
Tudo o que ele me deu, por MARIANA TONIN.
Depois de um bom tempo dizendo que eu era maravilhosa, ..., blá,blá, blá, ..., um belo dia ele disse que eu era maravilhosa, mas..., não dava mais.
Fiquei pra morrer por algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele... Quem sabe se eu ficasse mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não voltaria pra mim, né?!
Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro de ensinamentos espíritas e em um curso de psicodrama.
Nos meses que se seguiram eu me tornei um dos seres mais malhados, espiritualizados e psicodramáticos do planeta.
E sabe o que aconteceu? Nada! Absolutamente nada! Ele continuou não lembrando que eu existia.
Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum. Eu precisava ser ainda melhor para ele... Sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito.
Decidi ser uma mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve.
Para isso, parei de vez de me incomodar com aquele grupo “inóspito” do meu trabalho "institucionalizado" e resolvi me empenhar na minha carreira como psicóloga-pesquisadora. Assim, atendi clinicamente dezenas de pessoas, participei de vários congressos, terminei meu mestrado, ganhei uma coluna definitiva no Caderno Pagu, quintupliquei o número de leitores do “Fazendo Gênero”, ..., mas nada aconteceu.
Mas eu sou brasileira, e não desisto nunca, como dizia aquela propaganda de sei lá o que... Eu não desisto fácil assim de nada, ainda mais de um amor. Então, resolvi que eu tinha que ser uma super-ultra-mega mulher para ele voltar pra mim.
Foi então que passei 35 dias circulando por países da América Central, exclusivamente em minha companhia e sem nenhuma razão específica para estar lá (nem turismo, nem estudo, nem visita a amigos, absolutamente nada!). Conheci lugares geniais, controlei meu pânico por estar sozinha e longe de casa, e me tornei mais culta, ponderada e vivida. Voltei de viagem e nem sinal de vida da criatura.
Comecei a escrever um livro sobre minhas experiências com grupo psicoterápico de mulheres, ..., cortei e pintei o cabelo 800 mil vezes, ..., diminui a freqüência de minha terapia (eu, enquanto paciente), ..., li mais uns 40 livros, ..., me tornei voluntária de uma casa de apoio aos pacientes com câncer, ..., rezei pra Santo Antonio todo dia 13 de junho de cada ano, ..., me apaixonei por praia e tentei ficar morena no sol nordestino sempre que dava, ..., fiz milhares de cursos, ..., aprendi a nadar, ..., me viciei em comprar bolsas, ..., e como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha.
Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente e do meu jeito, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso tudo: silêncio absoluto.
O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias pensando nele, querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele, ..., até que algo sensacional aconteceu: um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher, que eu acabei me tornando mulher demais para ele.
Ele? Ele quem mesmo?
Escrito por Mariana Tonin às 11h40
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A ditadura do bom desempenho sexual, por MARIANA TONIN
Antes de tudo, quero definir a palavra “liberado”, que ouvimos com tanta freqüência e acabamos por empregá-la de forma errada, por não sabermos o significado.
Liberado, segundo o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, é o indivíduo: 1) Tornado livre; 2) Desobrigado, dispensado; 3) Que está livre de ônus ou restrição; 4) Que é beneficiário da liberação; 5) Que se acha em livramento condicional.
Assim, a pessoa liberada seria aquela que tinha preconceitos e restrições, e agora não tem mais. Ela está livre!
Mas como é essa liberdade, então?
Ela não é restrita, como tantos querem crer; também não é total, como muitos apregoam. Ela está na medida de cada um e é contida pelas limitações individuais e pelo meio social.
A liberação, na verdade, tem tantas nuances que ao ouvirmos alguém dizer que fulano(a) “é liberado”, deve-se desconfiar. Não da pessoa dita liberada, logicamente, mas de quem a está rotulando, afinal, tudo nos leva a crer na liberação alheia, não na nossa, pois talvez ainda tenhamos dúvidas e ansiedades frente a determinados comportamentos sexuais.
O clima quase orgiástico que anima a civilização ocidental tem muito de encenação e deve seu sucesso aos veículos de comunicação em massa. Mas nem todo mundo é tão liberado assim como a sociedade moderna coloca...
