
Eu só queria andar de mãos dadas...
por MARIANA TONIN
Eu sonho em ficar com você desde o dia em que nos “re-encontramos”, sabia?
Não?!?! Você não sabia?
Que estranho... Pensei que você soubesse!!! Eu me acho tão transparente...
Só que estamos com um problema sério, eu sei: vai ser um pouco difícil a gente se acertar porque você não me “vê”.
Bem, ..., me ver até que você me vê, mas não consegue me enxergar... Não consegue enxergar quem eu sou hoje e as coisas que valorizo.
Sim, meu amor! Eu mudei! Já se passaram mais de 10 anos desde o fim de minha adolescência e seria muito estranho que eu continuasse me comportando como criança crescida, né?!
Hoje sou mulher, assumo meus atos e luto pelo que quero, ainda que pra isso eu precise ser redescoberta.
Não, meu amor! Não vou grudar no seu pé ou viver as suas custas! Não se preocupe porque não sou seu apêndice e não dependo de você nem para andar e nem para ser feliz... Mas como seria bom andar e ser feliz ao seu lado.
Sim, meu amor! Eu realmente acho você bonito e atraente! Você não precisa viver a neurose da barriga ou coisa assim, afinal, minha bunda nem de longe lembra a da Sheila Carvalho e meus peitos balançam de leve, e naturalmente, quando corro.
Não, meu amor! Eu não vivo num conto de fadas! Não quero que você me receba com flores, bombons e poesias todo dia... Quero apenas que quando você me beije eu não deseje mais nenhuma força do universo.
Não, meu amor! Os jantares estereotipadas de filmes românticos não me interessam! Gosto mesmo é de lugares onde a gente se esquece das mesas ao lado e ri a noite toda, brindando ou não com água de bolhinhas.
Não, meu amor! Não sou rica ou muito consumista! Não precisamos ir a uma pousada 800 mil estrelas, com ofurô ao ar livre, decoração vitoriana, lareira e carrinhos charmosos que trazem o café da manhã no quarto... Basta você conseguir passar algumas horas encantado pela gente, nem que seja no sofá da sua sala, antes do dia de faxina.
Não, meu amor! Eu não acho tecnologia uma coisa indispensável! Gosto mesmo é quando a internet e o celular não pegam mas, em compensação, a gente se pega muito.
Não, meu amor! Não sou baladeira! Curtir com você a noite é legal, mas será que às vezes a gente não pode colocar um Sinatra bem baixinho e namorar no escuro?
Não, meu amor! Eu não acho você pouca areia pro meu caminhão! Eu jamais namoraria um super-homem! Tenho horror a pessoas falsamente infalíveis; por isso, não busco em você um homem que sempre vence, que sempre impressiona, que sempre salva e sorri impecável em dentes brancos e músculos ressaltados.
Só gostaria que você me visse, ..., que visse que eu não tenho necessidade de adjetivar as coisas para que elas sejam boas...
Como parece difícil você me “ver”, quero que você saiba que vou me esforçar para me adequar ao seu mundo!
Prometo que vou refletir se estou sendo muito elitista. Quem sabe até eu pare de implicar com as garotas em série e seus namorados em série, e até consiga compreender que essa é a forma que eles escolheram ser (ou comodamente aceitaram?)...
Juro que vou parar de ser deprê ou filosofar, naquelas intermináveis conversas sobre como o mundo está perdido e as que as pessoas lutam todos os dias para se parecerem ainda mais com o perdido ao lado, se perdendo ainda mais...
Te garanto que não vou mais me sentir superior áqueles que cuidam do corpo mas esquecem da alma, ..., que cuidam do cabelo mas esquecem da mente, ..., que cuidam da superfície mas fazem eco por dentro, ..., que colocam um peito de silicone mas esquecem de dar mais uma chance ao amor. Não sou nem melhor e nem pior que eles, né?! Então porque devo me sentir superior?
Vou tentar me inserir em algum grupo por definitivo, fazer o possível para me relacionar com a galera feliz em pertencer a um mesmo barco; e eu juro, juro mesmo, não vou mais questionar se esse barco vai nos levar a algum lugar...
Quero que você se orgulhe quando eu conseguir fazer parte dessa feira de egos, que compete para ver quem tem a casca/invólucro mais bonita e de melhor certificação...
