Fazendo Gênero


 

O processo de triagem social,
por MARIANA TONIN


A crônica abaixo (Primeira Impressão Rotulada) mostra muito bem alguém que descartou propositalmente uma boa relação, baseando-se apenas nos rótulos, no invólucro, naquilo que ele tomou como verdade pronta e acabada.

Mas o processo de “descarte” não é característica masculina ou feminina; é uma característica social!!!!

Eu descarto, tu descartas, ele(a) descarta, nós descartamos...

E por que fazemos isso?

Tudo me leva a crer que a gênese da questão está exatamente naquelas características idealizadas que esperamos encontrar em alguém, seja em nível afetivo, de contato social, ou mesmo de aparência; naquela “coisa” tida como compatível ao nosso jeito, ao nosso estilo, e que vem se construindo desde a nossa infância.

E é exatamente ai que corremos o risco do “descarte”, de estarmos buscando um rótulo ou uma imagem; ignorando a essência, o conteúdo, as características que nosso primeiro julgamento não consegue ver. Mas esquecemos que o primeiro julgamento segue o primeiro encontro, e dele captamos apenas a impressão.

E infelizmente é a primeira impressão que nos formará a imagem mental de alguém....

Não quero ser fútil, mas tenho que admitir que a primeira impressão é importantíssima! Ela nos dirá se nos agradamos ou não da pessoa, se confiaremos ou não nela, se acontecerá um aproximação ou uma antipatia declarada.

Pessoalmente, não gosto de rotular ninguém, muito mais num encontro que pode ser breve. Mas a sociedade faz isso! É como se o instinto de defesa social estivesse agindo, fazendo uma triagem.

Daí a relevância de causar uma boa impressão! Por isso nos esforçamos tanto! Sabemos que, mesmo sujeita a revisões, a primeira impressão sempre conta como um cartão de visitas a nosso favor.

Se analisarmos com cuidado, veremos que a quantidade de fatores utilizados, ao julgarmos a primeira impressão, é espantosa. Só mesmo simultâneas sinapses nervosas conseguem fazê-lo com tamanha rapidez.

Afinal, o que observamos na primeira impressão?

Segundo Marina Colasanti, na obra A Nova Mulher, a triagem passa pelo seguinte processo de análise: silhueta, andar, roupa, linguagem corporal e maneira de receber a informação.

Ao olharmos silhueta e andar, imediatamente começamos a fazer combinações inevitáveis, algo do tipo: uma pessoa endomorfa (gorda) e de braços pendentes, nos remete a alguém lento, indolente, de paquidérmicos reflexos; ao passo que uma pessoa esguia e de faces ruborizadas, nos remete a alguém ágil.

Entrando num conceito burguês lamentável, tenho que admitir que a roupa faz parte da análise da primeira impressão. É através dela que “mostramos” nosso jeito, nossas preferências. Mesmo que estejamos iguais, uniformizadas, há sempre alguma característica pessoal a nos diferenciar. Pode ser a escolha dos acessórios, o salto do sapato, a cor das unhas...


Roupa e andar evidentemente não são tudo! Ainda há a linguagem corporal a se considerar, aquele conjunto profundamente entrelaçado de mente e corpo, que dá significado a situação.

Lembro-me de uma amiga que, querendo causar uma boa primeira impressão ao homem com quem ia sair, acabou metendo os pés pelas mãos. Ela estava linda, com uma roupa nova e o cabelo escovado no salão. Mas estava nervosa.... E ele estava atrasado... E quanto mais ele demorava a chegar mais as mãos dela suavam, e mais ela mordia os lábios, e mais manchava os dentes superiores de batom. Quando ele finalmente chegou, ela já estava toda desfeita, e a noite ficou rodeada de rótulos mútuos.

As mãos suadas, o batom borrado e o tremor nos gestos tratam-se da linguagem corporal que entra na composição da imagem. Mas, além disso, têm-se o jeito de cruzar as pernas, a maneira de afastar os cabelos com as mãos, a suavidade do perfume, a escolha do toque do celular, as palavras e, principalmente, a forma de ouvir. Trata-se, desse último, da maneira de receber a informação.

Certa vez, um amigo engenheiro me convidou para acompanhá-lo numa confraternização de trabalho, e eu fui. Após apresentações, e eu já bastante incomodada com as brincadeirinhas do tipo “Cuidado com o que você vai falar! Agora temos uma Psicóloga na mesa analisando tudo..”, me peguei numa conversa infindável sobre o papel do Psicólogo. Claro que o meu interlocutor estava exausto. Claro que ele queria falar um pouco dele também.

Nada nos vale apenas transmitir o que somos, oferecer recursos para análise. Temos também que darmos ao interlocutor o sinal verde, uma mensagem de aceitação. Tudo isso irá compor a nossa imagem.
Infelizmente, a imagem é um dos grandes apelos desse começo de século! Elas são fabricadas e consumidas em alta escala, num processo contínuo de renovação.

A meu ver, a imagem é bastante perigosa. Em princípio, ela aparenta algo diferente do real, um invólucro, um outro “eu”, um “tipo” aprendido para ser socialmente aceito.

Preocupo-me com essa tendência a falsificação, a oferecer uma primeira impressão muito diferente da realidade. Daí a importância de uma boa leitura, da percepção dos outros sinais...

Mas isso nem sempre é perceptível no primeiro encontro, ou numa sucessão de pequenos momentos. Isso leva tempo! Talvez tempo suficiente para que o “descarte” não tenha mais retorno....



Escrito por Mariana Tonin às 19h07
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Primeira Impressão Rotulada,
por MARIANA TONIN


“Ela tinha algo que me atraia muito. Não sei bem... Talvez fosse sua segurança nos argumentos, misturada com uma doçura no olhar.


Não éramos exatamente colegas de trabalho, apenas trabalhávamos para a mesma Instituição.


Nos víamos esporadicamente e, nos esboços de conversa um pouco além dos limites profissionais, ela sempre era agradável e despedia-se sorrindo, nada mais.


Curioso, investiguei sobre ela nas fichas da empresa, a observei por algum tempo, e colhi informações aqui e ali, com colegas em comum. Confirmei o que eu já tinha percebido: ela era uma mulher muito inteligente e dona do seu nariz.


Nessa investigação, soube que sempre fora boa aluna, que tinham se envolvido em política estudantil, que havia morado alguns anos no exterior, que fazia sucesso com os homens, que adorava a produção acadêmica e que tinha uma situação financeira satisfatória.


Pronto! Isso me bastou! Algo dentro de mim gritou um `Deus me livre!


