Fazendo Gênero


 

Um minuto de silêncio, por Mariana Tonin

A brasileira Gilberta foi brutalmente assassinada na cidade do Porto, em Portugal. Seu corpo foi encontrado num poço com dez metros de profundidade. Apesar do fato ter acontecido há vários meses, os culpados (já identificados) continuam livres.

Finalmente, depois de muita pressão, o Parlamento Europeu aprovou resolução em que recomenda às autoridades portuguesas uma rigorosa apuração do caso e punição dos condenados. “Tortura e homicídio terríveis” é como os eurodeputados classificam o crime do qual Gilberta foi vítima.

Quem a matou? Um homem? Dois homens? Não!!! Quinze adolescentes a torturaram durante horas, abusaram de seu corpo de todas as formas e, depois, a jogaram num poço. O laudo pericial apontou como causa da morte afogamento, ou seja, ela ainda estava viva quando foi atirada no poço.

Por que a morte de Gilberta não repercutiu no Brasil? Por que o silêncio? Por que tanto ódio? E quem era Gilberta?

Como tantas brasileiras, Gilberta saiu do seu país para trabalhar, economizar, voltar ao Brasil, comprar uma casa para a família e “tocar sua vida”. Uma mistura de sonho e desejo que, como se sabe, leva milhares de brasileiros para fora do país.

Mas a história de Gilberta, no entanto, se distingue das demais quando sabemos que ela era uma mulher transexual, portadora do vírus HIV, pobre e que vivia nas ruas...

Em maio de 2004 o Governo Lula lançou o Programa Brasil Sem Homofobia – conjunto de ações que visa a combater todas as formas de preconceitos contra transexuais, travestis, lésbicas e gays. Essa foi a primeira vez na história que um governo tomou para si a tarefa de combater os preconceitos por orientação sexual e de gênero.

Bela iniciativa!!! Mas o que foi feito desde então?

Voltemos à inaceitável morte de Gilberta: se o governo toma para si o combate à homofobia, à lesbofobia e à transfobia, o que a Embaixada do Brasil em Portugal está fazendo para apurar o assassinato de Gilberta? Quais são as medidas tomadas e quais os motivos de tamanho silêncio?

São corriqueiras as notícias de brasileiras transexuais assassinadas em países estrangeiros – e, como se sabe, no Brasil também – sem que o governo brasileiro exija das autoridades locais a apuração e a punição dos culpados. Isso acaba produzindo uma hierarquia das mortes: algumas merecem mais atenção do que outras.

Um dos critérios para se definir a posição que cada assassinato deve ocupar na hierarquia dos operadores do Direito é a conduta da vítima em vida.

Nessa cruel taxonomia, casos como o de Gilberta ocupam a posição mais inferior. É como se houvesse um subtexto a nos dizer: “quem mandou se comportar assim”. Essa taxonomia, em realidade, acaba (re)produzindo uma pedagogia da intolerância.

E, assim, nessa lógica absurda, a vítima se transforma em ré!!!

Para garantir que as coisas fiquem como estão, há um processo medonho de esvaziar a vítima de qualquer humanidade. Seguindo essa lógica, a possibilidade de se reivindicar direitos humanos se restringe a um grupo muito reduzido de sujeitos que têm atributos que o lançam ao topo da hierarquia: são heterossexuais, brancos, homens, membros da elite econômica/intelectual/política.

Conforme o grau de afastamento desses pontos qualificadores de humanidade, reduz-se a capacidade do sujeito entrar na esfera dos direitos e de reivindicá-los. Os direitos humanos se transformam, nesse processo, num arco-íris: lindo de se ver, impossível de se alcançar.

Quantas Gilbertas já morreram? Não sabemos! Não temos dados precisos!

Mas sabemos que as mortes por crimes de homofobia, transfobia e lesbofobia não chegam a se constituir em processos criminais... Poucos assassinos chegam aos bancos dos réus, e quase nunca há condenação por esse tipo de crime.

Lembro de uma conhecida, transexual, que foi estuprada por um vereador de sua cidade do interior. Essa violação, como tantas outras, jamais aparecerá em qualquer estatística. Por quê? “Se eu fosse na delegacia eu é que ficaria presa”, ela nos explica com clareza estonteante.

