Fazendo Gênero




Onde está o Príncipe Encantado?,
por GUSTAVO CAPRIOLI



Imagino que uma das grandes diferenças entre homens e mulheres (a muitíssimo grosso modo, obviamente) é que os homens são emocionalmente menos complicados do que as mulheres em termos de “encontrar” a cara metade.

Sabemos bem o que queremos em termos de mulher, a encontramos (rápido ou não), ficamos felizes com a descoberta e nos acomodamos.

Já as mulheres nunca sabem com certeza que tipo de homem estão procurando ou se, pior ainda, já o têm a seu lado.

Que coisa mais louca! A meu ver, o problema dessa complicação feminina está na educação.

Ninguém nunca diz pra um menino que mulheres são perfeitas e, muitíssimo menos, que ele deveria esperar por uma mulher perfeita. Pelo contrário, a educação de um menino enfatiza, quando muito, quantidade, nunca qualidade. Somos criados tendo como máxima a seguinte frase: “Pra que esperar pela mulher perfeita, se você pode passar o rodo nas imperfeitas, que são muito mais divertidas?”

Concordo que seja muito machista esse pensamento, mas ninguém pode discordar de mim quanto a ele existir no universo masculino, pode?! Fomos educados assim!

Enquanto isso, as mulheres sofrem uma perversa lavagem cerebral, o paradigma do príncipe encantado lhes é enfiado goela abaixo.

Não interessa se ela é culta ou ignorante, pobre ou rica... Todas as mulheres, em algum momento, terão que chegar a um acordo com o príncipe encantado: ou o rejeitam ou sucumbem a ele.

De qualquer modo, ele está sempre ali, sempre assombrando, sempre servindo de parâmetro de comparação entre qualquer mortal que dela se aproximar!

Antigamente, as mulheres primeiro se guardavam para o príncipe e, depois, ou viravam solteironas ou acabavam se sujeitando a casar com os meros mortais. Mas hoje, a conquista feminina da igualdade de direitos sexuais, as coisas são diferentes... As mulheres se divertem enquanto o príncipe não aparece em suas vidas, mas ainda assim planejam, em algum momento, assentar residência com o príncipe e virar mulheres felizes.

Notem que nada mudou com a modernidade! O princípio é radicalmente o mesmo! Há sempre um ponto bem definido no futuro em que haverá essa tão esperada ruptura entre o presente imperfeito e uma espécie de nirvana que se seguirá ao encontro com o príncipe.

Os homens ficam com suas mulheres pelo que elas são ou, pelo menos, pelo que acham que elas são. Por isso, a reclamação principal é que elas mudam: “quando me envolvi com você, você não era assim; você não fazia isso, você está ficando uma megera igualzinho à sua mãe. E com as mesmas ancas da sua mãe também!”

Já as mulheres ficam com os homens apesar de seus defeitos... É quase como se tivessem desistido de encontrar o príncipe encantado, mas não de fabricá-lo. Algo do tipo: “Já que a porra do príncipe não surgiu, eu mesma faço o meu, e pronto!”

Então, se relacionam com alguém desejável, mas com defeitos já visíveis - quase sempre já identificados e catalogados - na esperança de conseguir, aos poucos, mudá-lo de acordo com o ideal de perfeição do príncipe. Com o tempo, já que o homem não muda, as frustrações vão crescendo...

O mais engraçado é a falta de comunicação!

Eu já vi homens sinceramente estupefatos, dizendo: “Como ela pode ficar tão furiosa de eu fazer isso e aquilo se eu faço essas coisas desde o começo de nossa relação, e ela nunca disse nada?”

Simples, meu caro! Ela sempre odiou isso, mas ficou com você apesar disso, achando que você iria mudar, amadurecer e que ela iria conseguir fazer você parar com isso e se transformar no modelo ideal, no príncipe encantado.

E as mulheres não são diferentes! Também ficam sinceramente estupefatas, e dizem: “Mas eu não entendo isso! Esse homem está com quase quarenta anos e continua largando a toalha em cima da cama e querendo encher a cara com aqueles cachaceiros amigos dele. Quando ele tinha vinte anos, tudo bem, mas será que ele não vai amadurecer nunca?”

Naturalmente, ambas as lógicas são mutuamente incompreensíveis!