Imaginei logo uma filhinha de papai mimada (primeiro rótulo), metida a intelectual politizada (segundo rótulo), possível devoradora de homens (terceiro rótulo), que se transformou numa profissional frustrada (quarto rótulo) e numa mulher moderna demais pro meu gosto (quinto rótulo).


Não! Isso era demais! Jamais poderia participar desse mundo que ela estava acostumada...


Não poderia me imaginar com uma mulher filosofando numa mesa de bar, entre um gole e outro de uísque escocês, e música de Zeca Baleiro ou Nando Reis ao fundo....


Não ia gostar de estar com alguém incapaz de me considerar ao tomar uma decisão...


Não seria saudável pra mim estar ao lado de uma mulher tão cheia de atitudes, que poderia mostrar sua subversividade na hora errada, no círculo social errado...


E assim, depois de tê-la coberto de rótulos, depois de ter visualizado como seria o nosso possível romance, joguei-a no esquecimento.


Um dia, com seu jeito superior absolutamente insuportável, ela me entregou uma publicação que tinham feito, e despediu-se, dizendo que estava indo para Portugal fazer doutorado.


Na hora nem me toquei para o título, pensando tratar-se de uma obra menor, do tipo auto-ajuda ou essas coisas que as mulheres dondocas e modernas chamam de literatura (sexto rótulo).


O paper ficou rolando pela minha mesa, depois pelo banco de trás do meu carro, até que finalmente eu decidi lê-lo.


E o final de semana ficou pequeno.... E eu não conseguia desgrudar do artigo... E eu fui conhecendo-a através das coisas que ela escrevia, notando que ela era muito diferente daquilo que eu imaginava... E eu não conseguia mais apagar da minha mente aquela imagem, aquele olhar que me chamou atenção ao conhecê-la...."



Escrito por Mariana Tonin às 18h57
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Uísque com gelo e lágrimas,
por MARIANA TONIN


Quando meu celular toca, ou recebo um e-mail, ou alguém me procura num desses bate-papos virtuais, só para falar da vida, do tempo, essas coisas meio “nada-não”, sempre acho estranho. Imediatamente percebo que ali do outro lado tem alguém sufocado.

Sem me conter, dou início a mais um plantão afetivo em prol dos necessitados!!!

E é com um imenso sorriso e afetuosa disposição que eu recebo esse alguém (amigo, familiar, colegas de trabalho) para um “uísque com gelo e lágrimas”, mesmo nem sempre gostando da forma como sou solicitada ou de como ficam as coisas depois.

Com a sensação de peso por alguém ter derramado em mim seus problemas, me questiono pela milésima vez porque todo mundo me procura para pedir ajuda, para pedir carinho ou para contar suas desgraças, a qualquer hora do dia ou da noite.

A verdade é que eu permito! Eu os atraio, mesmo sem sair por ai como uma bandeira escrita “Procuram-se Pessoas Aflitas”.

Começa que meu estilo é declaradamente maternal, não só com as crianças ou com os necessitados, mas com a humanidade em geral. Sempre acabo conversando com o motorista de táxi durante toda a corrida, ouvindo o desabafo do garçom da lanchonete, dando dicas a uma balconista sobre como atender melhor, tentando convencer um pedinte a buscar ajuda do Estado, oferecendo minha vez na fila para alguém visivelmente apressado e nervoso, cuidando da minha bisavó senil tendo mais 800 mil parentes que poderiam fazê-lo, tomando conta dos filhos de amigos para que eles possam sair e se divertir um pouco, ..., e por ai vai.

E além desse jeito de “mãezona” ainda tenho verdadeira vocação para ouvir e compreender os outros. Talvez, inconscientemente, seja por isso que tenha me tornado Psicóloga.

Nos momentos de confidência não me coloco no papel de censora ou repressora (superego), e sim de aliada (ego auxiliar), apontando sutilmente os erros e o foco do problema. E eu vibro quando a situação se desenrola! Ah, como vibro...

Sinto-me como se tivesse ajudado várias pessoas com meus conselhos, meus carinhos, meu apoio e minha presença no momento necessário. E assim eu vou vivendo, com meus imensos seios carregados de leite, alimentando a todos de fraudas que batem a minha porta ou cruzam meu caminho...

E você, que age exatamente assim como eu, também se sente uma grande virtuosa, resolvendo os dramas alheios e tentando salvar o mundo?

Pois é... Ledo engano esse nosso “sentir”!

Como tenho anos de divã nas costas (eu, enquanto paciente), não considero esse meu comportamento uma grande virtude. Ele nada mais é que uma grande onipotência! Nos sentimos, ainda que inconscientemente, acima do bem e do mal a ponto de achar soluções para os conflitos alheios.

“Onipotência?”, me perguntaria assustada a maioria das pessoas....

Onipotência sim!

Mas uma onipotência frágil, mascarando uma pseudo-superioridade mais frágil ainda; que só emerge para sermos aceitas, para sermos necessárias nos melhores e nos piores momentos dos outros. Ela não nos mobiliza a buscar altos poderes, força ou comando (isso é puxa-saquismo mesmo), mas nos garante a retribuição em moeda afetiva.

Ao resolvermos os problemas do mundo também não estamos distribuindo nosso amor em ilimitada extensão afetivo-territorial?

Pois é! E evidentemente esperamos algum tipo de retribuição por parte dos outros...

Ai eu justifico meu (nosso) comportamento como não sendo tão virtuoso assim. Sob meu espírito maternal e minha devoção amiga, encontra-se minha grande necessidade de afeto!

E tendo tomado consciência disso, decidi sair do plantão full time, deixando que a sessão “uísque com gelo e lágrimas” aconteça só quando for realmente necessária....

Não quero dizer que ando me esquivando. Muito pelo contrário! Até porque minha individualidade não me permite fazê-lo. Quero dizer que estou tentando moderar o “uso físico” e o “uso moral” que tal situação demanda: estou aprendendo a trazer para minha vida pessoal o distanciamento crítico que tenho no consultório, com meus pacientes.

Mas a verdade é que a vida é uma troca contínua e, para vivermos qualquer relação de forma saudável, todos devem se beneficiar.

Se você às vezes se incomoda por ser o SOS dos seus amigos, o muro de lamentações, o plantão afetivo 24 horas ao dia; faça uma troca! Aproveite os ensinamentos valiosos que isso traz, amplie sua ótica e seu conhecimento do ser humano e, conseqüentemente, de você mesma. Mas não esqueça de colocar-se em primeiro lugar!

