenho dúvidas! Claro!”

Claro que nada é claro!

Lembro dos ombros largos de proteção que ele tem, de sua mão grande me segurando ao atravessar a rua e das nossas intermináveis conversas inteligentes e divertidas.

Lembro que quando ele acorda e nos olhamos, é sempre uma promessa de que a história não vai acabar ali e que para sempre vamos nos gostar mesmo com o desgaste da idade e do dia-a-dia.

Respiro aliviada! Mesmo distante de qualquer religião, mas próxima de Deus, sinto que Ele abençoa tudo aquilo!

O telefone toca e interrompe meus pensamentos...

É alguém que não faz promessas e que até em pensamentos pode ser um problema!

Deixo escapar uma lágrima ao dizer mais um "não", por sentir uma covardia lúcida, exatamente como me senti numa jangada no mar de Fortaleza: eu e um pedaço velho de madeira seguíamos fracos e inseguros para o além-mar e meu coração disparava de tesão, medo, excitação e pânico. Internamente, a experiência era encantadora e assustadora, exatamente como deve ser algo “único” na nossa vida. Mas acalmada a euforia, lembrei que eu não sabia nadar muito bem e implorei para voltarmos á praia. Definitivamente, o mar não era um lugar seguro pra mim!

Mesmo feliz e firme no meu porto seguro, não deixo de admirar aquela vida azul e tranqüila da praia...

Sei que depois do horizonte pode ter ainda mais encantos, e até sinto uma certa tristeza por nunca descobrí-los.

Mas daí eu vou matando a saudade com o barulho de uma conchinha, bem escondida no fundo da minha gaveta pra ninguém descobrir que ainda sonho em ser sereia...

Será esse o equilíbrio para minha alma?

Não sou inteira sem um pouco de sonho, horizonte e água do mar, ..., não sou inteira sem um porto seguro pra onde voltar.



Escrito por Mariana Tonin às 11h39
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