Fazendo Gênero


Rupturas Necessárias,
por MARIANA TONIN


“A vida que me ensinaram era uma vida normal. Tinha trabalho, dinheiro, família, filhos e tal... Era tudo tão perfeito, se tudo fosse só isso. Mas isso é menos do que tudo; é menos do que eu preciso... Agora você vai embora e eu não sei o que fazer. Ninguém me ensinou na escola, e ninguém vai me responder.”

Cresci no auge do Pop Rock Nacional, ouvindo Paulinha Toller cantar extasiada os trechos acima. A música é o reflexo dos conflitos internos das mulheres de minha época e retrata como nossa capacidade de desvincular afetivamente demanda tempo e, em geral, traz consigo culpa emocional e vários questionamentos.

Isso ocorre porque fomos criadas para sermos filhas exemplares (entenda-se: que ninguém tivesse motivos para nos cobrar), boas alunas, excelentes profissionais e, em paralelo, esposas e mães dedicadas. Mas nesse currículo grandioso, quase utópico, estariam as nossas “experimentações” afetivas e as nossas buscas.

E essas “experimentações” ocorrem porque o amor existe, o amor acontece, e o amor acaba, quer aceitemos, quer não.

Sabendo que o amor é uma emoção, das mais nobres, porque nos é tão difícil aceitar que ela acabe e vá, como todas as outras emoções?

Elaine Hatfield, psicóloga e pesquisadora da Universidade de Minnesota, criou a Teoria da Equidade para explicar a dificuldade feminina em romper, em desfazer os vínculos. Segundo ela, buscamos no outro um pedaço de nós mesmos e, quando o encontramos, reincorporamos como parte necessária. Abrir mão disso é como abrir mão de um pedaço nosso, e traz a sensação de estarmos mutilando carne e sentimento.

Mas é ai que nos enganamos... Vai-se o objeto de amor, mas nem tudo vai com ele!

Evidentemente não encontraremos alguém tal e qual, mas certamente encontraremos outros tantos como nós, com os quais iremos compondo o mosaico das nossas identificações amorosas, as já citadas “experimentações”.

Queremos um amor eterno, apesar de sabê-lo tão improvável, porque esta é a única maneira de evitarmos rupturas.

Romper é mais angustiante do que a realidade do fato em si. É fácil deduzir que o que nos assusta não é exatamente a perda do companheiro ou do amor, mas a perda, pura e simplesmente.

Eu penso que ao medo da perda soma-se o medo de recomeçar. Significa reacender as esperanças, arrumar tudo de novo e de novo submeter-se ao risco de encontros e desencontros. Significa viver mais uma vez a emoção e os riscos da disponibilidade, e mais outra “experimentação”.  E isso cansa...

Mas significa também a possibilidade de um novo e radioso amor, de descobertas propícias e de horizontes mais amplos... Isso dificilmente conseguimos ver, afinal, estamos de testa baixa, carregando a culpa de um fracasso.

Imbuídos da obrigação de viver uma relação perfeita e infinita, sentimos a ruptura como uma falha pessoal, um grave fracasso.

Para área do amor convergem todas as emoções, todas as pressões sociais e familiares, as pequenas e grandes neuroses e as carências. Há muito mais coisas envolvidas do que um homem, uma mulher, e o momento da separação.

No livro Love and Limerence (Amor e Paixão), da psicóloga norte-americana Dorothy Tennov, os sintomas de paixão são descritos como: pressão no peito, desejo agudo de reciprocidade, medo de rejeição, mudanças drásticas de humor e pensamento voltado para o objeto da paixão. Segundo ela, a Limerence é uma emoção e tem um prazo de vida de dois anos, em média.

Assim, dito por uma especialista no assunto, podemos até concordar, mas em nosso inconsciente coletivo é muito difícil não esperar a durabilidade e o controle. Sendo uma emoção, escapa de todas as juras e de boas intenções.

Viver o amor como sendo infinito pode parecer ideologicamente bonito, mas nem isso é! É como perseguir o inútil sonho da perfeição.

Cada amor é único. Pode ser circunstancial, intenso, descontrolado, quase-perfeito ou ir mudando aos poucos. Mas será, SEMPRE, intensamente aproveitado se tirarmos da nossa cabeça essa terrível preocupação temporal.

Está certo! Fomos criadas na convicção que uma relação séria é fundamental, que nos garantirá o prosaico amor eterno. Mas de que vale a garantia temporal se nele não está mais a nossa felicidade?

Assim, não estaríamos mais defendendo o amor, e sim usando-o como desculpas para escamotear nosso medo de enfrentar a vida com seus vãos de desconhecidos e momentos de solidão.

Lutar para conservar um amor que existe e que está ameaçado é bonito e é justo. Mas é preciso examinar bem esse amor, confirmar sua força e sua validade, para não findar defendendo um fantasma.