Confesso que isso não tem sido fácil para mim! Mas estou tentando, apesar do medo de, ao abandonar meu papel de “mãezona”, não ser mais necessária...



Escrito por Mariana Tonin às 07h26
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“Neuro”,
por GUSTAVO CAPRIOLI



Ele era “neuro”, como diziam lá no Hospital: neuropsicólogo!

Não sabia se queria mesmo atuar nessa especialidade, já que tinha escolhido isso não para “salvar mentes”, e sim para “salvar sua conta bancária”.

Trabalhava que nem um condenado, ganhava muito bem, mas estava longe de ser rico ou emergente. Para piorar, não agüentava mais a vida real com toda aquela galera doente que achava que era Deus, Jesus Cristo ou coisas afins.

Ela era “neuro” também: neurótica!


Já estava indo para o sexto ano de análise e continuava sem compreender o porquê de seu comportamento afetivo a meia-distância.


Era quase viciada em trabalho, metida a cult e colunista de um site, onde escrevia quase numa catarse. Detestava os escritores de auto-ajuda que comem o queijo dos outros, incorporados pelo espírito de monges, executivos, pais ricos e pobres.

Em comum, além da abreviação “neuro”, eles tinham a vontade de deixar de ser singular!


Foi aí que ele, um dia, depois de tomar banho e não ter vontade nem de se vestir (pra quem?), resolveu visitar um site que um colega do Hospital indicou, caindo direto no site da garota neurótica, onde o post do dia era uma crônica chamada “Desamor revisitado”.

“Essa internet expõe mesmo as pessoas”, ele pensou.

“Ainda bem”, ele pensou concluindo, ao ver a foto dela, achando a mistura daquele texto com aquele rosto algo merecedor de mais exposição.

E postou: - Ei, figura, tudo bem? Caí aqui no seu site, nessa noite quente por fora e fria por dentro. Sou neuropsicólogo; posso abrir sua cabeça. Não que você seja limitada.

Ela, que não estava acostumada a responder esse tipo de e-mail (seus pais modernos sempre diziam: “naum tc com estranhos, bb”), resolveu abrir uma exceção porque achou o máximo falar com um neuropsicólogo.

E respondeu: - Oxe!!! Até que tô precisando de uma lavagem cerebral... (risos!!!)

- Só se for ao vivo.

- Fechado.

Se encontraram no Palácio da Justiça, onde estava acontecendo uma exposição da Camylle Claudel, a amante secular do Rodin.

Ele era alto demais para o gosto dela, e ela baixa demais para o gosto dele. Foto engana!

- Nossa, menina! De perto você é mais normal do que eu imaginava.

-
Mas eu sou normal!!!! É que isso é estranho... Nunca saí com alguém que conheci na internet.

-
E quem te disse que isso é um encontro?

- Não????

-
Que nada! Não que você não seja interessante... Aliás, você até que é linda, mas não faz meu tipo.

- Bom saber... Fico até aliviada! Uma amizade dura mais que um amor, né?!

Ela foi falsa com as palavras, ele com o sorriso...

Conversaram amenidades, comeram pão de queijo, tomaram café expresso, divergiram quanto ao fato da Camylle ser ou não a sombra de Rodin, falaram mal de um casal freak que se beijava escandalosamente na frente de crianças, ensaiaram um afeto desconexo para manter viva a chama do teatro e desceram as escadas, dando graças a Deus quando tudo acabou em pizza.

Que coisa! Ela achava que por trás daquele e-mail morava o homem da vida dela: inteligente, sensível, engraçado e charmoso. Ela não podia perdoá-lo por não ser ele!

Pior... Ele achava que por trás daquele e-mail morava uma loira fenomenal, resolvida e que ia convidá-lo para transar. Aquela menina metida a intelectual merecia a morte!



Escrito por Mariana Tonin às 08h44
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Síndrome de primeira da classe,
por MARIANA TONIN



Eu sabia que se aceitasse mais aquele plantão no Hospital Psiquiátrico ia me enrolar toda, afinal, já tenho meu trabalho full time e ainda faço mestrado.

Mas por que aceitei, já que a remuneração não era lá tão boa?

Porque não consigo marcar limites para mim mesma, só por isso!

Trabalho, enquanto todos em casa dormem, ..., passo horas lendo e pesquisando enquanto meus amigos estão passeando de barco, ..., faço comida enquanto falo com clientes ao telefone, ..., e vou vivendo minha vida nessa correria, fazendo coisas simultaneamente, me ocupando em demasia.

Infelizmente, essa não é uma realidade só minha... Ela ocorre com milhares de pessoas, a maioria mulheres! Trata-se de um mal comum, conhecido como “síndrome de primeiro(a) da classe” - termo originalmente escrito em 1980 por Marina Colasanti, na obra A Nova Mulher, e usado pelo senso comum desde então.

Ocorre com aquelas pessoas que sempre estão na linha de fogo, comendo pólvora e achando ótimo; aqueles que fazem tudo e mais um pouco e não podem falhar.

Se você também faz parte dessa equipe, vou descrever rapidamente sua/nossa biografia: Você era uma menina ativa desde pequena; não tinha medo de nada, muito menos de cair daquela árvore enorme do quintal da sua avó, a qual seus primos a desafiaram a subir. Você sempre dizia “Você duvida que eu consigo?", como se a dúvida dos outros a estimulassem a mostrar sua capacidade. E além de tudo você ainda era prendada e sabia fazer aquelas pequenas tarefas domésticas que sua mãe ou sua avó a ensinavam. Na escola e na faculdade você sempre foi boa aluna, perguntava muito, participava ativamente das aulas e envolvia-se em atividades extra-curriculares. Durante toda vida você acabava fazendo o seu serviço e dos outro, no princípio por escolha e depois por imposição, afinal, vendo seu élan em fazer algo bom, as pessoas (familiares, amigos, colegas de trabalho ou estudo) deixavam para você parte da atividade. Você sempre encontrou em casa, nos livros, na religião, a mesma constante: os bons serão premiados. Então você decidiu ser boa e se encher de qualidades, afim de garantir seu prêmio maior, que era ser amada. E no aprendizado das virtudes, mandavam você fazer isso, você fazia; mandavam você fazer aquilo outro, você fazia também; e assim ia aprendendo... Mas ao invés de notar como suas qualidades iam aumentando, você só via aquilo que precisava melhorar, aquilo que chamavam de defeitos. Assim você esmerava-se cada vez mais, aperfeiçoando-se nas qualidades... Às vezes você sentia o “prêmio” em suas mãos e isso lhe bastava; outras, como se ele nunca pudesse ser seu (sua amiguinha a trocava por outra, o amor “daquele” homem especial não vinha, a promoção no emprego não saia, etc.), e você sofria, se questionando o porquê das coisas não darem certo, já que você era tão dedicada e hábil. E de uma menininha esperta, passou a adolescente brilhante e mulher competente, preocupada em alcançar excelentes resultados...

