
Desamor revisitado, por MARIANA TONIN
Realmente era um absurdo afetivo eu estar indo àquele lugar e passar alguns dias com ele, ..., realmente eu acreditei que era só amizade o que tinha restado a nós dois.
Mesmo quando ele chegou no aeroporto, de longe eu vi aquele rosto expressivo que eu tanto amei, ...., aquela carinha infantil que eu tanto amei, ..., aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… E eu imediatamente me perguntei por que amei tanto e não amo mais.
Ele me abraçou saudoso, realmente com carinho, me apertando contra ele até quase estalar algum ossinho da minha coluna, e me disse: “Ô, lôra... O que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”
E eu? Bem... Eu espreguiçei para sugerir desinteresse, mas meu coração bagunçou tanto que tive um ataque de tosse.
Antes de deixarmos minha mala no apartamento dele, onde ia me hospedar por 2 dias antes de meu compromisso profissional, passeamos pela cidade num programa “amigos-nada-não”, almoçamos e entramos de mãos dadas no cinema, felizes como se estivéssemos estado junto todo esse tempo.
Ele me olhava sem parar, suspirava e observava encantado cada movimento que eu fazia, cada semblante, cada segundo do meu raciocínio. E eu fazia um esforço pra tentar me entender o porquê do nosso fim.
Apesar do filme ser um lixo, máster-clichê, ao lado dele tudo ficava divertido... E para amenizar o horror, brincamos de adivinhar as próximas cenas ao som de “shius” que os humanos limitados faziam, inconformados com aquele casal que tentava boicotar um filme tão "supimpa".
Sobrava pipoca no dente, entrava pipoca no sutiã, e cada vez que nossas mãos se encontravam salgadas, dentro do saco, a gente brincava de roçar os dedos, imitando pernas desesperadas.
Ao chegarmos ao elevador do prédio senti uma coisa estranha, um medo, um receio, sei lá... Me bateu uma sensação inexplicável de dejavu.
Já no apartamento, ele mostrou que tem todas as minhas músicas prediletas (que eu ensinei a ele tempos atrás) no seu iPod última versão, que comprou toddynho para eu tomar antes de dormir, e que abarrotou a geladeira de frutas diversas, para eu ter opção ao fazer minha tradicional vitaminada pela manhã.
Sim! Sim! Ele lembrava de todas essas coisas a meu respeito...
Realmente ele era um híbrido de super-homem com criancinha fofa, e comecei a me culpar por ter deixado esse cara sair da minha vida.
Me cercando de mimos, ele parou o mundo todo, se ajoelhou no sofá deixando as mãos no meu colo e disse: “Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo. Nada mudou com relação a nós!”
Seus olhos brilhavam; a música se tornava instrumental, matando qualquer palavra; a cidade não respirava; o tempo não existia; a solidão era coisa de gente que morava muito longe dali; minha mente aquietava todos os monstros; a poluição virava oxigênio puro e cor-de-rosa; os porquês desagradáveis do nosso “fim” explodiam no ar, deixando apenas estrelas para iluminar nosso recomeço; as dúvidas todas do que fazer pelos próximos mil anos se simplificavam...
Sim! Sim! Eu desejei viver aquele momento e zerar tudo de antes... Eu quis amar aquele homem naquela hora, como antes, como nunca. Por que não?
Mas depois de tudo, enquanto eu ainda estava deitada na cama dele, o vi na sacada olhando a cidade, totalmente pensativo, como se estivesse num imenso conflito e desejasse mais que tudo se virar e não me ver mais ali.
Quando finalmente nossos olhares se cruzaram, ele entendeu que eu tinha entendido, e abaixou a cabeça... Ele até pôde ter sentido pena, mas me considerava forte e resolvida demais para ter pena de mim. Penso que sentiu pena dele mesmo por não conseguir aceitar o óbvio, por relutar em admitir essa entrega!
Eu, corcunda de constrangimento, me enrolei numa toalha, corri para o banheiro, me joguei no chão do boxe e deixei a água quente me dizer que tudo ia ficar bem, que não era a primeira vez que eu me sentia tão perdida, usada, burra e sozinha.
Os restos dele grudavam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos faz viver cheios de medos e traumas, e eu quis tomar o banho mais urgente e demorado do mundo. Lá, mirei meus olhos traídos e esquecidos, tentando pedir desculpas não aceitas a mim mesma!
Antes dele sair pra resolver "algo urgente", deixando-me sozinha hospedada em sua casa, deixou dois chocolatinhos na mesinha de cabeceira.
E eu? Bem... Arremessei um dos chocolates pela janela, com ódio; e o outro eu comi, afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico quando se trata dele.
Ninguém nessa vida consegue se dar e ser por inteiro, já notaram?!
Agora me lembro perfeitamente porque deixei de amar esse homem... Lembro exatamente que por causa dele uma vez deixei de me amar...
