
Tudo é só isso: amor e dor, por Mariana Tonin
Eu estava indo ao município de Itacoatiara atender um paciente em domicílio e era guiada por Chico, o motorista do Hospital onde trabalho.
De acordo com minha concepção de tempo e espaço (grandezas alteradas para aqueles que sofrem por amor), o Chico é um sujeito calmo, de gestos contidos, que parecia estar mais concentrado na viagem, como se eu não existisse.
Eu, de fato, não estava ali naquele momento... Apenas um farrapo de mim viajava largada no banco de trás, onde consegui me esticar até quase deitar.
Tínhamos mais de duas horas de estrada em péssimas condições pela frente e vivíamos num mundo onde somos obrigados a levantar e ir trabalhar minutos depois de levar um fora. Uma lei federal deveria proteger aqueles que se encontram na lama da fossa afetiva, né?!
Chico me perguntou se podíamos fazer uma parada e notou, nas entrelinhas da minha resposta silenciosa, que eu gostaria mesmo era que o mundo parasse. Paramos!
Ele fumou um cigarro e resolveu investigar para saber o que eu tinha, já que meus olhos estavam vermelhos.
Pensei em dizer que estava com conjuntivite, mas isso não ia convencê-lo, afinal, ninguém chora por uma conjuntivite no meio da rodovia AM 010, né?! Então encarei a dura realidade: disse que estava saindo de um relacionamento!!!
Me questionei se deveria contar tudo a ele (o homem da minha vida com outra mulher, fotos, e-mail, abraços, beijos, sexo e tempo pra colocar a cabeça em ordem). Como ele, um cara tão sério e simples, reagiria?
Tendo em vista que desabafar com um estranho parecia mais uma benção do que uma desgraça, decidi contar.
Chico ouviu tudo sem falar nada, sem sequer balançar a cabeça, e no final me disse apenas: “Mesmo com tudo isso, acho que ele te ama. Sou homem, sei como é isso!”.
Eu esbocei um sorriso desconexo enquanto ele emendou: “Então, tem solução! Não fica assim! Tenho certeza que o pior erro dele foi ser omisso, mas ele não fez por mal, só porque está confuso! Logo ele vai notar o quanto sente falta desse sentimento entre vocês. Vai por mim...”.
E eu, que raramente desmorono em público, coloquei a cabeça no ombro de meu condutor e caí em pranto profundo...
Ele, com a nobreza que só os simples e honestos têm, apenas me deixou ficar ali para, depois de alguns minutos, repetir: “O amor é mesmo complicado. Essa dor vai passar”.
Dali em diante fomos conversando sobre a vida e sobre amores, o eloqüente Chico e eu, interior a dentro...
Notei que a história de cada um não muda muito desse drama que envolve amores e dores (porque não existe um sem o outro) e os grandes conflitos humanos são esses, não importa cor, credo, casta.
No fim, como diz a filósofa panteísta Paola, “tudo é só isso”. É só isso para mim, para você, para Paola, para Chico...
A piada cósmica é que, por mais que tentemos calcular, não podemos saber quando a última vez acontecerá, ..., quando daremos o último beijo, o último abraço, o último filme visto na cama, a última ida à Fortaleza em lua-de-mel, o último jantar no Tortelini, o último domingo passado em família, a última vez que penetramos na alma da pessoa amada...
O fim pode perfeitamente topar com você numa noite quente de segunda-feira, logo depois de intensos momentos de felicidade e prazer!
Ali, diante do inimaginável, você se vê flertando com a morte: hora de virar um farrapo, tentar se levantar, juntar os cacos e recomeçar, ..., e saber que, durante esse dolorido processo, é sempre possível contar com a bem-vinda gentileza de estranhos, como o Chico!
Escrito por Mariana Tonin às 11h48
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Depilação... (autor desconhecido - adaptada por Mariana Tonin)
"Tenta sim. Vai ficar lindo."
Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha, mesmo não fazendo o tipo “peluda”...
Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve, apesar de eu achar que pentelho não pesa tanto assim, ..., disseram até que meu ex-namorado, se visse, ia amar e voltar pra mim!
Eu imaginava que ia doer, e elas até me avisaram que isso aconteceria, mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.
- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
Parei aí!!! Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada.... Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.
- Cavada mesmo.
- Sexta, às... deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.
Chegou o dia em que perderia dez quilos!!!