Na descrição dessa biografia, sua e minha, fiz questão de terminar com a palavra resultados, porque resultado é fundamental para nós! E ele tem que ser perfeito...

Queremos o resultado global, social, aquele que transmite segurança a quem nos chefia ou a quem chefiamos; aquele que exprime nossa competência; aquele que nos faz aceitas; aquele que dá garantia a nossa família e amigos que podem contar conosco quando precisarem.

Mas se é o resultado o que mais almejamos (e cá entre nós, ele quase sempre é positivo), penso que temos que conquistá-lo em sua magnitude, ou seja, também temos que ter um resultado individual satisfatório.

Por resultado individual satisfatório não entendo, apenas, ficar satisfeitíssima cada vez que aceito um desafio e o resolvo com excelência. Não! Penso ser bem mais que isso! Penso ser a sensação agradável do dever cumprido, a confirmação das qualidades e, principalmente, uma vida afetivo-social boa.

Sempre que nossa amiga ou nossa mãe estiver estressada e nos despejar suas aflições, tentamos acalmar os ânimos e propomos soluções, mas certamente nos culpamos, sentimos que nossas qualidades não foram suficientes para ela... Sempre que “aquele” homem especial não se mostrar apaixonado, decidimos conquistá-lo, fazendo tudo que for necessário, inclusive agüentando seu descaso.

Fazemos isso porque esperamos ser reconhecidas por nossas qualidades. Não foi isso que nos ensinaram e nos cobraram? Não foi nisso que nos apoiamos a vida toda?

Eis ai, aberto, o caminho do nosso sofrimento...

Mas se isso não nos é satisfatório, porque continuamos agindo assim? Simplesmente porque temos “síndrome de primeiras da classe”! E isso pode dificultar e muito nossas relações afetivo-sociais.

Mas a relação afetivo-social é uma relação dinâmica, de troca. Se alguém nos cobra, deve estar preparado também para a nossa cobrança; se alguém nos ignora, deve estar preparado também para nossa rejeição futura; se alguém nos fecha as portas, deve estar preparado também para nos ver mudar de caminho. Essa é a dinâmica da vida!

Para nós, agir assim é difícil e causa uma dor imensa. Por isso, faz-se mister entendermos o mecanismo que nos leva a “síndrome de primeiras da classe” e, principalmente, a compreensão de que a perfeição não só é impossível, como também é pretensiosa e agressiva. Ou seja, temos que conhecer e aceitar nossos defeitos.

Isso seria apenas o começo, o fácil início... Depois, temos que oferecer aos outros nossos defeitos, correndo o risco de sermos recusadas, de não sermos amadas e de ver fechar-se algumas portas a nossa frente.

Como uma “primeira da classe” assumida, sei que isso é muito difícil! Mas estou aprendendo... Já consigo deixar que meu lado menos glorioso ou admirável seja visto; já descobri que para viver uma boa relação afetivo-social (familiar, de amizade ou entre homem e mulher) perdemos alguns “prêmios” menos importantes, algumas relações superficiais; já aprendi também que para alguém nos amar, precisa amar a exposição completa de nós, com nossos defeitos e qualidades. Hoje já falo em alto e bom som quando “não sou boa” em algo, e espero ser amada ainda assim.

Isso é um exercício de coragem, que vamos aos poucos aprendendo. E é somente através dele que conseguiremos o troféu definitivo de “primeira da classe”, sem estar aprisionadas a rótulos e incansáveis demonstrações de qualidades.



Escrito por Mariana Tonin às 06h41
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As balzaquianas e a crise dos 30,
por MARIANA TONIN



Imagino que muitos já ouviram ou até mesmo usaram o termo "balzaquianas" para designar mulheres maduras e com mais de 30 anos, mas nem tantos realmente sabem compreender o porquê de seu uso. Então, deixem-me tentar explicar.

Até o século XIX todas as heroínas da literatura eram muito jovens e tinham seu ápice de felicidade e realização, no máximo, antes de completar 25 anos. Honoré de Balzac causou furor quando publicou "A Mulher de 30 Anos", romance ambientado na França pós-revolucionária. Nessa obra, ele exalta a figura de uma mulher atraente não só por sua beleza, mas também por se encontrar na plenitude de sua feminilidade. Daí o termo "balzaquianas".

Sr. Carlos Vandenesse traz em sua conversa com a Sra. Júlia d`Àiglemont – ambos protagonistas do romance de Balzac - a idéia do que viria a ser considerada uma mulher experiente hoje, uma mulher balzaquiana.


Ele diz: "Uma mulher de trinta anos ou mais tem atrativos irresistíveis para um rapaz, para qualquer homem... Com efeito, uma jovem tem ilusões, muita inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor, ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Lá onde uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas à do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe. (...) Dando-se, a mulher experiente parece dar mais do que ela mesma, ao passo que a jovem, ignorante e crédula, nada sabendo, nada pode comparar nem apreciar. (...) Uma nos instrui, nos aconselha, e a outra quer tudo aprender. (...) Enquanto uma mulher possui mil modos de conservar a um tempo seu poder e sua dignidade, a jovem acredita ter dito tudo despindo o vestido; mas uma mulher, se esconde sob mil véus e afaga todas as vaidades. (...) Chegando a essa idade, a mulher sabe consolar em mil ocasiões em que a jovem só sabe gemer. Enfim, além de todas as vantagens de sua posição, a mulher de trinta anos ou mais pode se fazer jovem, desempenhar todos os papéis, ser pudica e até embelezar-se com a desgraça".

O livro, além de retratar o destino da mulher na sociedade daquela época e de sua busca por emancipação, é uma obra extremamente relevante à Psicologia Feminina, uma vez que mostra os conflitos e os sofrimentos trazidos por essa busca de liberdade, igualdade e fraternidade entre homens e mulheres.


Desde então, o termo “balzaquianas” vem ficando cada vez mais amplo e complexo, exigindo dessas mulheres, além das atribuições inicias descritas por Balzac no século XIX, muitas outras inerentes às cobranças sociais de seu tempo.

Hoje, as balzaquianas são vistas como mulheres maduras, independentes, emancipadas, confiantes quanto a sua sexualidade e, principalmente, vividas.