As mulheres têm todo o direito de ficar com um neandertal e depois decidir que querem um gentlemam. Mas então que troquem de modelo, de homem... Maldade é querer exigir que um bruto, com quem ficaram sabendo ser um bruto, de repente tenha rompantes de lorde e se torne seu príncipe encantado.



Escrito por Mariana Tonin às 08h23
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Neandertal ou Gentleman,
por GUSTAVO CAPRIOLI




Já perceberam como as mulheres querem tudo de seus parceiros?!?!

Além de todas aquelas qualidades viris e neandertais que suas avós queriam, ainda aprenderam a desejar uma série de qualidades sensíveis e pós-modernas que, antigamente, só eunucos ou tias solteironas tinham.

Até aí tudo bem. Acho até divertido ser, alternadamente, latin lover canalha e menino carente sensível... até porque acredito que todos os homens são um híbrido disso mesmo.

Mas o chato disso é que as mulheres, não satisfeitas, querem que os homens adivinhem quando usar o braço forte do neandertal ou o ombro amigo do gentleman.

Homens são mais simples! Escolhemos um arquétipo feminino e ficamos com ele, pra sempre.

Eu, por exemplo, gosto de mulheres fortes e independentes, com uma pitada de sensualidade infantil pra adocicar. Só essas! Os outros tipos de mulheres - frágeis, frescas, hipersensíveis, etc. - não acho nem remotamente atraente.

Tenho um amigo cujo sonho é ter um emprego público, uma casa no subúrbio pra dar churrasco pros amigos todo fim-de-semana e uma mulher na qual ele possa (essa parte ele descreve bem fisicamente) dar uma tapão na bunda e dizer: "Muié, mais cerveja pro pessoal!" E ela daria uma risadinha, sacudiria a enorme bunda e iria rebolando buscar mais cerveja. Naturalmente, acabado o churrasco, ela também arrumaria todo aquele caos, enquanto ele tiraria sua merecida soneca, que afinal ninguém é de pedra lascada, não é mesmo .

Meu amigo é quase um neandertal, mas seu modo primitivo de ver as coisas é, também, bastante válido. Ele sabe exatamente o que quer!

Se encontrar uma mulher que se preste a esse papel, e existem muitas, ele nunca vai reclamar que ela é muito dependente, muito burrinha ou que não trabalha. É isso exatamente que ele quer, e o tempo todo.

Por outro lado, tenho certeza absoluta que, em vários momentos ao longo do casamento, essa mulher vai lhe jogar na cara que ele é um bruto, que não a deixa trabalhar e que não liga pros seus sentimentos - como se não fosse exatamente assim que ela queria que ele fosse, como se ela não o tivesse escolhido, entre tantos outros homens, justamente por essas características.

Essa menina em corpo de mulher nunca terá que se preocupar com o mundo real ou com ganhar seu próprio sustento, pois terá um braço forte sempre à disposição, para ampará-la, dar-lhe uns tabefes se sair da linha, ou somente uns tapinhas, para que vá buscar mais cerveja... Nunca teria que resolver sozinha um problema como aquele do bêbado com tentáculos de polvo, que minha namorada encarou naquela noite (descrita na crônica anterior), mas também nunca lhe ocorreria que manter as camisas do marido limpas e passadas é qualquer outra coisa que não sua mais expressa responsabilidade segundo a ordem natural das coisas.

Visto por esse prisma, minha namorada é que é a vítima! Ela, tão moderna, é que foi pega no contrapé da história.

Ela tem que se virar sozinha na maioria das vezes e, mesmo assim, ter a dolorosa noção que o estado do meu colarinho vai refletir diretamente na percepção que as pessoas têm dos seus dotes de mulher.

Ê mundo!



Escrito por Mariana Tonin às 07h46
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Precisei de um homem a meu lado,
por GUSTAVO CAPRIOLI



Eu e minha namorada temos um relacionamento diferente, aberto: namoramos há algum tempo, dormimos juntos sempre, viajamos, fazemos planos futuros, vivemos juntos os altos e baixos de nossas vidas pessoais e profissionais, mas moramos em casas separadas na maior parte do tempo.

Eu sei que esse relacionamento é sui-generis, fortemente influenciado por nossa formação (minha e dela) em psicologia.... Sei que nosso acordo em manter a individualidade não é aplicável à grande maioria dos casais e que não nos servirá por toda a vida...

