Fazendo Gênero


Encerrando Ciclos, por Mariana Tonin


Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final.

Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos... Não importa o nome que damos! O que importa é deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram.

Foi despedido do trabalho? Terminou uma relação? Deixou a casa dos pais? Partiu para viver em outro país? A amizade tão longamente cultivada desapareceu sem explicações?

Você pode passar muito tempo se perguntando por que isso aconteceu; pode dizer para si mesmo que não dará mais um passo enquanto não entender as razões que levaram certas coisas, que eram tão importantes e sólidas em sua vida, a serem subitamente transformadas em pó.

Mas tal atitude será um desgaste imenso para todos: seus pais, seus irmãos, seus amigos, o amor da sua vida, enfim, todos estarão encerrando capítulos, virando a folha, seguindo adiante, e todos sofrerão ao ver que você está parado.

Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado, nem mesmo quando tentamos entender as coisas que acontecem conosco.

O que passou não voltará: não podemos ser eternamente meninos, adolescentes tardios, filhos que se sentem culpados ou rancorosos com os pais, amantes que revivem noite e dia uma ligação com quem já foi embora e não tem a menor intenção de voltar.

As coisas passam e o melhor que fazemos é deixar que elas realmente possam ir embora.

Por isso é tão importante (por mais doloroso que seja!) destruir recordações, mudar de casa, dar algumas coisas para caridade...

Desfazer-se de certas lembranças significa também abrir espaço para que outras tomem o seu lugar. É preciso deixar ir embora... soltar-se.... desprender-se...

Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto, às vezes ganhamos e às vezes perdemos.

Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor.

Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda. Isso o estará apenas envenenando, e nada mais.

Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".

Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo! Por isso, diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará.

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.

Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.

Encerrando ciclos, não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira, deixe de ser quem era e se transforme em quem é agora.

Quando nos culpamos pelo que já fizemos, estamos nos culpando por uma pessoa que não somos mais.



Escrito por Mariana Tonin às 21h29
[ ]


Tentar de novo o mesmo amor, por Mariana Tonin

 

Sabe aquele homem por quem já fui loucamente apaixonada? Pois é... Ele cruzou outra vez meu caminho!  E eu descobri que definitivamente ele não é um homem qualquer, porque um código secreto me revelou que algo não está totalmente apagado e, de repente, tudo me pareceu fácil e tentador...

 

Mas o que me atrai outra vez nesse homem???  Em partes, tudo aquilo que já me atraiu anteriormente mas, sobretudo, a facilidade do conhecido. Algo conhecido sempre é bastante tranqüilizador!

 

Eu pensei que ele pode até não ser perfeito, mas com alguns arranjos aqui e acolá, essa relação pode emplacar dessa vez... E assim, banhada de otimismo e boas intenções, me pergunto: será que dá pra recomeçar tudo?

 

Atenção! Reprise! Vamos passar novamente as melhores cenas, repetir aquele beijo, cair apaixonados na cama e viver outra vez aquele amanhecer, ..., mas atendendo a pedidos vamos cortar as brigas, os mal-entendidos, as traições e, principalmente, aquele final sofrido e cheio de prantos.

 

Palmas! Nada com um bis pra nos deixar satisfeitos, né?!   Mas e a realidade, como fica?

 

A realidade é que embora tudo pareça tão conhecido, o resultado da segunda vez pode ser tão ou mais imprevisto do que o da primeira.

 

Isso não significa que não se deva tentar!  Muito pelo contrário! São as tentativas que nos ensinam viver e amar melhor. Apenas convém preparar um pequeno arsenal para enfrentar com mais chances o segundo round.  Trata-se de um conjunto de dados, conhecimentos e sobretudo lucidez, capaz de capitalizar tudo que se viveu na primeira tentativa e transformar não apenas em lembranças românticas, mas também em aprendizado, afinal, só assim os mesmo erros não irão se repetir.

 

Mas nunca é demais lembrar que melhores que sejam as lembranças, houve erros que acabaram levando a relação ao fim, e se agora vamos trazê-la de volta não há de ser apesar dos erros, e sim graças a eles, uma vez que eles serão nossos mestres nessa segunda chance a esse amor.