Segundo Clarisse Martins, colunista do site Bolsa de Mulher, são exatamente essas características que podem tornar pejorativo o termo “balzaquiana”. Para ela, numa sociedade onde se estabelece a idade ideal para as mulheres conquistarem seus objetivos, ser balzaquiana pode ser um peso.

É fácil perceber isso! Se perguntarmos para algumas mulheres de 30 anos ou mais, que tipo de pessoa elas se imaginaram ser hoje, certamente a maioria nos responderia:
“Estar bem profissionalmente, ganhando meu próprio dinheiro, casada e quem sabe até com filhos.”

Mas nem todas conseguem ou querem tudo isso! E a cobrança começa...

Por mais que hoje a mulher de 30 anos se esforce para se sentir uma vencedora, acaba se deparando com uma perturbadora constatação: o jogo da vida adulta pode até ter começado, mas só a partir dessa idade os pontos começam a ser contados. É nesse momento que se põe na balança aquilo que fizemos ou não fizemos e assim, abre-se o placar da crise dos 30 anos, do drama que assola homens e mulheres, em maior ou menor escala.

Conversando informalmente com H.R. (minha estagiária de 21 anos) sobre como tinha sido seu feriado prolongado, atentei-me ao fato que na faixa dos 20 anos as mulheres ainda vivem as oscilações hormonais da adolescência, suas perspectivas de vida mudam a cada troca de calcinha, têm muitas idéias na cabeça, sonhos, desejos e o medo de não alcançá-los; mas o que se pensa é que a estrada ainda é muito longa e o futuro pode esperar.

E foi desde então que comecei a pensar que a crise dos 30 começa a se estruturar muito antes, aos 20 anos... Nessa fase, a grande maioria das pessoas vive sem nenhuma preocupação com os rótulos sociais, com seus próprios corpos, muito menos com suas psiquês; e vão acumulando conflitos e expectativas individuais e sociais.

Mas, parafraseando Cazuza, “o tempo não pára” e os 30 anos chegam! E com eles chegam as cobranças também!

E é ai que reforço minha tese! Se o indivíduo ainda na faixa dos 20 anos, estiver consciente de seu papel social, da conseqüência de suas escolhas e, principalmente, do futuro que tem pela frente, tudo tende a se tornar mais fácil. A crise dos 30 anos ainda existirá, mas pode até se converter no pontapé inicial de uma verdadeira e definitiva conquista.

Segundo E.B., minha terapeuta há quase 4 anos, “algumas pessoas se deprimem, outras mudam de emprego ou assumem novas responsabilidades nessa fase, afinal, trata-se do primeiro ritual de autoconhecimento instintivo, capaz de fazer com que nos levemos mais a sério.“ A meu ver, é um período em que se cobra por nossa contribuição no mundo e na própria vida.

Eu, enquanto balzaquiana, penso que o questionamento-chave dessa crise não poderia ser outro: O que eu estou fazendo da minha vida?

Essa perigosa perguntinha sabe, como poucas, ser dolorosa, principalmente se chegar aos 30 anos representar o término de um prazo social.

Eu me questionei isso quando estive internada por quase 15 dias numa C.T.I., tratando de um aneurisma cerebral que pegou a todos de surpresa. Nesse período, motivada pelo medo da morte eminente e pela chegada dos 30 anos, me fiz a dolorosa perguntinha acima. Que choque! Notei que não sabia exatamente o que estava fazendo da minha vida, apesar dos resultados externos estarem visíveis para quem quisesse ver. Nessa auto-análise, me vi uma mulher madura, independente, inserida no mundo de hoje e que busca seus objetivos; orgulhei-me de ter meu próprio negócio na área de Educação que, aliado ao meu trabalho como psicóloga, me garantem uma boa renda mensal; descobri-me uma pessoa social, participativa e atuante; e, principalmente, me senti feliz com a família, os amigos e a vida que tenho. Grosso modo, parece que construí um bom alicerce econômico-afetivo-social antes dos 30 anos! Mas seria loucura se dissesse que, ainda assim, me senti estranha, como se não soubesse se estava indo pelo caminho certo ou sequer onde esse caminho ia dar? Pois é... Eu pensava muito nas coisas que deixei para trás enquanto corria para conseguir tudo isso.

Depois de toda essa reflexão pessoal, quando me dizem (a sociedade) que a vida adulta feminina começa aos 30 anos, de forma alguma vou negar! Apenas permito-me outra ótica.

Apesar da crise inerente ao processo de autoconhecimento, tudo me indica bons ventos pela frente. A vida vai ganhando novo sentido, as dúvidas vão se modificando, os medos serão substituídos e os valores aperfeiçoados.

Realmente, confesso que é muito bom começar a viver como mulher adulta, apesar dos rótulos e exigências que a sociedade nos impõe...



Escrito por Mariana Tonin às 08h04
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Queridos leitores, só por hoje vou deixar de lado as crônicas de "Estudos Feministas, de Mulheres e de Gênero" e postar aqui algo diferente, meio desabafo.


Obrigada pela compreensão.



Ausência de pensamento,
por MARIANA TONIN



Eu odeio esses dias apáticos e bloqueados!

Quase sempre chegam depois de algum caos, de uma semana comandada pelo lado negro do meu cérebro, de alguma notícia que se tornou neurose, de alguma obsessão.

Penso, penso, penso, ..., não durmo, ..., como tudo que minha geladeira e um delivery qualquer permitem, ..., escrevo muito e de forma confusa, ..., sofro, ..., encho o saco dos amigos, ..., me isolo para não encher tanto o saco dos amigos, ..., fico estranha, ..., não faço nada direito, ..., olho demasiadamente para o asfalto separado de mim por 6 andares, ..., me judio à exaustão com minhas mágoas e 800 mil perguntas.

Até que um belo dia eu acordo, completamente idiota e querendo que tudo se dane... Nada me preocupa, ou me importa, ou me dói! Instalo um sorriso que nada diz, um olhar que nada entrega e saio por aí só para ver, mesmo não vendo nada.

Eu simplesmente ligo o f...-se e sou feliz, como diz aquela comunidade no Orkut...

É como se milhões de anjos descessem e falassem para os milhões de monstros que eu carrego na cabeça:
“ei, seus horrorosos e sebentos, deixem a coitada ser leve apenas por um dia!”

Mas esses dias só acontecem, com sorte, umas 2 vezes ao ano...

