 Love Machine, por Mariana Tonin
Definitivamente não sou puritana! Às vezes escorrego no machismo, no feminismo ou no romantismo, mas puritanismo nunca, jamais!
Mas a verdade é que após a primeira hora no III Erotic Fair (uma feira de produtos eróticos que visitei com um amigo em Brasília), eu já estava enojada o suficiente e querendo ir embora.
Sou uma fã incondicional do sugestivo, do indutivo e do implícito, ...., e por isso toda aquela "escancaração" me incomodou.
Nem é uma crítica à feira, que aliás cumpriu bem o seu papel, é apenas uma particularidade minha: o explícito não me causa fortes emoções.
O explícito está lá, exposto, fácil, pobre, ao alcance. O grande lance, para mim, é a conquista...
Por exemplo, um e-mail com tímidas segundas intenções me excita muito mais do que um fortinho de cueca lambuzado de óleo se esfregando em mim.
Aliás, não entendo como uma mulher pode ficar "louca" com um tipo desses, afinal, na grande maioria das vezes esses "performers do sexo" são garotos de programa que transam todo tipo de coisa! Sem contar que eles cheiram "futum" (não me pergunte o que é isso, mas o nome é perfeito) e parecem o porteiro do meu trabalho depois de tomar bomba.
Pronto! Fui preconceituosa, seletista e nojenta, ..., mas é a vida, ..., e eu tenho meus defeitos. Mas também tenho direito, apesar de respeitá-lo muito, de não sentir tesão pelo porteiro do meu trabalho, certo?!
Quanto às strippers, ..., bem, ..., não é muito o meu departamento! Mas o amigo que me acompanhava estava gostando tanto que nem piscava.
O "playground" da feira, segundo o folder que recebemos na entrada, eram cabines onde se curtia coisas "alucinantes" lá dentro, mediante pagamento de até 5 reais. Elas tinham nomes do tipo "Fantasia", "Contatos" e "Descubra-se", mas ao perguntar o que rolava lá dentro, a resposta era sempre a mesma: "Vão passar a mão em você”
Claro que não paguei pra ver nenhuma das cabines!!!
Porque? Primeiro porque eu já tinha me descoberto travada o suficiente para aquela baixaria (meu Deus, estou falando como minha avó), e segundo, porque os mesmos porteiros bombados e fedendo a futum estavam lá, e eu definitivamente não queria nada com eles.
Tirando as cabines e os shows (ou seja, a galera pelada), o que sobrou foi os stands que vendiam de tudo. Repito: de tudo mesmo!!!
Das coisas que mais me chamaram mais atenção, cito: 1) "pussy and ass", um brinquedo perfeito para o homem que acredita naquela expressão "mulher é um monte de carne com uma vagina e um ânus (substitua ambos pelo nome vulgar) no meio”; 2) bolinhas para praticar sexo anal, ou seja, uma seqüência para penetração que começava com uma pequenininha e crescia para uma maior; 3) abelhinha, que é feita para a mulher vestir como se fosse uma calcinha, sendo que a antena fica no clitóris e as patas na vagina; 4) pintinhos, pintos, pintões e um tão gigante que eu juro que me deu vontade de ficar esperando plantada para ver quem ousaria comprá-lo; 5) géis de todos os tipos também podiam ser encontrados e a vendedora complementava, com a naturalidade de quem comenta sobre a novela das oito: "esse para sexo anal é o predileto das mulheres da Buttman, que gravaram cenas de sexo explícito ontem, aqui mesmo".
Ah.... Vale dizer que elas (as Buttman girls) são bem bonitas e simpáticas, e até me parecem felizes. E se são felizes, quem sou eu para desejar uma vida melhor para elas, né?!
E já que abri uma exceção para elogiar, vale elogiar também a apologia ao uso de camisinha, que já começava na entrada: o monumento-símbolo da feira era um pinto gigante, usando camisinha.
Entre um stand e outro, enquanto eu me recuperava de tudo o que estava vendo, fui abordada por uma garota com papel e caneta na mão: "Quer se inscrever para a palestra, acabou de começar. É sobre Sexo Anal".
Putz... O tabu voltava a me perseguir!
Dei uma espiada na sala onde rolava a palestra e vi vários casais, alguns acompanhados de adolescentes inclusive (seriam os filhos?), e me dei conta que até o sexo anal já virou assunto para se discutir em família...
Que belo mundo moderno! Que medo!
Por fim, fui apresentada à Love Machine, que por ter sido responsável por um momento tão descontraído (eu e meu amigo tivemos um ataque de riso que não acabava mais), mereceu virar título desta crônica.