Antes do final dos anos 70 já se imaginava que isso poderia acontecer. Em 1975, a sexóloga Helen Kaplan declarava para revista Veja que “... a revolução sexual feminina separou os conceitos sexo e pecado, antes indissoluvelmente ligados. E a medida que a idéia de sexualidade vem sendo divorciada da idéia de culpa, o efeito tem sido fazer as pessoas mais felizes, mais abertas, mais capazes de amar livremente. (...) Por outro lado, há também os efeitos negativos. A liberdade pode ser mal usada, ir-se de um extremo a outro, sair da escuridão sexual para ênfase exagerada.”
Apesar da enorme discrepância entre aquilo que realmente somos e o que a sociedade apregoa, não podemos negar o avanço destas últimas décadas no que diz respeito à liberação sexual, principalmente a da mulher.
Pessoalmente, penso que romper com os preconceitos, acabar com os complexos de culpa e apresentar-se aberta para o amor e o sexo, é sinônimo de plenitude e felicidade. Entretanto, o que noto é que a maioria das pessoas que se diz liberada e que alardeia um comportamento sexual livre, não é tão feliz como demonstra. E eu continuo me perguntando o porquê desse contra-senso....
A hipótese que mais me parece cabível nos remete novamente a definição de “liberado”, por trata-se de uma liberdade condicional, passageira, que pode voltar a qualquer momento a antigo estado de “prisão”. Penso que são os modistas, os liberados de fora para dentro.
Contabilizando os benefícios da revolução sexual, noto uma obrigatoriedade em super-resultados e em super-desempenhos. Seria uma forma de estarmos provando pra nós mesmos (homens e mulheres) e para o mundo nossa adequação ao modelo de igualdade vigente.
A verdade é que explodindo a repressão que sufocava as mulheres até cerca de 40 anos atrás, acabou-se por estabelecer padrões altíssimos, muito acima do que a maioria pode alcançar. E inicia-se ai uma nova ditadura: a DITADURA DO BOM DESEMPENHO SEXUAL.
Trata-se aqui daquele desempenho que nos torna capaz de obter orgasmos múltiplos, bater recordes de freqüência, superar as habilidades das gueixas, acrescentar novas e acrobáticas posições àquelas já ensinadas no Kama Sutra, não conformar-se com a monótona monogamia e experimentar tudo além do heterossexualismo em si.
Mas esses novos conceitos sociais e morais apóiam o direito de cada um reconhecer e atender os seus desejos sexuais, desde que dentro de uma normalidade física e psíquica. Se pensarmos na Declaração dos Direitos Humanos seria, grosso modo, nosso direito universal à busca de felicidade.
Mas direito é uma coisa, e obrigação é outra!
(continua abaixo...)
Escrito por Mariana Tonin às 06h47
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(continuando...)
Dr. Gebhard, que dirigiu por mais de 20 anos o Instituto Norte-Americano de Pesquisas Sexuais, diz que “a atmosfera sexual do mundo moderno é muito nociva”, fazendo com que as pessoas se sintam obrigadas a demonstrar uma sexualidade constante, ou até mesmo a fingi-la.
Basta olharmos para o lado e veremos que se faz apologia ao sexo em todas as partes e que ele é o melhor tópico de conversação. Na verdade, o sexo é in. Daí a importância de tão alto desempenho nesse campo de “atuação”.
Digo ”atuação” assim mesmo, entre aspas, para que fique bem claro o que se quer dizer: a performance tem se tornado mais importante do que o sexo em si.
Normalmente espera-se “atuações” olímpicas, com rugidos, lavas ardentes, sininhos tocando e o mundo despencando aos pés. E serelepes para fazermos parte dessa nova moral sexual, acabamos por pegar o caminho errado e não prestar atenção nas sensações, na entrega, no deixar levar-se pelos impulsos do corpo.
E o sexo mesmo, como fica? O que queremos dele?
Em relatos de amigas e pacientes, a resposta é unânime: que seja bom; que nos dê prazer e uma sensação de plenitude.