Escrito por Mariana Tonin às 17h34
[ ]
|

Te perdôo por te trair, por MARIANA TONIN
“... te perdôo por contares minhas horas, nas minhas demoras por ai, ..., sim, te perdôo, ..., te perdôo porque choras quando eu choro de rir; te perdôo por te trair.” (Mil perdões – Chico Buarque)
A palavra Traição vem do latim traditione e significa entrega; ato ou efeito de trair; crime de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo; perfídia, deslealdade, aleivosia; infidelidade no amor. Já a palavra Fidelidade vem do latim fidelitate, e significa qualidade do fiel; constância nas afeições e sentimentos; perseverança; observância rigorosa da verdade.
Etiologicamente, nota-se um conteúdo moral, carregado, que dá significado a uma ação muito mais comum do que se imagina.
Ser fiel é virtude! Trair é crime! E assim aprendemos...
Foram ensinamentos passados de geração a geração, embora sabíamos tratar-se de mais uma das “meias-verdades” que a sociedade insiste em manter.
Mas sempre me questionei muito mais que isso.... Me questionei por que a traição do homem ainda é aceita socialmente e a da mulher não...
Marina Colasanti, na obra A Nova Mulher, diz que a raiz desse comportamento social está na “opressão lingüística” que os homens exerciam sobre as mulheres. Segundo ela, como proibir o adultério (ou mesmo a traição entre amantes) era difícil, proibiu-se falar sobre ele e o silêncio virou lei. Assim, preservava-se a honra dos amantes, resguardava-se a instituição familiar, evitava-se os escândalos, enfim, salvava-se toda a estrutura social.
Simone de Beauvoir, antropóloga e feminista, diz que a “representação do mundo é tarefa dos homens. Eles os descrevem segundo seu ponto de vista particular, que confundem com a verdade absoluta.”
E assim se instaurou o silêncio, a opressão linguística... E nunca mais nossas santas avós traíram nossos honrados avôs...
Hoje, as mulheres maduras e independentes não suportam mais opressão, muito menos lingüística. Não toleram argumentos do tipo “os homens traem por natureza, porque são instintivamente polígamos”, ou “os homens traem porque suas companheiras estão sempre grávidas ou em período menstrual”, ou ainda “os homens traem porque gostam mais de sexo do que as mulheres”.
Encaramos isso como “argumentinhos” infantis, que merecem respostas concretas e atualizadas: 1) olhando o homem primitivo nota-se tanto a poligamia quanto a poliandria (que ainda existe no Ceilão, Índia e Tibet); 2) as mulheres hoje usam contraceptivos para não engravidar; 3) a menstruação só ocorre uma vez ao mês e não impede a relação sexual em hipótese alguma; 4) não há comprovação fisiológica ou psicológica de que as mulheres gostem menos de sexo do que os homens, ao passo que há constatação científica que nem todos os homens são potentes a vida toda.
Eu, como todas as mulheres de longa linha que me antecediam, também fui traída, também aceitei os argumentos masculinos e também suportei com elegância a traição. Fiz isso porque estava certa de estar cumprindo corretamente meu papel feminino mas, só muito mais tarde me dei conta desse tremendo engodo social, dessa mitologia acerca da mulher traída e do homem conquistador.
Hoje, não serão esses argumentos que vou aceitar! Não será devido ao meu comportamento sexual que meu companheiro vai “precisar” procurar outra!
Com toda nossa independência, grosso modo, a mulher da vida agora somos nós mesmas! Somos a “mulher da vida” no sentido mais bonito, que além de dar vida gerando, ainda dá vida na plenitude do prazer.
Mas será que isso é suficiente para que nossos companheiros não nos traiam?
Penso que talvez não seja! O homem não nos trai devido ao que somos ou deixamos de ser, e sim por aquilo que ele próprio é.
Um homem pode trair por insegurança, afirmando-se a cada nova conquista e garantindo sua masculinidade; pode trair na busca da imagem da mulher ideal; pode trair por “solicitação”, por não poder recusar um convite feminino; podem trair por frustração, deslocando para o sexo seus conteúdos reprimidos.
Essas são apenas algumas razões que levam um homem, relacionado com uma excelente mulher e de quem ele gosta bastante, a traí-la com outra menos bonita, menos inteligente ou até menos mulher.
E quando essa traição masculina se abate sobre nós, mulheres, a primeira pergunta que fazemos é “Por quê?”, em seguida vem a máxima “O que está errado comigo?”.
Ai que está o problema!
Talvez nada esteja errado conosco, e sim com a nossa criação! Cada vez que alguém nos trai, inconscientemente nos cobrando e nos culpando, certas de que o fracasso é nosso, e assim como nossas antepassadas, continuamos deixando que os homens vivam na íntegra o pensamento Rodriguiano cantado por Chico Buarque no início, o “te perdôo por te trair...”