Garanto a você que vou até me divertir e distrair com as mentiras modernas do mundo e jamais vou lembrar que tudo que eu queria era apenas que você me visse como sou hoje, sem máscara, e que pudesse andar de mãos dadas comigo pela vida, como minha avó e meu avô fizeram por mais de 50 anos...
Escrito por Mariana Tonin às 11h42
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Amor Responsável, por MARIANA TONIN
No encontro de dois futuros amantes é pouco provável que um clarão rasgue o céu, que clarins toquem, ou que qualquer outro sinal celeste lhes dê a certeza que ali está a alma gêmea tão esperada. O que costuma acontecer é bem mais terreno e prático!
O que nos leva a preferir aquele a tantos outros?
Penso que é a soma de muitos fatores e que para cada pessoa existe uma diferente chave de atração, espécie de centelha que desencadeia o processo: a inteligência pode ser fator preponderante para uma mulher, enquanto outra se sente atraída pelo dinamismo, outra se liga ao senso de humor e outra, ainda, se interessa pelo físico.
Daí a importância de se prestar atenção! Atenção para verificar se a primeira impressão estava certa e se aquele é realmente o homem cujo arcabouço principal nos interessou, ..., atenção e sinceridade para não fazermos julgamentos sob pressão, estando ávidas a procura de alguém que nos sirva, ..., atenção para saber decifrar aqueles elementos imprevisto de personalidade, e que podem se tornar mais importante do que o esboço inicial: ele é lindíssimo, mas a única mulher que considera ideal é a mãe dele; ele é inteligente, mas egoísta demais para compartilhar seus conhecimentos; ele tem um raro senso de humor, mas usa sempre contra os outros; e por ai vai.
Temos, principalmente, que ter atenção em não prestar atenção demais! Isso acabaria tirando o brilho do primeiro encontro, do encantamento, da descoberta e, principalmente, da esperança meio cega do acerto.
Logo após o encontro começa a delicada fase em que estabelecemos a base de nossa igualdade, em que criamos condições para que o amor nascente não seja apenas um amor romântico, enfeitado de sonhos; e sim um amor real, estruturado para durar.
Ao falar de igualdade, quero dizer que cada um deva encontrar sua identidade (masculina ou feminina) dentro de si, em não na caixinha dos rótulos que a sociedade impõe; e que estas duas identidades, por sua vez, procurem estabelecer a convivência dentro de iguais direitos e deveres partilhados.
Bonita essa conversa de partilhar, né?! Mas partilhar por quê?
Simplesmente porque em amor as pessoas querem dar e receber, e o melhor é que isso seja feito na mesma medida!
Se pararmos para pensar, compartilharmos inconscientemente desde o inicio da relação. Procuramos a pessoa que, parecida conosco, nos complete. E só há um meio para testar essa identidade: entregar nossos pensamentos, nossos desejos e nossos objetivos para ver se coincidem com os desejos, objetivos e projetos dele.
Isso no início... Porque logo depois coisas mais concretas e às vezes bem mais prosaicas têm que ser partilhadas, pondo a prova a nossa real capacidade de conviver.
Partilhar é, enfim, viver em harmonia com o outro. É como andar de tandem (aquela bicicleta para dois ciclistas) que só funciona realmente se as pedaladas estão no mesmo ritmo e, sobretudo, se os dois querem ir na mesma direção.
Partilhar não é apenas dividir tarefas e despesas, é estar junto no modo de ver a vida, é fazer dos próprios sentimentos uma área livremente transitável. E isso só se consegue com intimidade.
Mas sabemos que um amor pode ser intenso sem ser intimo. Fazer sexo não implica necessariamente em intimidade; não naquela intimidade de sentimentos a qual me refiro.
Que intimidade é essa então?
Ela começa no desejo de realmente conhecer o parceiro e profundamente dar-se. Pudor nenhum pode barrar-lhe o passo, nem medo. E se estabelece aos poucos, à medida que os amantes se interpenetram.
Mas intimidade não é invasão! É justamente saber respeitar a privacidade do outro. É também aquilo que vem do reconhecimento dos defeitos, nosso e dele. É um conhecimento que elimina a necessidade de esconder-se em máscaras. Não é preciso fingir, já que o outro nos ama exatamente por aquilo que somos.