Assim como é importante deixarmos as portas abertas e os sentimentos disponíveis para a chegada de um amor, também devemos deixar livre a passagem para que ele se vá quando sua hora chegar



Escrito por Mariana Tonin às 07h14
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(Obra INSANIDADE, de Júlio Pablo)

Tragicômico,
por Mª Alice B. Zuckermam

 

Estive recentemente no Congresso de Psicologia e Profissão, em São Paulo, e confesso que andar pelo centro da cidade tem se tornado a cada dia uma aventura, na qual Indiana Jones perderia o chicote e Crocodilo Dundee, o facão e a pose.

É algo realmente trágico, mas a nossa mente esperta deixa quase tudo com ares cômicos, para poder sobreviver:

Uma voz fininha e lamurienta de uma mulher com lenço na cabeça quase me convenceu que eu precisava ajudá-la mas, duas ruas dali no dia seguinte, peguei a tal mulher saindo no berro com a funcionária do banco (Não é o banco da praça! É aquele banco que tem dinheiro). A mulherzinha queria exercer a profissão de pedinte fora do espaço pré-estabelecido pela associação municipal dos mendigos, ou seja, dentro do estabelecimento bancário, e foi impedida pela funcionária. Levei o maior susto ao ouvir o berro da mulher de voz fininha e lenço na cabeça, pois de soprano em falsete, ele passou para um barítono autêntico. Isto é trágico, mas é cômico.

A outra mendiga chorava de maneira desesperada, soluçando e falando ao mesmo tempo, e as suas lágrimas quase se juntaram às minhas, tão desolada eu fiquei ao assistir a dor da pobre e ainda imaginar o drama que esta criatura deveria estar vivendo. Mas... em questão de segundos, ela se irritou com alguma esmola irrisória, parou imediatamente de chorar e soluçar, e soltou um bando de palavrões que até o cais mais ordinário ficaria ruborizado ao ouvir. Cada um tem seu trabalho neste teatro urbano... Isto é cômico, mas é trágico.

Continuando a caminhar, passei por uma loja imensa e a música sertaneja que saía lá de dentro era tão feia e tão brega que obrigou meus passos a saírem do ritmo. Com isto, fiquei meio manca e totalmente desengonçada, e gritei uma ordem para as minhas pernas: “Não escutem! Não escutem! Voltem ao passo normal e finjam que nada está acontecendo! “

A letra era tão ridícula que eu não pude deixar de revirar os olhos e torcer a boca, num desprezo absoluto pela proposta que o peão estava fazendo para a amada: "Venha para mim e eu te prometo casa, comida e roupa lavada. Paro de beber e chego cedo em casa."

Pensando bem, se ele realmente possuir boa mão na cozinha, deixar a louça limpinha, lavar e passar toda a roupa e ainda parar de beber, eu acho que a amada poderia considerar a proposta. Meu Deus! Será que estou tão desesperada assim atrás de um homem? Isto é trágico, ... e cômico.

O carro do corpo de bombeiros passou voando, com a sirene ligada. Era uma favela próxima do centro da cidade que estava em chamas. Fiquei arrepiada de angústia. Isto é trágico, e nada cômico.

Nessa confusão, a mulher que estava na minha frente tropeçou, ficou com vergonha e olhou para mim. Eu segurei o riso e fiquei olhando fixamente para ela, tentando passar alguma solidariedade. Isto é cômico.

Finalmente, cheguei ao meu destino: um foto qualquer da cidade.

Sentei ao lado da mocinha gentil com ares competentes e entreguei o CD com as fotografias que eu queria imprimir. Decidimos o tamanho e o preço das fotos e o horário para pegá-las.

Antes de sair, resolvi perguntar se ali no estabelecimento era possível escanear fotos e qual seria o preço. Ela me disse que se fossem recentes era tanto e se fossem antigas, dois tantos.

- Ah, que beleza! Então vocês fazem um trabalho de restauração nas velhas fotos?

- Sim, mas, para isso cobraremos os dois tantos mais outro tanto.

- Desculpe a minha ignorância, moça, mas, eu acho que não entendi absolutamente nada. E pelo nada que eu entendi, o scanner teria receio de entrar em contato com o papel idoso da fotografia e ficar gagá? É por isso que fica tão mais caro escanear uma foto antiga?

Saí de lá sem a explicação, mas absolutamente decidida a mandar arrumar o meu próprio scanner que já anda enfiando caraminholas no fusível, querendo uma aposentadoria por tempo de serviço.

Andei por ali, por lá e por aqui, e peguei as fotografias prontas na hora marcada.

Surpresa! Quando olhei, não pude acreditar. As pessoas das fotos só possuíam uma parte da cabeça. Estavam sem testa e sem cabelos. Reclamei de forma educada, mas, firme.

- Veja, as fotos estão mal enquadradas e vocês vão precisar refazê-las.

- Claro! Mas a senhora terá que pagar um pouco mais por isto.

- Como assim?

- É o seguinte: para que a foto seja enquadrada de forma correta, a senhora precisa pagar um preço adicional por este serviço.

- Isto aqui é realmente um serviço fotográfico sério?

- Sim, claro.

- Que susto, moça! Por um milésimo de segundos achei que era um laboratório de pesquisas científicas, daqueles que montam gente com pedaços de gente. Mas, me diga, uma loja de fotos não tem a obrigação de fazer um trabalho decente?

- E nós fazemos.