Escrito por Mariana Tonin às 06h51
[ ]
|

Amor de uma noite só, por MARIANA TONIN
“Não tenho paciência para televisão; eu não sou audiência para solidão. Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também...”
Não é raro hoje, encontrarmos uma mulher interessante procurando alguém para “estar”. Se conseguirmos entrar em seus pensamentos quando esse alguém surgir, certamente ela estará dizendo a si mesma: Por que não?
Talvez para estar atualizada aos novos conceitos de “amor”, ela acaba deliberadamente disposta a viver um AMOR DE UMA NOITE SÓ; uma noite de sexo que terminará com as roupas pelo chão e a maquiagem desfeita, sem falar de uma despedida discreta e ás vezes até constrangedora.
Mas é só sexo que ela busca? Eu penso que não! Ela quer sexo sim, mas também quer amor; quer sexo e afeto; quer sexo e calor. Mas quando a possibilidade do sexo aparece, mesmo sem nenhum desses outros componentes, ela aceita. Ou finge (nega para si própria) que não precisa do resto, ou fantasia que esse resto vem junto.
R.S., 25 anos, diz que “o amor de uma noite só, nem sempre é de uma noite só. Geralmente temos algumas expectativas. Quando vamos para cama com alguém, mesmo sem compromisso, significa que essa pessoa realmente mexeu com a gente. E se mexeu, imaginamos que vai ser bom e que pode acontecer outras vezes; que pode até se transformar em compromisso”.
E se isso não acontecer?
R.S. diz que “.. é complicado, mas de forma alguma a experiência é negativa; podemos ir aprimorando nossa busca por alguém ou até mesmo por prazer”.
Evidentemente também encontramos mulheres interessantes a procura de um sexo descompromissado, que quebram os tabus de sua formação e vivem seus desejos na íntegra, preenchendo suas noites com a alegria de um orgasmo. Mas mulheres assim são raras! A maioria não se permite tal experimentação.
O que ocorre em ambas situações, é que as mulheres não se satisfazem como imaginavam. Ou o “resto” esperado através do sexo (amor, afeto, calor e possibilidade de um “amanhã”) não vem depois; ou o sexo por sexo não é tão bom assim, haja vista que a primeira noite de um casal tem um rendimento reduzido e há, mínima que seja, uma tensão natural que pode gerar uma satisfação precária.
E como a experiência não é gratificante e nem sempre oferece o previamente imaginado, a experimentação continua...
No IV Congresso sobre Representação da Imagem Feminina (Brasília, 2005), a psicanalista Suzana Alves Vieira disse que "toda nossa realidade se tornou experimental. Na ausência de destino, o homem e a mulher moderna estão entregues a uma experimentação sem limites sobre si mesmos".
E esse dar-se hoje a um e amanhã a outro, está fazendo com que as mulheres vivenciem uma grande ressaca sexual, antigamente privilégio masculino.
Mas para eles, existe uma facilidade social. Eles foram criados para isso! Eles foram criados para exibir a quantidade em seu currículo sexual! Eles cumprem um ritual de virilidade!
E é ai que penso estar o problema. Ao tentar afirmar igualdade, buscando a alegria (sexo) onde os homens sempre disseram que ela estava, as mulheres correm o risco de repetir o mesmo ritual viril. Podem deixar de ser “usadas” para ser apenas “usuárias”.
Contrariamente ao que eu pensava, os homens maduros não acham esse ritual de virilidade tão bom assim. Segundo M.F. (homem, 35 anos), “até próximo dos 30 anos realmente era a quantidade o mais importante; hoje, só vou pra cama com alguém que me desperte um interesse além do sexual, que possa me acrescentar algo, que me motive a troca de prazer e me proporcione um orgasmo pleno. Sexo por sexo, às vezes é melhor se masturbar sozinho, porque nem sempre uma ejaculação corresponde ao um orgasmo...”
E assim, quebrando alguns estigmas, restam às mulheres fantasiar...
Pena que as fantasias femininas costumam ser delirantemente românticas ou delirantemente sensuais, mas nunca delirantemente realistas. Mas a vida é!
O amor de uma noite só é uma experiência que faz parte da vida moderna. Pode acontecer de ficarmos frustradas com a situação e não quereremos mais outros encontros desse tipo; acontecer de esperar um “amanhã” e o homem simplesmente sumir após trocar de roupa; acontecer da relação não emplacar para ambos; ou também acontecer de ser vivenciada em toda sua plenitude, como era inicialmente para ser: numa noite só.
O fato é que ela acontece, quer a gente queira, quer não... Portanto, é importante ter em mente que tais inesperados podem acontecer e que, mesmo que eventualmente seja um jogo saudável, não é uma boa prática de vida e exige seu momento certo, aquele que chamamos de maturidade.
Escrito por Mariana Tonin às 15h09
[ ]
|
|