 

Mas onde, exatamente, um amor interrompido começa? Infelizmente não é no encantador princípio, como gostaríamos; também não há de ser no meio, quando ambos já estavam em desavenças; e não é, muito menos, por aquele fim dolorido e que gostaríamos de esquecer. Então, por onde?

 

Eis ai um dos pontos básicos da segunda tentativa! Um amor não se retoma; ele tem que ser refeito, com outro princípio e meio, para que tenha outro fim!

 

De uma forma bastante simplista, podemos dividir a segunda tentativa em dois padrões básicos.

 

O primeiro padrão ocorre é quando a relação tornou-se inviável, apesar do casal ter vivido muitas coisas boas juntos... A separação foi uma solução natural, dolorosa como sempre são as rupturas, mas não dilacerante, e cada um seguiu em frente, razoavelmente inteiro. Houve afastamento, tempo, um certo esquecimento e até outras pessoas, mas um dia aconteceu o reencontro e a constatação agradável de que algo ainda seria possível. O tempo e as experiências fizeram com que ambos se modificassem, ganhando uma visão melhor da vida e do amor. Atraíram-se uma vez, poderão atrair-se novamente, mas não nos mesmos moldes. Se o que os separou da primeira vez foram radicalismos ou incompreensões, isso já foi resolvido através de outros amores ou de uma reflexão coerente, que funcionaram como estufa de amadurecimento para que este se realize dessa vez.

 

No segundo padrão, a paixão revelou-se impraticável e aos trancos chegou-se a ruptura... A separação foi dolorosa, sofrida e deixou a sensação de uma coisa mal resolvida. Um queria, o outro não queria, e por isso ensaiavam a separação para voltar no dia seguinte, e logo tornavam a brigar. Por fim um deles não agüentou e foi embora de fato! E ficou no ar a sensação de algo não dito, ou feito ou desperdiçado... O tempo passou lento, e embora tivesse um deles (ou ambos) encontrado outra pessoa, continuaram se gostando a distância, relembrando, cultivando lembranças e fantasiando, até que um dia se reencontraram. O encontro não foi vivido como um estudo cauteloso de possibilidades, e sim como um chance de reaver a paixão perdida.

 

O fato é que seguindo o primeiro ou o segundo padrão, o reencontro mexeu com a gente e gerou um flashback.  E é de recaídas que se fazem muitas das segundas tentativas...  E a recaída acaba se tornando uma espécie de arremate, eliminando as dúvidas possíveis (não há dúvida que não se esclareça na segunda tentativa), restaurando a força da realidade acima da imaginação.

 

Por isso reafirmo que não tenho nada, portanto, contra as segundas tentativas!!! E é repassando cenas, vendo melhor, que analisamos mais alguns detalhes importantes que nos escaparam antes...

 

A objetividade deveria ser a grande vantagem da segunda experiência, afinal, por já conhecermos aquele homem, sabemos até onde podemos ir na tentativa de conseguir aquilo que achamos fundamental.  A pura insistência em algo insatisfatório é bem mais do que teimosia, é quase uma cegueira voluntária.

 

É importante se ter em mente que a segunda tentativa deve se definir rapidamente! Assim, se as diferenças continuam intoleráveis e os obstáculos continuam ali, não há porque recomeçar o antigo sofrimento.



Escrito por Mariana Tonin às 12h38
[ ]


Desabafo arrependido, por Ânimus (Alter-ego masculino de Mariana Tonin)

 

Depois de um tempo de intensa solteirice cheguei a triste conclusão de que somos nós, os homens, que transformamos as mulheres em fugazes.

 

Tudo bem. Eu explico!

 

Todos nós queremos mulheres legais, sexy, bonitas, inteligentes e boas meninas...  E quando aparece uma assim, de bandeja, a primeira coisa que a gente pensa é:  “Oba, me dei bem!  Essa é a mulher que vai construir comigo, que vai ser a mãe dos meu filhos e a mulher que a minha mãe gostaria de ter como nora.”

 

Daí a gente sai com ela uma vez, duas vezes, várias vezes, ..., a relação fica estável, ..., começamos a encontrá-la depois da faculdade ou do trabalho, ..., vamos ao cinema ou a um barzinho legal, ..., convivemos em família e com amigos, ...., curtimos jantar fora, ..., o sexo rola sempre que dá, ...., tudo legal, até virar uma rotina sem graça!