Bem, ..., isso é muito bonito, desde que não se acate essa ditadura nosense de super-desempenhos, que está deixando homens e mulheres confusos, loucos na tarefa de agradar um ao outro e sentir prazer ao mesmo tempo.
Certa vez, conversando com um homem inteligente, maduro e bastante importante na minha vida, perguntei o que ele espera encontrar numa mulher. A resposta não me surpreendeu nem um pouco! Além de outros adjetivos que condizem com o perfil dele, ouvi aquela máxima de “uma lady na mesa e uma louca na cama”; alguém socialmente moral e sexualmente imoral.
Não acho que ele esteja errado! Muito pelo contrário! Almejamos alguém que seja adequado ao nosso convívio social, que nos acompanhe e que possamos admirar; mas queremos também alguém sexualmente ativo que nos desperte o desejo.
E é exatamente ai que começa nosso problema. Para sermos essa “louca na cama” em dias de hoje, estaremos aceitando a ditadura do super-desempenho. Afinal, não é isso que se espera das pessoas hoje em dia?!
Para que uma mulher normal se encaixe nesse perfil, não lhe basta ser autêntica. Ela tem que incorporar a supermulher, ou a devoradora de homens capaz de garantir extraordinários orgasmos diariamente, para si e para seu parceiro. E de tão empenhada em se adequar a essa nova forma de ver o sexo, se transforma em vítima dela mesma, representando um papel que nem sempre condiz com sua realidade...
John Messenger, antropólogo e especialista em comportamento sexual, afirma que “muitas pessoas fazem sexo quando na realidade não querem; fingem gostar apesar de não obterem nenhuma satisfação, só para garantir aprovação do parceiro e ser aceito”. Para ele, trata-se de um novo tipo de conformismo, o “conformismo pós-moderno”. Gebhard diz que a pior coisa desse novo conformismo é que as pessoas incutiram a idéia de que “devem estar prontas e ansiosas para o sexo a qualquer hora, todos os dias da semana, e com qualquer parceiro”.
Em nosso convívio certamente encontraremos uma ou outra que possa fazê-lo (ou diz que pode!), mas a maioria não pode, devido a seus padrões individuais de capacidade sexual, ou de limitações, ou de questões psicológicas.
Muitas mulheres, entretanto, desconsideram tais individualidades e, pelo simples prazer amoroso do ato sexual ou para não se sentirem sozinhas, vão para cama com alguém sem estarem completamente seguras quanto a isso. Agem assim por estarem “pós-conformadas”. E quando tal experiência não é exatamente deslumbrante, fingem orgasmos, sofrem em silêncio e culpam-se por não terem alcançado a meta sexual dos novos tempos.
Essa meta, esse super-desempenho, é uma situação atraente e perigosa, que promete nos levar ao Nirvana dos sentidos mas, em troca, nos exige sempre mais do que podemos de fato dar.
Mas mesmo sendo uma Ditadura, podemos escapar dela! Basta sermos coerentes e conhecermos nossos limites e vontades, não usando o comportamento ou desempenho sexual dos outros como parâmetro de comparação ao nosso.
Particularmente, gosto de crer que o sexo deva ser desfrutado por sua pura magnificência. Mas sexo só é magnífico quando feito do nosso jeito, de acordo com nossos gostos ou preferências, e com a pessoa que escolhermos.
Nessa situação, sim, alcançaremos o super-desempenho, o melhor de todos, que é exatamente o nosso!!
Escrito por Mariana Tonin às 06h46
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Mas esse dia chega... por Mª ALICE B. ZUCKERMAM
Eu bem tentaria te explicar, mas não posso!!! A posição de "rainha da verdade absoluta" não me cai bem, nem ao menos procuro dar respostas prontas aos que me perguntam.
A única coisa que sei é que um dia você vai cair da cama, depois de chorar horrores por um amor mal resolvido e vai descobrir que nada é perfeito.
Pode demorar uma hora, cem dias, uma vida, mas esse dia chega...