- Fazem? - perguntei colocando um enorme ponto de interrogação ao final da frase irônica.

- Sim, senhora.

- Olha, moça, você não tem culpa de nada, mas isto é a coisa mais pervertida que eu já escutei na minha vida. Eu trouxe ótimas fotografias e vocês me entregaram pessoas sem cabeça. E para ter as cabeças de volta eu preciso pagar um adicional?

- As coisas aqui são assim.

- Tudo bem. Vou pagar pelas cabeças.

E assim foi... Voltei algumas horas depois e consegui pegar as testas e os cabelos que haviam ficado presos no enquadramento automático do computador. Ainda pude avistar lá no fundo da máquina alguns olhos, orelhas, pés, mãos e até mesmo outras partes que prefiro nem mencionar. Que trágico!

Mas, esta é a era da automatização. Precisamos nos acostumar!

Precisamos mesmo?

Sem gagueiras ou brincadeiras, isso tudo é tra-gi-cô-mi-co.

É... Pois é...



Escrito por Maria Alice Becker Zuckermam às 06h51
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Fálica,
por Mª ALICE B. ZUCKERMAM


Mariana é uma mulher fálica!!!

Ok! E o que fazer com essa nova informação? Usar isso para “comer uma outra mulher”?

É... Sabe que até não seria uma má idéia para ela que estava cansada de atrair homens "xânicos"?!?!

Eu explico, calma!

Mariana, minha amiga, acabou de descobrir na sua terapia que é uma mulher com pinto. Não na vida real, evidentemente, mas na vida comportamental.

Resumindo: ela se comporta, em alguns muitos casos, como homem!

Ela entra pisando firme num restaurante e já pede uma mesa para dois não fumantes; ela leva, sozinha, o carro para oficina a fim de averiguar os pneus ou fazer troca de óleo; ela quebra o pau numa reunião de trabalho e depois sai de lá numa boa, para um almoço informal; ela mesma pinta a casa quando está sem grana para pagar um pintor; ela paga suas próprias contas há uns 10 anos; ela agarra o cara respeitoso, para acabar logo com aquele papo furado de elocubrações da vida; ela não gosta de discutir muito o relacionamento a dois quando estão sozinhos e num lugar reservado, achando que essas situações só poderiam pedir gemidos; e por ai vai...

Bingo! Mariana descobriu na terapia que o que ela queria mesmo era um homem com o pinto maior do que o dela. Só isso! Era tão difícil assim entender?

Ela queria um homem que a fizesse sentir tão mulher que a deixasse descansar dessa auto-defesa homem de ser.

Rose, uma amiga de Mariana que vive da pensão do ex-marido, passa o dia lendo revistas idiotas e acaba por ficar mais metida a Freud do que metida por homens, lhe diz sempre: “Se você quer um homem de verdade, seja uma mulher de verdade. Mas você fica aí querendo competir com eles, não é?”

Mas o que era então uma mulher de verdade? Ou, pelo menos, como seria uma mulher que atrairia um homem de verdade?

Na cabeça de Mariana passavam mil coisas...

Seria a meiga falsa que já deu pra meia cidade mas mantêm o semblante de virgem com medinho? Seria a submissa que apenas sorri para toda e qualquer opinião do bonitão? Ou pior de tudo, umas cem vezes, seria aquela mulher que espera o príncipe encantado que vai ensinar a vida para ela, mostrar a vida para ela e pagar a vida para ela?

“Uma mulher de verdade é feminina, só isso”, lhe dizia Gabriela (amiga de infância que vivia querendo competir com ela, mas no fundo a admirava muito e acabava por fazer o papel de alterego vulgar em sua vida), ajeitando os peitos no decote.

Mariana se irrita com a sugestão de não ser tão feminina assim e pensa em falar um milhão de palavrões à amiga que tem seus dias nada meigos, como os de hoje. Mas daí se retrai! Quem era ela pra falar em feminilidade? O simples fato de Gabriela ajeitar os peitos no decote já se mostrava nada delicado, sem falar que falar palavrão seria pouquíssimo feminino da parte de Mariana...

Perfeito! Constatando isso ela solta alguns palavrões, num híbrido de catarse e brincadeira, na maior gargalhada, se libertando do assunto e da feminilidade.

As amigas Rose e Gabriela percebem que os homens nas mesas em volta olham-na surpresos.

Ai, naquela momento, era apenas a Mariana, a fálica, que sempre põe “seu” pênis a mostra e afasta todos os testosteronas medrosos em volta..

Mariana permanece confusa durante exatos dez minutos, e depois abre o maior berreiro, desabafando sobre sua vida e sobre suas dificuldades ao ter que matar um leão por dia, 365 dias por ano, durante muitos anos.

E ela chora, soluça, enfia o rosto no meio das mãos...

Naquele momento, ainda que vermelha e toda borrada de rímel, a frágil Mariana atrai mais o interesse dos homens do que quando chegou ao restaurante em seu carro novo, feliz, bem sucedida e vestindo um pretinho básico de fechar o comércio.

Acho que minha amiga Mariana se livrou temporariamente de seu pênis....


Escrito por Maria Alice Becker Zuckermam às 19h24
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