A Love Machine pareceu-me um aspirador de pó que presta serviços domésticos sexuais: vem com uma prótese de pinto (você pode escolher entre vários tamanhos) e tem regulador de profundidade e velocidade.
No stand da Love Machine tinha uma TV com demonstrações reais (e explícitas) do uso da máquina e um cartaz com frases animadoras do tipo: "Você não precisa lavar nem cozinhar para a Love Machine" e "A Love Machine não cheira à álcool e nem funga no seu pescoço” e ainda "A Love Machine só brocha se houver um apagão".
Que bom que substituíram o aspirador de pó, um presente clichê para submissas donas de casa, por uma coisa mais moderna e mais preocupada com o prazer delas...
Mas eu juro que depois de lá só quis uma cama limpinha, com travesseiros de penas de ganso, Pink Floyd tocando ao fundo e juras de amor (verdadeiras) feitas por um homem de verdade, ..., aquela minha máxima já tão conhecida: olhos nos olhos, beijo na boca, “eu te amo” e muitaaaaa sacanagem!
Retrô? Eu? Não... Só sou sincera e realista!!!!
Escrito por Mariana Tonin às 19h09
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Odiamos a sua ex, por Mariana Tonin
Eu estava inconformada com a beleza da desgraçada!!!
Minhas amigas tentavam me convencer que o importante mesmo é a inteligência, e que o meu cérebro era muito mais lindo que o da ruiva.
Aliás, aqui entre nós, minha massa cinzenta merecia ser capa de revista internacional, saindo de pernas abertas numa foto, né?!
Poxa... Por que ele tem que ter aquela ex- namorada ruiva, com as pernas lindas, os seios grandes, o desenho da boca perfeito e olhos verdes acinzentados?
Rose sorri superior, não por nunca ter sentido isso, mas por não estar sentindo naquele momento, e diz:
- Relaxa! Ele não está com você? Não diz que te ama? Não está bom? Então deixa a gostosona para lá! Vai ver ela tinha bafo, chulé ou não devia saber a tabuada do sete… Ou às vezes era tão bonita que achava que não precisava ser boa de cama…
Gabriela suspira e parece não concordar nem com meu desespero e nem com a solução otimista de Rose:
- Ah... Cansei desse papo! É sempre a mesma desculpa, de que as lindíssimas são burras e limitadas! Olha, eu tenho uma teoria boa a respeito de tudo isso…
Eu e Rose aproximamos a cadeira para ouvir mais de perto a grande revelação, e o barzinho todo parece fazer silêncio para Gabriela falar:
- Vai ter sempre uma mulher mais bonita, mais gostosa, mais inteligente e mais rica do que você! E pronto! Fazer o quê?
Eu e Rose, incrédulas com essa máxima, voltamos à posição original e nos entreolhamos decepcionadas.
Gabriela sente que pode ser vaiada a qualquer momento, e continua:
- É verdade, gente... Deixa a ex dele ser bonita! Você também é bonita e têm várias outras qualidades... Mas o mais importante é que você tem uma coisa que ela não tem: ele! Você tem ele!
Ah não! Assim já era demais! Nem minhas amigas me entendiam...
Não era o caso de ter ou não ele (ele tava fora do jogo), ..., era uma dor egoísta e solitária e nada tinha a ver com a possessão do amor ou com ciúmes.
Tudo isso tinha muito mais a ver com as lembranças do colégio, aquela época desgraçada da vida de qualquer mulher que demora muito para ter “corpão” enquanto as amiguinhas do recreio já desenvolveram cara (e até ações) de sexo...
Era a competição pura e simples!!!
Rose tenta ajudar contanto uma história própria, afinal, nada melhor do que a desgraça alheia para a gente se sentir menos humilhada pela vida:
- Olha, quer saber o que é muuuito pior do que uma ruiva gostosa? Uma mulher pós- graduada em Londres, formada em cinema, premiada em Cannes, escritora e além de tudo com o péssimo hábito de ser humilde e simpática!!! Pois é... A ex do meu ex era exatamente assim! A bunda cai minha filha, e a mulher gostosa um dia acaba, envelhece. O que fica é uma mulher interessante para compartilhar o resto da vida. A ex do meu ex era uma puta mulher interessante.
Todas ficamos em silêncio!!!
Na verdade, olhávamos para dentro de nós mesmas, nos perguntando o quanto éramos bonitas, interessantes e o quanto poderíamos incomodar as outras mulheres, afinal, incomodar as outras mulheres era o que importava.
E os homens?
Bem, ..., os homens eram meros coadjuvantes nessa competição.
Escrito por Mariana Tonin às 09h58
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