 

Daí a gente começa a olhar os caras bem humorados indo a caça, arrasar com a mulherada, e morre de inveja deles, ..., sente falta de dar aquelas cantadas infalíveis, ..., quer reviver aquela olhada quente pra uma gata, ..., quer ter o prazer da conquista e da novidade outra vez!

 

Daí a gente começa a pensar que não está pronto para se enclausurar nesse namoro, e a mulher “tudo de bom” se transforma numa chata, de quem começamos a sentir aversão quando o nome dela aparece no celular, ou quando nos propõe algum programa outrora legal, ou quando forçamos um tesão quando ela quer transar.

 

E aquela promessa de vida estável não tem mais razão de ser e, antes mesmo que ela se dê conta, a gente começa a ser indiferente, mentiroso e egoísta, fazendo com que a pobre coitada se questione o que há de errado com ela e o que fez de errado para não merecer nosso amor.

 

Ela não fez nada! A culpa é nossa mesmo! Queremos voltar ao mercado e ela está atrapalhando!

 

E tudo que pensamos é em voltar á nossa vidinha de antes, não vendo a hora de sair e arrasar novamente com a mulherada, né?!

 

Grande ilusão!!!

 

No início curtimos muito, nos sentimos o macho-alfa outra vez, ..., até que um dia chegamos em casa depois da  “caçada”,  sozinho ou mesmo acompanhado, e ficamos tentando descobrir porque não estamos satisfeitos.

 

Pode ser porque uma mulher linda, gostosa e misteriosa que com quem saímos nem sequer esboçou interesse genuíno em nós.  Não que quiséssemos algo sério com ela ou com qualquer outra, mas ser tratado assim, sem o menor cuidado ou interesse por parte dela, nos deu uma certa frustração.

 

E por mais que não queiramos, acabamos pensando naquela mulher legal, de procedência, para quem dissemos que envelheceríamos felizes ao lado, mas a quem deixamos pra trás, alegando desgaste na relação e necessidade de espaço e liberdade...

 

Pois é...  E enquanto isso, ela, chateada e se sentindo traída, custa a entender os nossos porquês, ..., e a dúvida vira angústia, ..., e a angústia vira raiva, ..., e a raiva precisa ser revidada, dando uma injeção de auto-estima em seu ego fragilizado.

 

Isso faz com que a doce mulher mande tudo a p#@$,  por achar que amor verdadeiro não existe, e molde sua nova vida e atitudes baseada na imagem daquela descompromissada que atrai facilmente os homens (como atraia a mim); ela resolve não se envolver mais, pra não se machucar, ser traída e depois chutada novamente; deletando os seus sonhos de família, filhos e tal pra sempre.

 

E assim como o tempo passa para ela, passa para nós também...  Até que um dia encontramos com essa mulher fantástica e algo nos causa nostalgia e arrependimento... 

 

Nossa! Porque será que ela virou uma mulher enlouquecedora, descolada e descompromissada, definitivamente um vulcão loiro ou moreno que nem olha para nós?



Escrito por Mariana Tonin às 13h58
[ ]


“Quase” é muito medíocre,  por Mariana Tonin

 

Há pouco mais de um ano eu vivia um dilema: não sabia como concluir o mestrado com calma e com dedicação, afinal, não podia viver só para estudar; eu precisava mesmo trabalhar!

Infelizmente as despesas e responsabilidades da vida falaram mais alto e eu tive que conciliar as duas atividades, me acovardando!

Foi ai que um grande amigo me fez uma pergunta, que na época me deixou intrigada, e até hoje ainda serve como auto-análise na minha vida!  Ele disse: "E aí Marola, você vai mesmo optar pela mediocridade e se contentar com o quase-sucesso, a quase-felicidade e o quase-amor?"

Evidente que a pergunta me incomodou, e evidente que era esse o propósito dele... No fundo, ele é tudo o que uma pessoa acomodada precisa: ele é o chacoalhão.

Claro que eu não quero ser medíocre!!!

Deus não me deu esse sorriso largo, essa alegria desencanada de viver, esse coração imenso e essa sede por saber à toa. Eu devo ser especial, eu devo ter algum talento.