Mas o foco é o mesmo em qualquer relação, seja ela liberal, moderna ou tradicional. O nosso foco é sempre a felicidade que une o casal!

Quase sempre saímos juntos, como casalzinho “baunilhogâmico”; outras vezes, saímos com nossos amigos ou colegas de trabalho, num programa que respeite nossas individualidades enquanto pessoas, não enquanto casal.

Eu, gato escaldado de relações anteriores e pesquisador da dinâmica psíquica feminina, sei que as mulheres modernas precisam disso para se sentirem inseridas no mundo hoje e, por assim dizer, sempre encorajo minha namorada a exercitar sua “individualidade”. Essa é uma forma de eu também negociar o exercício da minha individualidade vez ou outra...

Um dia ela saiu com o pessoal do trabalho para um happy hour e eu, tranquilamente, achei por bem não me juntar ao grupo. Não porque eu não queria participar, muito pelo contrário, mas por achar que aquele momento não me dizia respeito e que ela precisava estar lá sozinha, para se sentir a vontade.

Acontece que ele teve problemas nessa saída... Um cidadão com umas doses a mais na corrente sanguínea, amigo-do-amigo-do-amigo dela, resolveu que queria se aproximar de qualquer jeito, e dá-lhe investida e puxões nos braços da coitada.

Sei que na vida noturna isso é um problema bobo, corriqueiro, e que ela podia ter resolvido sozinha – tanto que resolveu -, mas em 100% das vezes deixa as mulheres nervosas.

Por que será? Porque as mulheres têm essa mania, totalmente machista, aliás, de achar que ter um homem por perto resolve tudo, mesmo que ele não faça nada.

E não deu outra! Depois da confusão, quando ela chegou em casa, ouvi o discurso padrão: “Tive que resolver tudo sozinha! Precisei de um homem (falado assim mesmo, com a boca cheia) e você não estava lá pra ficar ao meu lado!”

Uai! E o exercício da nossa individualidade, onde foi parar?!



Escrito por Mariana Tonin às 07h08
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A grande esquizofrenia feminina dos dias de hoje,
por GUSTAVO CAPRIOLI




Ainda lembro quando minha namorada e eu fomos escolhidos para batizar meu sobrinho, primeiro filho de minha única irmã... Confesso que muitos ficaram surpresos, afinal, não somos casados ainda, embora tenhamos planos de oficializar essa união dentro de alguns meses, de modo a ter a famosa aceitação e benção da sociedade e da religião.

Ao longo da semana anterior ao “grande evento”, ela me perguntou umas 3 vezes se eu já tinha verificado minha roupa, se estava tudo certo, se eu não precisaria fazer nada, etc. E eu fui só enrolando..., dizendo que ia fazer, que ia ver..., mas, obviamente, o assunto era a última das minhas prioridades.

Chegou a manhã do grande dia e ela, ao abrir o armário, descobriu que minha única camisa social branca (cor obrigatória aos padrinhos) estava encardida e inusável.

Xiiii. Acendeu o alerta vermelho, soaram as sirenes e quase choveu granizo, no mínimo. Conclusão: Esporro Generalizado!

Claro que ela tinha certa razão. Eu realmente tinha sido negligente e irresponsável. Mas o que me chamou atenção foi como a raiva da minha namorada ilustrou a grande esquizofrenia feminina dos dias de hoje, aquela sensação ambivalente entre desejos e deveres da mulher.

E logo uma máxima foi verbalizada, revelando a faceta moderna da minha namorada: “Quero um Homem que não dependa de mim!”

No primeiro momento de fúria, ela esbravejou que queria um homem independente, que soubesse se cuidar, que soubesse cuidar das suas coisas, que não dependesse dela pra tudo que nem um bebêzão.

Nesse ponto, a bronca foi injusta! Eu sou, em muitos aspectos, bem mais independente e responsável do que ela – e, com certeza, mais organizado do que 98% dos homens heterossexuais que conheço. Mas comparado a ela, é claro, sempre vou ser desorganizado, porque a minha namorada é o exemplo da organização e da praticidade, isso eu tenho que confessar.