Neles não existe padrão de beleza, lugar ideal para ser feliz e nenhuma necessidade de aceitação, amor, sexo ou dinheiro. Eu simplesmente consigo começar e terminar meu dia sem a ansiedade de ser ou estar melhor.

Só por hoje, como diriam os viciados, eu consigo não pensar na pobreza que deixa balas na janela do meu carro, enquanto eu arrumada e perfumada, sonho em conquistar o mundo ouvindo a nova música das pistas européias.

Só por hoje, eu esqueço que eu engordei ou que estou ficando flácida e, principalmente, que aquela v... morena de olhares promíscuos roubou meu coroa charmoso.

Só por hoje, eu entendo que não dá para fazer todos os melhores cursos de arte, fotografia, filosofia e história ao mesmo tempo, e com a pouca grana que tenho.

Hoje eu não vou lembrar que aquelas meninas em séries do meu trabalho, totalmente clichês, me forçaram a conversar um assunto que eu não queria, algo sobre cabelo liso com chapinha ou com formol...

Hoje vou esquecer que Salvador está muito longe daqui, que minha boca é muito grande, que eu tenho muito medo de não amar nunca mais, que meus ex já são casados, que eu não agüento mais escrever sempre o mesmo texto (tanto é que mudei de assunto hoje!), que todo mundo fica idiota de repente, que minha ficha caiu e mostrou que o mundo não tem nada de cor-de-rosa.

Hoje não é dia de lembrar que eles preferem as gostosas, que elas preferem os ricos, e que os grandes idiotas são os que se preocupam com isso, ..., nem de pensar que no meu corpo não fica bem essa nova moda ou que os alimentos “trans” são os que sobrevivem mais, mas nos matam antes.

Hoje não é dia de lembrar que meu melhor amigo começou a namorar e eu acho o namorado dele um tremendo interesseiro, ..., nem que a UFAM não me chamou para vaga de pesquisador júnior, ..., nem que a Juliana Zaroni respondeu docemente ao meu o e-mail, mas disse que sempre trabalha sozinha.

Só por hoje não quero lembrar que as crianças morrem o tempo todo no Oriente Médio, mas que a gente só chora quando o Fantástico mostra a boneca sozinha e esquecida no meio dos escombros.

Dane-se se está trânsito, se o buraco da camada de ozônio aumentou, se os “MBA” estão morrendo de tanto tomar café e rir do que não tem graça, se tenho mil coisas para entregar e nenhum tesão em começar, se a vida é uma só, se preciso usar um anti-sinais porque estou começando a ter rugas, se não existe nada perfeito e que a morte dos outros mata um pouquinho de nós.

Nossa!!! Como é bom estar em um dia em que nada dessas coisas passa pela minha cabeça...



Escrito por Mariana Tonin às 07h19
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Mulheres independentes: assustadoras e assustadas,
por MARIANA TONIN


Porque a independência assusta?

A primeira razão é que costumamos confundir independência com solidão. Têm-se o pensamento de que ser independente é ser só, não ter um parceiro ou um ombro onde chorar as mágoas.

Mas independência não é sinônimo de solidão, muito menos de abandono!

Uma pessoa independente não é monobloco, auto-suficiente 24 horas por dia. Ela pode (e deve) recorrer aos outros. Não vamos confundir necessidade de carinho e apoio com necessidade de babá. Isso, nenhum adulto saudável precisa.

A segunda razão é que o “bode expiatório” morre quando nos tornamos independentes. Acaba aquele sistema infantil - que alguns até hoje carregam vida a fora - de colocar a culpa nos outros...

A criança culpa o amiguinho por ter quebrado o vaso da sala; o adolescente culpa a didática do professor por ter tirado notas baixas; a jovem adulta, exuberante e seminua, culpa os homens por estar recebendo cantadas de cunho sexual. Mas quando somos independentes, temos que arcar com as próprias culpas, tentar entendê-las e conviver com elas; temos que abandonar o “bode expiatório”.

Por mais que a independência assuste, ela também é maravilhosa e tranqüilizante, porque em qualquer circunstância sabemos que há sempre alguém cuidando da gente: nós mesmas!

Mas não é caminho fácil conquistá-la, principalmente quando se é mulher.

Por mais que hoje as famílias entendam (e cobrem) a importância das filhas crescerem e conquistarem o mundo, ainda há um certo desconforto, algo latente, quiçá inconsciente, fruto de anos e anos preconceituosos, onde a mulher que “se vira” sozinha não é “flor que se cheira”.

Convencer os pais e a sociedade que o processo de independência inclui se descobrir, cair e levantar com as próprias pernas, é tarefa difícil. O jeito é avançar por etapas burocráticas: estar suficientemente segura da decisão, ter condições materiais de arcar com a escolha e, principalmente, manter a porta familiar aberta, just in case.

Muitas mulheres saíram de casa para estudar e no tempo que estiveram fora foram preparando o terreno, se reeducando e reeducando os outros e, ao regressarem, já tinham a tão sonhada independência.

Eu fiz isso! Agarrei a oportunidade de morar no exterior como parte da burocracia para ganhar minha independência. Caí, levantei, cresci como pessoa, tive que me virar sozinha. E querem saber? Foi FANTÁSTICO!! Ao voltar para casa, aos 24 anos, me orgulhava de poder pagar sozinha minhas próprias contas e, principalmente, do meu direito de ir e vir. Rompi com os rótulos, deixando para trás a imagem da filha única, do “modelo familiar exemplar”.

Independência é muito mais do que contratar uma firma de mudança e sair. É muito mais profundo. É a forma que a gente se coloca frente à vida. Pode-se ser independente e ser casada; pode-se ser independente morando com o namorado; pode-se ser independente e morar com os pais. Pois independência é a condição de não depender, de não ser tutelada, de ser autônoma, dona das próprias decisões.

E é ai que entra a questão financeira. É através de um salário ou de alguma habilidade que nos permita ganhar dinheiro que vamos definindo nossos padrões (o que é possível fazer, onde vamos morar, etc.) e usando nosso poder de escolha.

Para uma mulher madura e emancipada atuar no mundo de hoje, somente os conhecimentos profissionais não lhe bastam para garantir independência. Temos também que ter conhecimentos práticos! Algo como saber instalar uma máquina, trocar o pneu de um carro ou cortar a grama do jardim. Podemos até não chegar a fazer isso, mas, numa necessidade....

Apesar dos valores de hoje incluírem a igualdade de direitos e deveres, muitas mulheres mostram-se machistas quando o assunto é pô-los em prática.