Não! Eu não quero ser medíocre! Eu não quero desistir! Eu não quero optar pelo caminho mais fácil! Eu não quero que a energia negativa me enterre!

Foi ai que decidi pedir demissão da minha “vidinha”.

Hoje eu continuo trabalhando como psicóloga e como educadora, ganho por isso, mas tenho a sensação mais maravilhosa que já tive em toda a minha vida: o prazer de fazer o que gosto.

Sim! Eu conseguir me tornar uma psicóloga pesquisadora!

O passo seguinte foi desoprimir meu coração...

Eu tinha (tenho?) um grande amor: bonito, inteligente, seguro,  ...,  gostava de sair pra jantar, de ir ao cinema, de viajar, de estar com a família, de colocar Pink Floyd pra gente ouvir, ...,  gostava de arte, de interpretar a vida de um jeito que se tornou, aos poucos, o meu também, ..., e me chamava de criança, mas me tratava como mulher.

Não é à toa que foi o único homem que marcou a minha vida, afinal, ele era quase-perfeito... 

Mas faltava aquele olhar que o homem lança, não só quando digo alguma coisa inteligente e estou bem vestida, mas quando me olha nos olhos e vê minha alma, ..., faltava aquele cuidado e respeito genuíno com meus sentimentos e opiniões, ..., faltava aquela coragem em dar um passo adiante em nossa relação, ..., faltava aquela pegada de quem te conhece, mas parece acabar de te conhecer, ..., faltava aquele ritmo que aquieta um coração afetivo e cheio de curiosidades como o meu, ..., faltava uma tranqüilidade de amor recíproco, que me desse coragem de continuar investindo, ..., faltava, principalmente, mais ação, ..., mas sobravam pensamentos confusos, rótulos, espaços e angústias de traição. 

Foi aí que lembrei do meu velho amigo e me perguntei: “Vou mesmo me contentar com esse quase-amor que ele me oferece?”

Então resolvi perguntar se ele queria levar aquilo adiante! E eu perguntei 800 mil vezes, mas ele nunca respondeu seguro ou agiu a favor de resolver isso...  Na verdade, ele nunca respondeu de fato essa pergunta, e nunca mais vai ter a chance de responder, porque eu cansei!!!

E aqui estou eu aberta a um grande amor...

Eu não sei se ele existe, da mesma forma que eu não sei se um dia serei uma grande psicóloga pesquisadora; só sei que estou preparada para quebrar a minha cara, porque eu posso ser romântica, idealista e infantil, mas eu não sou medíocre.



Escrito por Mariana Tonin às 15h10
[ ]


P.Q.P., seja lá onde isso for..., por Mariana Tonin


Já tinha acontecido! Não dava mais pra disfarçar! O melhor mesmo era conversar sobre o assunto! Meu nome, definitivamente, não era aquele que ele tinha dito...

Como assim? Ele não podia “quase” fazer silêncio daquele jeito! Não se solta assim um verme "corroedor" de almas numa mulher ciumenta e depois pede mais um chopp ao garçom, né?!

Eu precisava saber o que essa mulher havia feito para merecer aquele olhar de devoção preguiçosa, algo entre o melancólico e o submisso, entre a saudade e o repúdio, afinal, aquele olhar pensativo lançado ao horizonte era o olhar que toda mulher sonha causar em um homem!

Eu precisava saber se o corpo daquela va&¨%ca era deslumbrante... Aposto que era! Só uma mulher muito gostosa enlouquece um homem a este ponto, e só uma mulher muito gostosa simplesmente dispensa um homem daquele.

Não, nada disso! Ela deve ser uma mulher muito bem resolvida, isso sim...  Ela tem celulite e é um pouco flácida, mas deve fazer o tipo chique, que senta na beira do sofá com uma roupa cara, mas despojada, e toma vinho tinto em taças gigantes. Ouso até dizer que ela tenha um cachorro médio porte, tipo Labrador ou Boxer, e que faz carinho no pescoço dele enquanto pede para o convidado escolher um DVD cult para assistirem jogados no tapete felpudo branco, que combina perfeitamente com seu aconchegante apartamento clean de mulher em vias de se tornar bem-sucedida.  

Ah...  Se for isso, está no papo!  Aposto que ele prefere 800 mil vezes o meu jeito de mulher-menina, ousada e brincalhona, afinal, dizem que os homens gostam desse híbrido, né?! 