A intimidade não é indispensável à paixão, mas o é ao amor responsável, àquele amor que pretende ser mais sólido que apenas uma labareda.
No amor responsável está a grande possibilidade de sucesso de uma relação. Não se trata de compromisso, e sim de uma intenção consciente que o amor está bom, nos faz feliz, e por isso deve ser protegido e conservado.
O amor responsável sabe que tem um raro tesouro nas mãos, mas sabe igualmente que ele não é dado de presente pela sorte. Ele é construído a cada dia, pelos dois juntos, numa obra que não é só vertical (empilhação de experiências), que pode ser demolição para reconstruir, que é feita de muitas reformas e que, sobretudo, nunca tem um projeto definitivo.
Incluir o amor no dia-a-dia, fazer dele matéria primeira do nosso viver, é o passo inicial em direção ao amor responsável. Vivido profundamente, ele se irradia em todas as direções, permeia todas as atividades, tornando-nos pessoas melhores e mais receptivas.
Não há como garantir a duração de um amor. Responsabilizar-se por ele pode não eterniza-lo, mas nos dá a certeza de uma qualidade melhor e mais sólida de amor, a única que realmente pode configurar um casal.
Escrito por Mariana Tonin às 11h35
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 Cadê?, por MARIANA TONIN
Já está em ebulição, vazando, transbordando, ..., e nada da tampa da panela pra socorrer a lambança.
E o meu pé então... Coitado!!! Meu pé cansado já tentou calçar (à força) de tudo: do chinelão que descola as tiras ao sapatinho de cristal, mas nenhum serviu e o coitado está todo esfolado.
E o que fazer com essa laranja??? Não tem ninguém pra descascar, chupar ou fazer uma laranjada comigo. Em compensação, laranjas na minha vida não faltam.
Chega!!! Há anos peço um príncipe encantado moderno, mas só me mandam o cavalo antiquado...
Será que é culpa da pressão que eu ponho em tudo isso? Deve ser!!!
Mas passar um final de ano sozinha foi muito deprê...
Fui megera o suficiente pra ver uma família feliz no shopping e pensar que aquela instituição "image bank" não passava de uma união solitária de aparências, ..., fui megera o suficiente pra furar a fila do Papai Noel e pedir de presente um homem bem exclusivamente apaixonado por mim, ..., fui megamegera o suficiente pra não admitir minha carência e dar uma risada debochada de todas as luzes, canções e emoções de boas-festas.
Mas na hora da queima de fogos não deu pra ser megera...
Incrível, mas isso sempre me faz chorar. É impressionante como a gente se sente sozinha na hora da passagem do ano, né?!
É claro que fechei os olhos e me desejei saúde, alegria, muitos amigos, sucesso profissional, blá, blá, blá, ..., mas não saí atacando para todos os lados nas simpatias deste réveillon. Isso não dá certo!!! Este ano foquei no amor.
Usando um vestido branco com vermelho, calcinha cor-de-rosa e fitinhas de Santo Antônio, dei os sete pulinhos com a mão no coração. Não sei se meu desejo de encontrar “o cara” vai se realizar, mas pelo menos a mão no coração já segurou meus seios naquele vestido frente-única que usei...
Posso ser uma mulher moderna e tudo, mas ainda sou mulher, certo?! Ainda quero alguém pra dormir protegida no peito (de preferência largo, forte e levemente cabeludo) durante e depois de uma noitada (ou várias), ..., quero sentir aquela coisinha do "é esse”, e não o já cansado “se ele quisesse, poderia ser esse”.
Não!!! Isso está errado!!! Quero a plenitude!!!
Dizem que materializar os sonhos escrevendo ajuda, então lá vai: quero cineminha com cabeça nos ombros, ..., quero casar por amor, ter uma casinha nossa, filhos e cachorros, ..., quero transar com beijo na boca, olhos nos olhos, eu te amo e muita sacanagem, ..., quero ouvir Sinatra numa noite chuvosa, tendo um bom livro de um lado e o homem que amo do outro, ..., quero almoço de domingo com as famílias reunidas, ..., quero que ele perceba quando meu peito estiver amargurado e precisando de riso, ..., quero que ele esqueça, de vez em quando, seu lado egoísta e lembre do meu, ..., quero que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor, ..., quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre, .., quero ser criança, mulher, megera ou maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território, .., quero sexo na escada e alguns hematomas, mas depois descansar na nossa cama imensa e macia, ..., quero foto brega na sala, com duas crianças enfeitando nossa moldura, ..., quero o sobrenome dele, o suor dele, a alma dele, ..., quero que ele passe a mão na minha cabeça quando eu for sincera em minhas desculpas e que ele me ignore quando eu tentar enrolá-lo em minhas maldades, ..., quero ver o tempo levando um pouco de seu cabelo ou os mudando de cor, ..., quero que ele leia interessado as coisas que eu escrevo e me olhe com aquela cara de "essa mulher é única".