Almocei coisas leves, porque não sabia ao certo o que me esperava, escolhi uma calcinha apresentável, e lá fui.
Penélope estava esperando! Moça alta, mulata, bonitona.
Oba!!!! Vou ficar que nem ela... Legal!!!
Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saimos da sala de espera e entramos num longo corredor: de um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas, de onde se ouvia gemidos, gritos, conversas, numa mistura de Calígula com O Albergue.
Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.
- Querida, pode deitar.
Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca, mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha, onde estavam os aparelhos de tortura.
Vi coisas estranhas: uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus... Era O Albergue mesmo!!!
De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.
- Quer bem cavada?
- Sim....é, isso.
Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Berenice (nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes).
- Os pêlos não estão altos, só desalinhados demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- Ah, sim, claro.
Claro nada! Não entendia nada do que ela fazia, mas confiei.
De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).
- Pode abrir as pernas.
- Assim?
- Não, querida. Que nem borboleta, sabe?! Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.
- Arreganhada, né?!
Ela riu... Que situação!!!
E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem... Foi gostoso, quentinho, agradável, até a hora de puxar.
A puxada foi rápida e fatal! Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído e que apenas minha ossada havia sobrado na maca.
Não tive coragem de olhar.... Achei que havia sangue jorrando até o teto! Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para a ambulância da UNIMED.
Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa, já que eu havia esquecido de respirar.
- Tudo ótimo. E você?
Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha"...
E o processo medieval continuou... A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope, e lembrava da grande sacanagem de minhas amigas recomendando a depilação...
- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha. Não tenho bigode!
- Não, querida! Os lábios dela aqui ó...
Não! Não! Pára tudo! Depilar os tais grandes lábios? Putz... Que idéia!!!
Topei!!! Afinal, quem está na maca tem que se f... mesmo.
- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.
Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Berenice.
- Olha, tá ficando linda essa depilação.
- Será? Menina, to achando que pode ficar meio encravado aqui. Olha de perto.
Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas, porque o rosto delas estava bem perto dali. Por isso, cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo: "Me leva daqui, Deus, me tele transporta".
Só voltei a terra quando entre uns blá-blá-blás ouvi a palavra pinça.
- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram uns pelinhos finos, tá?!
- Pode pinçar! Tá tudo dormente mesmo... Não tô sentindo nada...
Nossa! Eu estava enganada! Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida.... E quis matá-la, mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.
- Vamos ficar de lado agora?
- Como assim???
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.
Pior não podia ficar!!!
Obedeci à Penélope, deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.
- Segura sua bunda aqui?
- Como assim???
- Essa banda aqui de cima... Puxa ela pra afastar da outra banda.
Tive vontade de chorar... Creio que ninguém haviam visto, à luz do dia, aquela cena!!! Nem meu ginecologista...
Fui novamente trazida para a realidade ao sentir o aconchego falso da cera quente besuntando meu “aquele que não se pode dizer o nome”, e eu não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação.
E aí me veio o pensamento: "Oxe! Mas tem cabelo lá?"
Fui impedida de desfiar o questionamento... Pê puxou a cera!!!
Achei que a bunda tivesse ido toda embora, nenhuma preguinha pra contar a história...
- Vira agora do outro lado.
Virei e segurei novamente a bandinha, mais ou menos no momento que a intrometida da salinha do lado abre a cortina e pede um chumaço de algodão.
Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos...
Era dor demais, ..., era vergonha demais, ..., aquilo não fazia sentido. Eu estava me depilando pra quem?
- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Máquina de quê?!
- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.
- Dói?
- Dói nada.
- Tá! Passa logo isso!
- Baixa a calcinha, por favor.
Foram dois segundos de choque extremo!! “Baixe a calcinha”?, ..., Como assim? Como alguém fala isso sem antes investir numas preliminares?!?!
Mas o choque foi substituído por uma total redenção, afinal, ela já havia visto tudo (da Berenice à “aquele que não se pode nomear”). O que seria baixar a calcinha?
- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode! Vai lá... Deixa ela grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.
Namorar? Eu estava com sede de vingança!
Queria matar minhas amigas! Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso de ficara lisinha e sedosa pra poder namorar! Queria fazer passeatas e criar uma lei antidepilação! Queria comprar o domínio www.preserveasberenicespeludas.com.br
Namorar??? Nem namorado eu tenho mais...