Meu pai... Ou será que é uma garotinha? Pode ser uma daquelas com doce suor ginasial, pele dura, malícia pseudo-ingênua, meio burra sobre política, meio tapada para livros, que só gosta dos rocks que estão na moda e associados a algum evento com patrocínio de celular (e de música eletrônica, é claro).

Bom, se for isso, certamente ele prefere ouvir pela milésima vez aquele CD do Pink Floyd ao meu lado, cheio de músicas antigas e boas para a gente ouvir enquanto namora, quando voltamos nossos olhares um pro outro....

Nossa! Quem será essa criatura? Quanto mistério...

Talvez essa fulana seja o mistério em pessoa, daquele tipo que encanta e fascina a mente investigativa de um homem com seus joguinhos inteligentes... Mas uma mulher misteriosa ia rir daquele cara previsível, meio metido a machista e cheio de piadas ruins? Ela ia conseguir tomar banho naturalmente enquanto ele fazia xixi a seu lado? Não! Claro que não! Ela era fresca demais pra isso...  

E por isso eu acho que ele ainda ama essa va&¨%ca, porque quando o homem respeita mesmo uma mulher, ele fica nervoso demais para ficar a vontade. Mas será que é bom ficar sempre nervoso na presença de alguém? Colocar uma mulher muito no pedestal não significa não conseguir abraçá-la e viver sozinho?

Amanda! Era esse o nome! E ao trocá-lo desatento, ele sorriu, vingando-se inconscientemente em mim de todas as mulheres que já o haviam deixado perdido.

Claro que passei a noite em claro escrevendo o nome Amanda no Google e no Orkut, relacionando-o a Manaus, e repetindo esse nome estupidamente para meu cérebro.

Ela podia ter 28 anos, formada em odontologia, interessada em amigos e network, ..., ou uma artista plástica que faz uns pássaros horríveis com papel colorido e tem um site brega para divulgá-los, ...., ou apenas Mandinha, uma garota de programa que topava dupla p... (estava escrito assim mesmo no seu site), ...., ou aquela que passou em quarto lugar no curso de Direito na Universidade Federal do Amazonas em 2003, ..., ou a Mandita,  amiga da Tati, uma patricinha idiota cheia de amigas idiotas, ..., ou a dona de um currículo com experiência no pacote completo do Office 2005, ...,  ou ter dezesseis anos e um blog cheio de dúvidas sobre a vida, ...,  ou a dona de uma pousada com cachoeira em Presidente Figueiredo, ...., ou a mulata gostosa, casada com o alemão rico, que deixa recados na comunidade “Saudades de Manaus”, ...,  ou a vocalista de uma banda só de mulheres.

Amanda também era nome de escola, igreja, cidade e muitaaaaas mulheres de Manaus! Mas acima de tudo, Amanda era alguém que dormia naquela hora, enquanto minhas vísceras buscavam sua presença e ausência na internet.

E de tanto tentar esquecer Amanda o tempo todo (porque o tempo todo ele só pensava nela, e me fazia pensar também), eu resolvi fazer este texto e mandar a Amanda e o meu namorado pra P.Q.P, seja lá onde isso for....



Escrito por Mariana Tonin às 15h23
[ ]


Cuidado, frágil!,   por MARIANA TONIN

 

Por favor, não grite comigo!  

Há uma conexão otorrinolaringológica que faz com que qualquer voz feroz que entre pelos meus ouvidos se liquefaça em seu trajeto e termine por sair pelos olhos em forma de lágrimas.

Se possível, não minta pra mim!

Deposito muita fé no ser humano, acredito em tudo o que me dizem e reluto em aceitar que pode haver provas em contrário.  Isso me faz cair em muitas armadilhas e, certamente, uma será fatal, porque sempre que me enganam, morro um pouco além do dia que passa e me consome.

No cômputo geral dos lugares-comuns, que frige os ovos e encerra as contas, sou uma mulher frágil!!!

Minha força interior - que sustenta o peso de meus ossos, carnes e erros  -, suporta carga extra até um determinado ponto...  E como resultado do excesso, eu desabo.

Desabo, desmonto, desmorono...

