
Procura-se um desesperado, desesperadamente...
por Mariana Tonin
O sorriso congelado e quente, nenhuma cor diferente na face, nenhum tique revelando descontrole, nenhum estalo nas mãos, os olhos com o mesmo brilho tranqüilo e inabalável de sempre....
Era a morte saber que ele não morria de amores por mim! Eu queria lágrimas, gritos, suores, feridas e murros no ar libertando um corpo retesado em disfarces, ..., eu queria ver algo surgir de dentro do seu peito de pedra, mostrando que eu valia a pena, que valia a pena correr o risco de viver e lutar por esse amor.
Quem em sã consciência neste mundo louco e incerto pode ser verdadeiramente calmo e feliz sempre? Como uma pessoa pode manter a cara de capa de revista sabendo que não se controla absolutamente nada nessa vida?
Tudo isso martelava na minha cabeça e me fazia perceber que ele nada sentia por mim!
A minha certeza de amá-lo me enlouquecia, corroia, dava medo, ciúme, uma saudade idiota de mulherzinha romântica, uma vontade boba de estar junto o tempo todo como uma mulherzinha romântica e sem vida própria.
Eu estava vendida, achava cada dia mais que amar era uma escravidão e me enxergava pequena naquela mão linda e forte que ele possuía. Mas essa mesma mão, de punhos cerrados que não demonstravam sentimentos, esmagava minha auto-estima.
“Eu amo”, “eu entendo”, “eu desculpo”: falas mal ensaiadas de meu roteiro pobre! Eu preferia dizer “eu enlouqueço”, “eu estremeço”, “eu odeio”...
A negação do amor era o verdadeiro amor, o amor que não cabe em si, que extrapola, que não se aceita, que não se agüenta, que foge o tempo todo em círculos.
A cada frase pronta e controlada de um amor ponderado, eu me despedaçava em angústia por querer mais. Aquele quase-amor que ele me dava era tão pouco que me ofendia!!!
Mas ele apenas sorria com meus argumentos, duro para as fraquezas e mole para as tensões, ..., ele apenas sorria para as despedidas, para as impossibilidades, para as dúvidas e para os finais de domingo banais e sem emoção, ..., ele apenas sorria para a nossa vida juntos, dando a entender que o nosso “fim” não seria uma grande perda.
E eu terminei tudo por não agüentar aquele cuspe invisível em meu ego, e sai por ai, triste e solteira, com minhas amigas.
Fomos a um barzinho fashion que elas conheciam e, em homenagem ao lugar, Gabriela estava até usando um casaquinho lindo pra tentar esconder uma blusa decotada embaixo; Rose estava mais magra de tanto malhar e gastar o dinheiro do ex-marido; o quadro com a natureza morta surrealista era over demais, mas num contexto geral fazia o lugar ficar mais bacana; mas eu só conseguia enxergar o superficial do mundo, porque minha alma estava ausente.
Percebi que o garçom não era um desses aspirantes a humorista cearense ou um estudante de teatro; era um garçom tradicional, graças a Deus.... Percebi também que o banheiro era limpinho (isso deu a primeira pontinha de esperança em minha alma preenchida de decepções), apesar de alguém ter escrito "o ser humano é mesmo uma merda", bem ao lado do vaso sanitário.
Essas pequenas coisas estavam quase me fazendo sentir viva, tocando minha alma, mas eu ensaiava novamente o sorriso plástico e ouvia, sem escutar, a conversa de Gabriela e Rose sobre a nova neurose por alimentos sem agrotóxico.
Eu queria chorar, mas meu sorriso bobo enganava a todos...
Sim!!! Eu podia agir como ele, podia disfarçar, podia fazer de conta que a dor não era comigo, e ainda assim estar profundamente sentindo a vida e tudo o que ela tem de insana. Sim!!! Ele podia ser enorme e caótico mesmo usando sua máscara fria.
Vai ver ele me amava tanto, que disfarçar os desarranjos do amor fosse uma prova ainda maior de amor do que sair berrando inconstâncias.
E eu resolvi simplificar a vida, como o ditado do banheiro, e mandei uma mensagem pro celular dele dizendo "o amor é mesmo uma merda”...
E em pouco mais de meia hora, para minar ainda mais minha auto-estima, eu já estava disposta a perdoar novamente sua frieza e sua falta de iniciativa em me provar seu quase-amor.
Como eu fico linda quando estou sorrindo, né?!
Escrito por Mariana Tonin às 17h08
[ ]
|