É mais ou menos isso!!!
Sei que pode parecer muito, mas não precisa ser exatamente assim, tintim-por-tintim.
Exigir demais pode me fazer acabar sozinha, em algum especial de fim de ano com o Roberto Carlos, né?! Deus me livre!!!
Bem, .., analisando aqui e ali, ..., dá até pra tirar umas coisinhas.
Basta que ele me ame (e me amar mesmo), que olhemos na mesma direção, que seja companheiro de vida (e de sexo) e a família que escolhi formar.
Pronto!
E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que "aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências", vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.
Escrito por Mariana Tonin às 06h31
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Amor é “modi-ficação”, por MARIANA TONIN
Em Estudios Sobre el Amor, José Ortega y Gasset diz que “a vida humana, em sua própria essência, é criadora de moda (...), é a modi-ficação. (...) Cada época possui seu estilo de amar, que se modifica sempre.”
Conversando sobre esse tema com meu grupo de estudo de gênero, ouvi o seguinte comentário: “Todas as mulheres, até as mais feministas, sonham com um grande amor; querem alguém carinhoso, atencioso, compreensivo e que nos entenda a alma. Isso não mudou com o tempo. Isso nunca vai mudar. E por isso buscamos incessantemente.”
Confesso que fiquei preocupada! Confesso que imaginei um alvo muito difícil de ser alcançado! Esses adjetivos descrevem uma pessoa perfeita, que só habita nos sonhos femininos, como a participante do meu grupo de estudo disse.
Mas fora da Matrix, no mundo real, esse “grande amor” é raridade, mas nunca cansamos de procurá-lo. E de procura em procura, vamos acumulando experimentações afetivas e sexuais para colocarmos em nosso currículo de vida...
O problema é que não fomos criadas para isso! Não fomos criadas para sairmos por ai, pulando de relacionamentos em relacionamentos, de cama em cama, até encontramos o homem certo!
Por mais que hoje sejamos mulheres adultas e donas dos nossos próprios narizes, éramos meninas ainda ontem; e a idéia de entregar-se sem amor ou garantias do parceiro ainda é um problema, e está lá, escondidinha em nosso inconsciente coletivo.
Paralelo a isso, não aceitamos mais ser passivas quanto aos relacionamentos; queremos participar do processo de conquista e escolhermos nossos parceiros. E obviamente isso gera um conflito: a menina que teme o “amanhã” X a mulher ousada que vive o ”hoje”.
Por isso que, pra amenizar essa ambiguidade, muito se fala no “infinito enquanto dure”, já perceberam?! Trata-se de um amor sem prazo marcado, que fica quando quer e enquanto quer, livre da prisão da eternidade, apenas medido pelo prazer e não pelo calendário.
Mas esse amor pode ser perigoso! Dito pelo poeta, fica muito bonito e romântico... É um amor ardente e intenso, vivido como se fosse eterno, capaz de dar poemas, samba, mas não felicidade!
Recentemente um homem que conheço me surpreendeu muito ao dizer que espera o “infinito enquanto dure, ..., mas que dure pra sempre”. Segundo ele, não existe amor ou felicidade absoluta, que isso deve ser contruído, e que por isso devemos ser adeptos daquilo que chamei de Amor Responsável.
Trata-se daquele amor que faz do casal uma unidade, fruto da dedicação e do cuidado que o construímos, em suas várias etapas.
Mas como disse Ortega y Gasset , o "amor é modi-ficação"... Assim, penso que o amor responsável é uma modificação de outros "amores" (de uma noite só, do infinito enquanto dure, etc.), que vem se construindo aos poucos, até se tornar real.
Escrito por Mariana Tonin às 08h53
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