Escrito por Mariana Tonin às 09h29
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Um Dia dos Namorados para quem a saudade não é ex e o amor não é ex...
por Mariana Tonin
Ao contrário de seus outros relacionamentos, não há sobras da minha existência pela casa....
Minha camisola não está sufocada num canto qualquer e nem meus chinelos foram abduzidos no meio da tua "sapataiada"...
E não há fotos de nós dois, nenhuma sequer, paralisando momentos felizes e traduzindo uma vida que “quase foi”...
Não há mais nada, afinal, aquilo que “quase foi” não pode atrapalhar o que ainda “pode ser”, né?!
Agora, penso em quem vai suspirar protegida ouvindo Pink Floyd na sua cama... Penso em quem vai comer seu delicioso Penne com Camarão... Penso em quem vai rir apaixonada de algum provável barulho seu, para na manhã seguinte ouvir você jurar que não ronca...
Como hoje é DIA DOS NAMORADOS, me dou conta que saudade não é ex! Me dou conta que amor não é ex! Mas a vida da qual você abriu mão (por um ideal de vida ou por um erro) já faz parte do passado...
E de escolhas e de perdas foi feita a nossa história! E não há mais nada que eu possa fazer a não ser carregar por um tempo um peso sufocante de minha impotência: foi você quem escolheu assim!
Preciso acordar! Agora estou sozinha! Agora você não se perde mais nos meus braços e acha que minha presença trás alegria para sua vida! Agora não dá mais para fantasiar com "família, filhos e tal"!
Mas nossa história ainda está viva em mim, mesmo depois de tantas noites em claro, nomes trocados e objetos esquecidos...
Nossa história ainda está viva em mim, mesmo quando você se confunde tanto e quer se afastar de tudo para entender melhor estando de fora...
Nossa história ainda está viva em mim, mas me humilha tanto que eu quero me ajoelhar numa igreja diante de Deus e pedir ajuda ou perdão, me emocionar, não querer pensar mais nisso e acabar sendo aceita em algum lugar...
E a nossa história ainda me dá um tapa na cara para eu acordar, mas eu continuo sem ter você para cuidar do machucado e dizer que vai ficar tudo bem...
Você me disse que eu era o que de melhor tinha na vida, mas para valorizar-me você precisava viver mais e, que irônico, para viver mais você precisava me perder.
Se nossa vida fosse uma comédia-romântica-norte-americana, a gente se encontraria dentro de algum tempo e, depois de um quente flashback e 800 mil desculpas e promessas, nos acertaríamos e viveríamos felizes para sempre.
Eu diria que você era aquilo que eu sempre quis, desde sempre, mesmo quando me sentia tão cansada de lutar sozinha por nós dois, ..., mesmo depois de você nunca ter me pedido para ficar, ..., mesmo depois de eu ter conhecido homens que não brigavam quando eu acendia a luz do quarto, que não amavam suas casas acima de tudo, que não usavam cuecas velhas, que não tinham a mania de interromper aquilo que eu estivesse falando, que liam interessados as coisas que eu escrevia, que sabiam o tema do meu mestrado ou doutorado, que não menosprezavam minha profissão, que não insistiam em classificar minha cadelinha como ser de outro planeta, que me davam realmente atenção, que não ligavam se eu esquecesse minhas coisas em suas casas ou confundisse nomes de capitais, movimentos artísticos, datas de revoluções e nomes de queijo...
E você? Você me diria que eu era quem você sempre amou e quis, mesmo depois de ter “galinhado” muito e cansado da vida “de solteiro”, ..., mesmo depois de ter conhecido mulheres sofisticadas que conheciam o Oriente Médio, que não enchiam a casa ou o banco do carro com cabelos loiros, que não deixavam a toalha úmida jogada na cama, que não demoravam tanto para sentir prazer, que não tinham uma bolsa gigantesca e cor de cobre, que não eram dentuças e tampouco tinham a boca grande, que não cantavam tão mal, que não reclamavam do frio do ar-condicionado e nem tinham medo de perder os pais ou comer uma comida com pimenta...
Mas a realidade é que você é puro testosterona e nunca gostou desses filmes fracos, açucarados e com final feliz... Você adora os filmes com ação, no máximo aqueles filmes europeus cult, onde na maioria das vezes as pessoas sofrem e perdem, assim como aconteceu com a gente.
Porque? Porque?
Escrito por Mariana Tonin às 07h19
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