Trocar o pneu? Nem pensar! Isso é coisa para homem...”. A essas, infelizmente, deixo meu pesar... Nunca conquistarão a independência!

Eu entendo que se trata de uma atividade física puxada e que o homem, biologicamente, tem maior habilidade para lidar com essas situações. Nesse caso, reformularia a frase da seguinte maneira: “Trocar o pneu? Caramba... Vou ter que fazer uma força física danada! Será que se eu pedir para aquele rapaz ali da esquina ele vai me ajudar?”.

Mas não vou sair por ai separando as atividades por gênero sexual: homem faz isso, mulher faz aquilo. São esses conhecimentos que dão a nossa independência uma arquitetura mais sólida. De uma mulher independente não se espera uma postura passiva. Ela não é o apêndice de um homem.

Pronto! Chegamos ao ponto! Homens frente a mulheres independentes.

Dizem que nós, essas mulheres resolvidas, assustamos os homens. Dizem que eles se sentem ameaçados com a concorrência, seja ela qual for. Dizem que temem justamente nossa independência, nossa liberdade física e moral. Eu, particularmente, acredito que os assustamos tanto quanto o alho assusta o vampiro!

Então, se são esses homens que a nossa independência assusta, um brinde a independência!!!

Além de todos seus ganhos, a independência ainda nos faz uma triagem, afastando do nosso caminho homens que não nos fariam felizes. Esses homens não se dariam ao trabalho, sequer, de nos conhecer, pois nos imaginam petulantes, ousadas e liberadas. E cá entre nós, não somos nada disso. Somos simplesmente mulheres, mulheres de hoje...

Àqueles que se interessam por mulheres independentes, mais um brinde!!! Eles têm a tranqüilizadora certeza de estar com uma mulher para amar e ser amado, para acrescentar, e não para assinar um cheque ou para cuidar de uma “filha crescida”. Eles têm razões para gostar de nós: gostam da concorrência saudável e do estímulo diário para estarem sempre melhorando; gostam porque nos viramos sozinhas e não precisamos de grande apoio logístico; gostam porque deixamos claro aquilo que queremos ou não queremos, livrando-nos dos malditos joguinhos; gostam, principalmente, porque sabemos o pleno significado de ser mulheres e amantes.

Esses homens também são tão independentes quanto nós e, do ponto de vista psicológico, demoram mais para estabelecer vínculo afetivo sério e duradouro. Vivem sua independência na plenitude. Suas metas são em longo prazo e incluem, exatamente nessa ordem: carreira, dinheiro que proporcione melhor qualidade de vida e uma mulher interessante para se vincular por definitivo.

Nós não! Mulheres são instintivamente “vinculáveis”, inclusive as independentes! Buscamos um parceiro de vida, maduro e independente como nós, que construa com a gente.

Vejam como nem tudo são flores... Ser independente tem um preço!! Às vezes, é a solidão afetiva temporária...



Escrito por Mariana Tonin às 06h23
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A menina da bolsa aberta,
por GUSTAVO CAPRIOLI




Novo emprego, nova cidade... Foi minha primeira reunião social com o pessoal da Universidade e logo notei que a festa estava cheia de meninas em série, saltitantes, propositalmente ignorantes, ..., garotas como todas as garotas que já conheci.


Meio que para forçar uma situação “intelectualóide”, uma delas me disse que adora pesquisa sobre Estudo de Gênero e que, aliás, uma das boas acadêmicas dessa área tinha acabado de chegar.

Gênero? Que gênero?!?! Do que ela estava falando? Papo cabeça depois de meia noite é forçar a barra! Tudo que eu queria era tomar minha cerveja tranquilamente, me socializar, e ponto. “Gênero” para mim era aquilo que ela estava fazendo: gênero, sinônimo de “máscara”.


Mas aquela menina a quem ela se referiu me chamou a atenção! Era uma aluna da especialização, loira imperiosa e de peito estufado, com quem eu já havia cruzado meio en passant pelos corredores, duas ou três vezes.

Fomos apresentados oficialmente na festa, trocamos algumas idéias profissionais, nos envolvemos na conversa amistosa de um grupo, e só!

Apesar dela ser deslumbrante, ter idéias firme e sorrir faceira..., apesar do perfume dela ser o único delicado que havia por ali..., apesar de tudo..., havia um certo amargor em seu coração e, ao invés de eu perceber seus maravilhosos atributos, fiquei apenas me perguntando como uma mulher como ela poderia ser insegura.

Sim! Era possível notar que aquela mulher que falava e escrevia coisas incríveis, era apenas uma menininha com medos.

Sim! Insegura sim! Ela não me enganou quando seus olhos se perderam ao longe, como se estivesse medindo as outras pessoas (para saber, por comparação, se ela estava se portando adequadamente), ou apenas desejando mais do que tudo nem estar ali, fugir, sair correndo de um ambiente que não lhe agradava.

Ela não bebeu sequer um gole durante toda a noite, ensaiou uma dança debochada e não suportou ficar por muito tempo naquele ambiente cheio de gente comum. Bocejou quando eu lhe ofereci minha bebida e sorriu, com um pouco de pena de si própria e de mim, como se dissesse:
“Me respeite! Por favor, não me compare! Estou aqui cumprindo um dever profissional; não me faça ter que ser simpática além da conta”.

Foi a gigante angústia que ela carregava - por não se sentir adequada e precisar sê-lo - que fez dela a melhor mulher daquela festa, mostrando-se humana e diferente, ..., diferente dessa gente-robô que é programada para ser o que os outros esperam, sem se incomodar com isso.

Me apaixonei perdidamente por ela! Me apaixonei exatamente por aquele olhar lançado para o chão, quando ninguém percebia e tampouco esperava, e não por seu corpo maravilhoso, seu decote, suas piadas confiantes e enturmadas ou por sua alma tão divertida.

Depois dessa constatação, fiquei sentado num canto, quieto, perplexo, encantado, olhando ela se despedir de todos, um a um.

Ela pegou sua bolsa - uma coisa molenga, estranhamente estilosa, cor de cobre - e quando estava prestes a me abandonar triunfante, deixou cair tudo. A bolsa estava aberta!

Rolou pela sala um porta-cédulas, um chaveiro, um batom e um celular, somente. E ela ruborizou quando comentaram o fato dela só ter esses itens na bolsa... Eu só consegui pensar que ela é tão naturalmente insegura que seus defeitos nem estão nela, mas nas coisas dela.