Tudo bem, eu tinha vacilado naquela ocasião específica, mas não por eu ser desorganizado ou dependente, mas porque o bom ou mau estado das minhas roupas não é uma prioridade na minha vida. Evidente que gosto de me arrumar, de estar limpo, cheiroso e bem vestido, mas não faço disso uma neurose.

De qualquer modo, a crítica revela um anseio válido das mulheres modernas: elas não são mais como suas mães, não querem mais um homem para cuidar, vestir ou dar de mamar.

E eu, como um estudioso do comportamento humano (Sim! Também sou psicólogo), não pude deixar de notar que as mulheres esclarecidas de hoje, assim como minha namorada, são independentes, inteligentes, doutoradas e barbadas; querem mais é homens inteligentes que sejam seus parceiros e não seus filhos.

Quando eu já estava quase me recuperando da chuva de granizo e entendendo o lado dela, veio a segunda parte do estresse. Ela me surge com outra máxima, revelando uma faceta antiquada dela que até então eu não conhecia: “O que as pessoas vão pensar de mim se te virem desse jeito?!”

Que antagonismo, não é mesmo! Subitamente, ela ser madura e emancipada já não era mais nem um pouco importante.... Pelo seu comentário, minha namorada parece achar que há uma expectativa social de que a mulher é que tem que cuidar do homem, mantê-lo bem vestido e arrumadinho, sem manchas ou amassados.

Daí eu conclui que, se um homem aparecer em um evento social com uma camisa branca encardida, ninguém vai pensar mal dele. Claro que não! Desde quando é obrigação do homem se vestir? Homem tem outras preocupações! A culpa é da relapsa da Barbi, que não consegue nem vestir direitinho seu próprio Ken.

Soa absurdo esse pensamento, não é mesmo! Mas não é! Infelizmente é a realidade que perturba as mulheres até os dias de hoje... Coitada! Deve ser duro viver essa ambivalência... Mais uma vez, ela tem razão e não tem.

Por todos os motivos óbvios, essa situação me recordou um fato curioso que aconteceu quando eu era criança. Eu tinha tio-avô que sempre nos visitava bastante fedido, repetia roupas dias consecutivos e usava barbas e cabelos longos e desalinhados. Para piorar, era recém-casado com uma mulher vinte anos mais nova. Não deu outra... A sentença de toda família, homens e mulheres, foi sumária e inequívoca: a culpa toda era da mulher que, talvez por ser tão mais nova, não sabia cuidar dele, ou não tinha moral de mandá-lo tomar banho, aparar a barba, usar desodorante e trocar de roupas. Pareceu não ocorrer a ninguém a simples possibilidade de ser ele o único e maior culpado por sua falta de higiene pessoal.

Ao lembrar disso, tive que dar o ego a torcer!

Socialmente falando, se eu aparecesse de camisa encardida, não tenho dúvidas de que a culpa recairia na coitada da minha namorada. Seria o motivo perfeito que alguns reacionários de plantão iam usar para criticar a vida atarefada e cheia de preocupações profissionais que ela leva. Entretanto, se ela é tão liberal e emancipada emocionalmente quanto aparenta ser, isso não deveria ser incômodo.

“Deixe os minúsculos pensarem o que quiserem”, eu diria. Mas, para ela, libertar-se da opinião (aprovação?) dos outros ainda é doloroso, assim como para qualquer outra mulher.

Por um lado, minha companheira quer que eu seja um homem independente e que saiba cuidar de mim mesmo, por outro, ela sabe que a sociedade presume que eu lhe seja dependente: seu desempenho enquanto mulher será julgada, entre outros quesitos, pela minha apresentação.

Ou seja, ao querer um homem independente, o que ela realmente quer não é um homem independente. O que ela realmente quer é obter a reputação de esposa-que-cuida-muito-bem-do-marido sem precisar, pra isso, ter trabalho cuidando de mim, já que eu, homem independente, me cuido sozinho.

Mas, como diz um dos meus ditados favoritos, you can't have the cake and eat it too.

Soa egoísmo? Mas não é! É apenas a insistência para que ela (e todas as outras mulheres modernas) assuma consigo mesmo um papel social, ..., e dane-se o resto!