Minha energia vital escorre e forma ao meu redor uma poça de inseguranças.

Mas passa! Um dia passa...

Mas agora, nesse momento, ainda estou no “durante”, ..., e no  “durante” eu sofro muito.

Sofro com o que não concordo e não compreendo, ..., sofro com o que não espero e não aceito, ..., sofro entre o desejo de me conformar e a vontade de alterar as formas.

Quando sou conteúdo de um recipiente doloroso, sofro porque não quero me conter ou ser contida.

Hoje, estou frágil!

Hoje eu só preciso de uma mão segura que me dê apoio sem cobranças.

Hoje eu só peço um punhado de esperanças.

 



Escrito por Mariana Tonin às 13h11
[ ]



Aborto sem aforismo, por Mariana Tonin

Coincidentemente, duas pacientes de meu grupo psicoterápico engravidaram mês passado e, por motivos que não vem ao caso, ambas não quiseram dar continuidade a gravidez. O curioso é que elas vivenciaram experiências tão idênticas e tão antagônicas ao mesmo tempo!

Uma delas, que optou por uma possibilidade confortabilíssima (e caríssima também), usou como método abortivo a sucção e foi atendida numa clínica ginecológica moderna, dentro dos mais altos padrões de higiene e limpeza. Foi anestesiada para não sentir dor alguma e não ver como a intervenção ocorria. Terminado o processo, ficou 3 horas em observação antes de receber alta. Em casa, já devidamente medicada e podendo fazer repouso, sentiu dores semelhantes ás cólicas menstruais e pôde voltar a suas atividades normais em pouco tempo.

A outra, não dispondo de recursos financeiros e educativos melhores, após atentar contra sua própria vida várias vezes (tomando porções intoxicantes, introduzindo objetos perfurantes em seu ventre e carregando móveis terrivelmente pesados), finalmente optou por um método mais barato, mesmo ainda sendo um preço bem acima de suas posses. Ela comprou um remédio abortivo, introduziu em seu útero e sofreu, sozinha, contrações horríveis até que o feto fosse expelido aos pedaços. Foi atendida no Hospital Geral alguns dias depois, vitimada por uma inflação abdominal grave causada por resíduos desse abortamento.

Independente da forma que o aborto se deu e do preço que elas pagaram por ele, ambas sentiram a clandestinidade da ação e saíram de lá criminosas, além de terem seu corpo e sua alma mudados pra sempre...

Como o artigo 124 do Código Penal Brasileiro prevê detenção de 1 a 3 anos para a mulher que provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lhe provoque, fica evidente tratar-se de um crime hediondo, repudiado tanto por nossas leis quanto por nossa psiquê saudável. Assim, a mulher que aborta se sente criminosa e esmagada pela culpa, a ponto de ficar dias, meses e até anos vivenciando esse dilema.

O que a sociedade esquece é que a questão em si envolve bem mais coisas que uma mulher e uma criança... Vai muito além disso! Pode ser uma má formação do feto, ..., ou uma mulher cuja saúde pode estar em risco, ..., ou um meio social opressor que não vê com bons olhos aquela gravidez, ..., ou um homem que vira as costas, deixando a mulher desesperada, ..., ou mesmo uma mulher decidida que aquele não é o momento certo para ter o filho, por inúmeras razões que não nos caberiam aqui enumerar e explicar.

O fato é que essa “não-escolha” ocorre e é ferida que nossa bem pensante sociedade não quer aceitar, escamoteando-se atrás de nobres preceitos morais e religiosos, usando o advento do anticoncepcional como solução para o problema.

Método anticoncepcional? Oras... Num país miserável como o nosso, contracepção faço eu, fazem minhas amigas instruídas, e assim mesmo ainda engravidamos e/ou corremos o risco de engravidar, haja vista que nenhum método sozinho é 100% eficaz.

Por isso me pergunto quem afinal comete o crime, se é a mulher ou a sociedade que condena seu gesto desesperado? Não quero problematizar questões que geram conversas intermináveis sobre em que momento se dá a vida, se um embrião ou um feto tem alma ou se são apenas a junção de dois gametas. Sem dúvida é uma conversa bonita... E sem dúvida me tocaria se eu não visse a realidade pela frente...