Desde esse dia que eu acordo e durmo dando replay nas imagens dela..., na saída, nos poucos itens daquela bolsa aberta, no sorriso que luta para não se entregar ao ser erroneamente comparada, na dança debochada, no perfume delicado, no decote, na chegada quase arrogante e auto-suficiente, como que pedindo para ser salva.

No começo senti inveja do homem que ela ama ou por quem ela sofre (certamente houve ou deve haver alguém), mas agora só sinto pena..., pena por ele não ver a mulher incrível que está a sua frente... pena por eu não ser ele.



GUSTAVO CAPRIOLI, 34 anos, pai solteiro, ariano impulsivo, psicólogo, professor universitário, crítico literário frustrado, cinéfilo, fotógrafo de amigos e, segundo ele, dono do nariz mais sexy do mundo.



Escrito por Mariana Tonin às 06h52
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A diferença que nos unifica,
por MARIANA TONIN


Ah, mulher... Como eu te amo! E de tanto amar, te olho com ternura procurando te entender, procurando te encontrar, procurando a mim mesma em você....

Tenho te procurado sempre: atrás do meu rosto no espelho embaçado do banheiro, no reflexo das mulheres que cruzam meu caminho, nas minhas viagens mundo a fora. E muitas vezes, te encontro no manso viver do meu próprio cotidiano.

Eu te procurei mulher moderna num Sex Shop do Soho, em Londres, situado numa rua principal, ao lado de butiques e livrarias famosas, Pubs bastante movimentados e uma estação de metrô.


E sabendo-me uma mulher do meu tempo, supostamente liberal e bastante curiosa, entrei para ver o que encontraria de mim ou de minhas semelhantes lá dentro.

Sabe o que eu vi, além de produtos eróticos e manequins com roupas sadomasoquistas? Nada! Eu não me vi e nem vi você! Encontrei apenas homens comprando produtos (revistas, bonecas infláveis, filmes pornôs) e desejando a mulher objeto, já tão conhecida nossa; aquela caricata com bumbuns e seios redondos e empinados, se expondo para uso e abuso.

E você, e nós, onde estávamos? Não nos vi lá dentro buscando ou comprando algo para nos satisfazer ou alimentar nossas fantasias...


Embora preguemos uma liberação sexual, não encontrei ali nenhum eco das palavras de ordem que nos esforçamos tanto em falar, em convencer: igualdade, abertura e busca do prazer.

Não te encontrei ali, mulher, minha semelhante. Mas te encontrei num programa popular de rádio em Cayenna, que acontece diariamente naquele horário em que as mulheres da Guiana Francesa estão cozinhando, ou indo buscar suas crianças na escola, ou descansando do árduo trabalho em seus horários de almoço.

Ali, emocionadas, aflitas, hesitantes, revoltadas, mal-tratadas, ..., mulheres contavam seus dramas por meio de cartas ou telefonemas; e a resposta, logo após um tradicional “Bonjour Madame”, vinha de uma especialista em comportamento humano, que se esforçava para informá-las, conscientizá-las e ajudá-las. Apesar de terem dúvidas quanto sua posição de mulher nos dias de hoje e de admitirem-se confusas, buscavam ajuda, mas nunca pensavam em desistir de seus propósitos.

E nessa minha busca, procuro entender o teu problema, que também é o meu problema. E embora sejamos tão diferentes entre nós mesmas, procuro nessa “diferença” aquilo que nos unifica.

O que tem a ver comigo a prostituta que vi exibir-se, passivamente, numa vitrina em Amsterdã?


Ela não estava sozinha em seu comércio; havia várias outras na mesma rua e nas ruas adjacentes. Eram ruas do centro da cidade, onde passavam a senhora honrada e seu marido, as mocinhas recém-saídas do colégio, os homens que iam a procura de prazer, e eu, uma turista que parei e olhei a cena.


Ela é uma mulher, uma mulher trabalhando! E eu que também sou mulher, e que vivo sempre trabalhando, me vejo na vitrina da vida... Embora mais consciente e rebelde do que ela, também jogo frequentemente de acordo com as leis que me ditam, também fico passiva, também sou uma mercadoria enquadrada em ferozes leis modernas de consumo e vivência.

O que tem a ver comigo aquela ativista do Movimento pró-aborto, que conheci num trem indo de Madri a Barcelona, e com quem conversei durante toda viagem?


Ela trabalhava num navio em alto mar, recebendo mulheres de todos os países interessadas em praticar aborto gratuito e com total acompanhamento médico. Ela lutava por suas idéias, dando argumentos firmes, recheados de chavões meio clichês, numa terminologia de quase combate aos que são apoiavam sua causa.


Ela é uma mulher, uma mulher idealista! E eu que também sou mulher e que vivo de acordo com meus princípios éticos e morais, também defendo uma causa humanitária. Assim como ela, também sou uma ativista, só que ativista de outro movimento: a Reforma Psiquiátrica. Eu também lanço mão de dados estatísticos e bons exemplos para segurar minha argumentação, e também me entristeço quando alguém não se deixa persuadir por minhas idéias.

O que tem a ver comigo aquela mulher muçulmana, que se sentava no Queen`s Park, em frente a meu apartamento, em Glasgow?


Ela, em pleno verão, vestia sua burca preta e escondia-se totalmente devido a convicções religiosas, negando-lhe ao corpo e rosto olhares que não fossem de seu marido. E toda tarde reunia-se com outras mulheres de sua raça no gramado do parque, cheias de bolsas com guloseimas e crianças a brincar. Ali, juntas, não eram mais estrangeiras ou paquistanesas, eram mulheres entre mulheres, mães com seus filhos.


Ela é uma mulher, uma mulher que vive de acordo com sua sociedade! E eu que também sou mulher e que vivo de acordo com o meu grupo, uso biquíni para dourar-me ao sol na praia, mas tão logo chegam minhas amigas e suas crianças, cerco-me de biscoitos, brinquedos e cuidados. Não sou mais a mulher solteira que tem intenções de exibir uma marquinha sensual no imenso decote que usará de noite; sou uma mulher entre mulheres; sou a amiga, com as mães e seus filhos.

Eis ai a “diferença” que nos unifica! Cada qual a sua maneira, instintivamente somos as mesmas.

Para ser bastante sincera, não sei ao certo responder as 3 perguntinhas clássicas que tanto incomodam o nosso ser, enquanto mulheres balzaquianas e emancipadas de hoje: Quem somos? Onde estamos? Onde chegaremos?

Tenho me esforçado, procurado as respostas... Gostaria de poder, sábia e calorosamente, dizer um “Bonjour Madame” e começar a responder tais perguntas!



Escrito por Mariana Tonin às 07h12
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