Aliás, antes de sairmos desse assunto, eu sou quase “homossexualmente” organizado e limpinho; jamais iria a qualquer lugar com aquela camisa encardida. Isso nunca me passou pela cabeça! Eu estava tranqüilo porque sabia que, na pior das hipóteses, se a camisa branca estivesse inusável, eu iria com alguma outra das minhas camisas sociais não-brancas. Claro que os padrinhos tinham que ir de camisa social branca, mas eu prefiro ser o único padrinho vestido errado (já tenho fama de excêntrico mesmo... me convida pra padrinho quem quer!) do que o único padrinho porco.

Acabou que fui com uma camisa social verde-escuro, e a combinação ficou ótima. E inclusive combinou muito com o lindo vestido verde-oliva que minha namorada usou...



Escrito por Mariana Tonin às 12h08
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PREFÁCIL nada fácil...
por MARIANA TONIN




Tenho pouca paciência para prefácios (meus e alheios); frequentemente os pulo, retornando depois de ler a obra...

Nessa "coletânea virtual" de crônicas não tive muita escolha!

É essencial informar previamente ao meu leitor a ótica de pensamento que tenho, para que se entenda que a formulação dos problemas e o conteúdo escrito aqui não podem ser desvinculados de minha herança ontogenética, formação sociocultural e visão acerca do assunto a que me dedico escrever (observações diárias, em nível pessoal e profissional).

Minha obra é feita de presenças e ausências.

Presença de mulheres semelhantes a mim, que se interrogam sobre sua posição e participação no mundo e, principalmente, sobre sua essência de mulher.

Ausência de mulheres esmagadas por problemas de sobrevivência, subempregadas, prostitutas, camponesas e faveladas, para as quais o problema da condição feminina é menor frente á necessidade de reformulações sociais. Essa ausência não é alienação ou exclusão, apenas não é o universo dessa pesquisa.

Os temas a que me dedico tratam dos principais questionamentos e anseios da mulher de hoje e tentam mostrar de forma simples uma outra ótica, nem machista nem feminista, apenas atual.

Primeiramente, quero me apresentar. Sou filha única de uma família de descendência européia, parte católica, parte judia, que migrou para o Brasil em busca de paz e empregos. Meus avós oportunizaram educação e cultura aos seus filhos, apesar das dificuldades da vida agrícola do interior de São Paulo naquela época. Meus pais, jovem-adultos universitários dos anos 70, conheceram-se levantando bandeiras, lutando por uma causa e sentindo na pele o peso de uma ditadura. Ao nascer, fui rotulada como membro da classe média intelectualizada e pude ter acesso a boa educação formal e oportunidades burguesas que, caso tivesse irmãos, não seriam financeiramente possíveis. E fui criada assim, crítica e curiosa, longe geograficamente daquilo que meus pais chamavam de “padrões familiares exemplares”, mas nunca negando minhas origens e suas influências na construção do que sou hoje.

Antes de ser uma profissional da Psicologia, de ser filha, amiga ou amante, SOU MULHER!!

Nasci numa geração em que os soutiens já haviam sido queimados, a igualdade de direitos entre os sexos reivindicada, e a mulher no mercado de trabalho era um fato indiscutível. Não tive que lutar por igualdade! Não vivi grandes conflitos nessa área! Simplesmente fui participando do processo...

Gostaria de lembrar que eu mesma sou uma balzaquiana madura e emancipada. Faço parte do grupo de mulheres a que me refiro em minhas crônicas. Assim, a neutralidade científica começa a comprometer-se desde o momento da escolha do tema. Compromete-se quando escolho escrever em primeira pessoa. Compromete-se quando temo estar criando um Alterego. Compromete-se quando “quase” faço algumas catarses.

Mas era exatamente esta a proposta de minha orientadora ao me sugerir essa “viagem” ao universo feminino, “viagem” para dentro de mim mesma!!! Segundo ela, se tenho bagagem científica, clínica e pessoal para escrever sobre isso, porque não aproveitar o empirismo, a vivência?!

E aqui estamos nós, lendo uma obra escrita e organizada por mim, mas “elaborada” por 800 mil mentes. Minhas avós, mãe, tias, amigas, colegas de trabalho, pacientes... Todas estão um pouco aqui. Algumas serão oficialmente citadas, outras terão a boa percepção de entender que falo sobre elas.



Escrito por Mariana Tonin às 20h01
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