Essa realidade medonha e que apavora, encosta as mãos no seu ombro e te dá a pior notícia que você pode receber depois de anos de ilusão: seu príncipe encantado não vai bater na tua porta e te levar pra Terra do Nunca e que nada do que te disseram para acreditar é verdade.
Sim, relacionamentos acabam! Acabam sutilmente ou arduamente, escandalosamente ou com histórias hilárias, com muita raiva ou com uma paz inexplicável. O fato é que certo dia eles chegam a um ponto da estrada em que precisam ser acabados e toda aquela história de amor vira um capítulo a parte na sua vida e você chora as pitangas até os olhos esbugalharem de frente para o espelho.
E eu nem estou sendo tão fria quanto parece, viu.
Acho mesmo é que a gente não nasceu pra perder, mas perde; nem nasceu pra entender essa história por completo, mas entende, na marra, com gosto amargo na boca e uma tentativa frustrante interna dizendo pra si mesmo: eu vou mudar essa história!
Minha tristeza é ver que o amor virou item de prateleira no supermercado chamado vida. Ele é só mais uma das representações embaraçosas que a nossa linda sociedade pós-moderna criou...
Como quem se esfola na rua depois da queda, descobrir o fato real dessa coisa "amor" é como perder o meio que tem dentro da gente; é sentir-se um pouco (ou totalmente) vazio; é destruir um pouco da mágica da infância sadia e costumeira de cada um.
A boa verdade - doa a quem doer - é que você chega a um certo estágio da vida e descobre que essa coisa chamada amor pintada de cor de rosa, azul, vermelho e lá vai cacetada de cores lindas e brilhantes, não existe; que foi realmente coisa que colocaram na sua cabeça.
Isso não é regra! Claro que existe gente que encontra essa “pessoa”... Dentro de uns cem mil exemplos é possível achar uns 3 ou 4 felizardos.
Mas não é meu caso!!!!!!!!!
Enquanto não tiver cores lindas e brilhantes nos meus relacionamentos perfeitos, queria aprender a agir como aquelas pessoas que sabem lidar com a situação! Elas cortam o mal pela raiz quando terminam uma relação, e dão a impressão que nem foi tão difícil assim...
Escrito por Maria Alice Becker Zuckermam às 06h40
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Lembranças dos domingos, por GUSTAVO CAPRIOLI.
Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora marcada para sair da cama, e depois ir tomar café na padaria, mesmo que já seja quase hora do almoço.
Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e quem sabe nem vou conhecer, como se fossem meus velhos conhecidos.
Quero ver você me olhar entre um gole e outro de café, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a ler o caderno de cultura.
Quero a sua mão no meu colo, dentro do carro, no caminho de volta para casa.
Quero deitar no sofá e ver você dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, nossas roupas esquecidas em cima da cama.
Quero também que, sem mais nem menos, você desista da arrumação e me jogue sobre a bagunça, me beije, me abrace e me ame.
Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede da varanda, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado.
Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que é possível que eu não esteja lá. E ao ignorar a improbabilidade da nossa jornada, quero que você passe a mão nas minhas costas e me beije o rosto, falando da casa que teremos na praia em Salvador, do jardim que construiremos nela, dos cachorros que criaremos e dos 3 filhos que teremos.
Quero que você me prometa ter entendido que a felicidade não está no destino, mas na viagem... E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que compartilhamos enquanto olhávamos a lua.
Quero que você acredite que não me deve nada, simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento.
Quero que você nunca se arrependa da gente, do que fomos ou de tudo que vivemos; e que me guarde na memória, mais do que nas fotos.
Quero que você fique com a sensação de ter me degustado por completo, entretanto, de ter saído da mesa antes da sobremesa.
Quero que até o último dia da sua vida você espalhe delicadamente a nossa história para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido uma história linda; e que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida.
Quero que você nunca deixe de pensar em mim quando for a Londres ou à Sampa outra vez, quando escutar Corazón Partio ou ler algo antigo da Carmem Silva, aquela "baiana arretada", como você diz.
E, por fim, quero que você continue a dançar na vida, a ser feliz, para sempre, mesmo quando eu não estiver mais olhando.
Escrito por Mariana Tonin às 12h00
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