Nesse mês de junho, em vários países do mundo, as ruas serão ocupadas pelas cores da diversidade. São dias de festa e de luta. Transexuais, travestis, gays, lésbicas, bissexuais e pessoas que não os discriminam (conhecidos como simpatizantes), cantam, se beijam, festejam e lutam pelo direito pleno à vida.

Nas manifestações do mês da luta pela diversidade sexual e de gênero, seria frutífero que, entre uma canção da Madonna e da Glória Gaynor, lembrássemos nossos mártires, aqueles que provaram com a própria vida que a humanidade é mais plural do que tentam nos fazer crer.

Nas paradas do mês do Orgulho Gay façamos um minuto de silêncio. Quem sabe, assim, o Estado brasileiro nos escute e passe da ineficaz e constrangedora política das boas intenções para a ação concreta.

Gilberta: presente!





Escrito por Mariana Tonin às 12h52
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(Tristan and Isolde, de Edmund Leighton Blair, 1902)

Amores impossíveis, por Mariana Tonin

Que coisa!!!

Parece meio clichê, mas a vida é feita de altos e baixos: altos, fortes, morenos, sensuais, bons de cama, possíveis; e aquele baixinho (quase mediano), pouco romântico, meio metido a machista, que não sai da sua cabeça.

Impressionante como a gente sofre por nada....

A gente sofre pelas lembranças, ..., a gente sofre pela saudade, ..., mas, principalmente, a gente sofre é pela impossibilidade!

Desde que o mundo é mundo não há nada mais afrodisíaco do que a proibição ou a dificuldade, já notaram?!

Pois é... Aquele baixinho esquisito não pertence ao grupo dos amores possíveis e, exatamente por isso, a graça dele pode durar uma eternidade, dependendo do nosso grau de criatividade.

Ou ele não quer nada com você, ou já tem alguém, ou pertence a um caminho que passa longe do seu. Resumindo: ele pertence ao campo dos impossíveis, idealizados, sonhados e distantes.

Bingo!!!! Isso já faz dele enorme, lá no pedestal. E nada melhor do que as lacunas da improbabilidade para esquentar uma paixão...

Nessas lacunas temos espaço para criar a história como quisermos, porque ele é nosso, nosso personagem, ..., nesses espaços livres colocamos todos os nossos sonhos, toda a nossa imaginação, cenas completas com fundo musical e palavras certas, finais e desfechos inesperados.

E quando a gente menos espera, ele faz mais parte da nossa vida do que nós mesmas!!!

Mas a realidade aparece mais cedo ou mais tarde e vem, sintomaticamente, como uma angústia... É aquela história que paixão sofrida nos adoece, que paixão reprimida pode nos dar câncer!

Meu pai... Não era só um cara interessante? E agora ele pode até te matar!!!

Pronto! Se pensou assim é porque você está apaixonada, e paixão tem suas etapas.

A primeira etapa é a negação: “Eu apaixonada? Imagina... Ele é impossível, nunca vai me dar bola.”

A segunda etapa é a maximização: “Ele é mais inteligente, mais bonito e mais engraçado que qualquer outro que já conheci!”, fazendo-o ter todos os “mais” possíveis para que ele seja mais desafio para você e mais neuras pro seu ego problemático.

A terceira é última etapa é superlativização. Em vez de ser mais, ele é "o mais": “Ele é o mais inteligente, o mais gostoso, o mais sensual...”, e você está a um passo do endeusamento, do "ele é único".

Ai começa o problema....

Se ele é único, ele é a sua única chance de ser feliz. E, se ele não quer nada com você, você acaba de perder a sua única chance de ser feliz.

Bem-vinda à depressão!!!

Amor platônico é para imaturos, sabia?! Vá viver um grande amor real!!! Vá viver um grande amor recíproco!!!

Lá fora há milhares de possibilidades de felicidade, de felicidades possíveis, de realidade, ..., e você eternamente trancada na porta que o mundo fechou na sua cara, fazendo questão de questionar e atentar o inexistente.

Antes de tremer as pernas pelo inconquistável e apagar as luzes do mundo por um único brilho falso, olhe dentro de você e pergunte: estupidez, masoquismo ou falta de coragem para buscar um amor de verdade?



Escrito por Mariana Tonin às 13h20
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