Mas a realidade nos mostra que são realizados mais de 25 mil abortos por ano no Brasil, o que equivale a 15% da quantidade de abortos realizados no mundo, nos dando o record invejável de segundo lugar no ranking, perdendo apenas para a China.

Evidente que esses números não retratam a realidade total do Brasil, afinal, é impossível ter dados precisos sobre uma atividade ilegal, certo?! Eles são baseados no número de mulheres que dão entrada num Hospital Geral vitimadas por complicações decorrentes de um abortamento induzido. E os outros? E aqueles que deram certo? Definitivamente não fazem parte dessa estatística!!!


O argumento dos que dizem SIM AO ABORTO são lógicos, de uma lógica tão lógica que ficamos chocados frente á ela, ..., os argumentos dos que dizem NÃO AO ABORTO são igualmente lógicos, afinal, é justo que as pessoas sejam responsáveis por seus atos sexuais e pela criança que tem direito a vida, já que não pediu pra nascer.

O bom seria ir além dessas lógicas, fazendo com que a sociedade visse o direito á vida no seu real sentido, haja vista que a vida não é só nascer. Viver é alimentar-se; é crescer com recursos sociais, físicos e emocionais satisfatórios; é receber afeto e educação de um pai e uma mãe participativa e é, principalmente, se sentir amado e desejado desde o início.

Antes que me perguntem, ..., Sim! Sim!, ..., eu tenho meus princípios. Mas como o próprio pronome diz, são meus!!! Eles não me fazem juíza da moral, da religião e muito menos das escolhas de alguém, além das minhas próprias.



Escrito por Mariana Tonin às 07h41
[ ]


Porto Seguro ou Além-mar?
por Mariana Tonin


Escuro total e eu deitada sem o menor sono...

Respiro fundo com o rosto enfiado no travesseiro, dizendo pra mim mesma: “Claro! Claro que não tenho dúvidas! Claro!”

Claro que nada é claro!

Lembro dos ombros largos de proteção que ele tem, de sua mão grande me segurando ao atravessar a rua e das nossas intermináveis conversas inteligentes e divertidas.

Lembro que quando ele acorda e nos olhamos, é sempre uma promessa de que a história não vai acabar ali e que para sempre vamos nos gostar mesmo com o desgaste da idade e do dia-a-dia.

Respiro aliviada! Mesmo distante de qualquer religião, mas próxima de Deus, sinto que Ele abençoa tudo aquilo!

O telefone toca e interrompe meus pensamentos...

É alguém que não faz promessas e que até em pensamentos pode ser um problema!

Deixo escapar uma lágrima ao dizer mais um "não", por sentir uma covardia lúcida, exatamente como me senti numa jangada no mar de Fortaleza: eu e um pedaço velho de madeira seguíamos fracos e inseguros para o além-mar e meu coração disparava de tesão, medo, excitação e pânico. Internamente, a experiência era encantadora e assustadora, exatamente como deve ser algo “único” na nossa vida. Mas acalmada a euforia, lembrei que eu não sabia nadar muito bem e implorei para voltarmos á praia. Definitivamente, o mar não era um lugar seguro pra mim!

Mesmo feliz e firme no meu porto seguro, não deixo de admirar aquela vida azul e tranqüila da praia...

Sei que depois do horizonte pode ter ainda mais encantos, e até sinto uma certa tristeza por nunca descobrí-los.

Mas daí eu vou matando a saudade com o barulho de uma conchinha, bem escondida no fundo da minha gaveta pra ninguém descobrir que ainda sonho em ser sereia...

Será esse o equilíbrio para minha alma?

Não sou inteira sem um pouco de sonho, horizonte e água do mar, ..., não sou inteira sem um porto seguro pra onde voltar.



Escrito por Mariana Tonin às 11h39
[ ]


Love Machine, por Mariana Tonin

Definitivamente não sou puritana! Às vezes escorrego no machismo, no feminismo ou no romantismo, mas puritanismo nunca, jamais!

Mas a verdade é que após a primeira hora no III Erotic Fair (uma feira de produtos eróticos que visitei com um amigo em Brasília), eu já estava enojada o suficiente e querendo ir embora.

Sou uma fã incondicional do sugestivo, do indutivo e do implícito, ...., e por isso toda aquela "escancaração" me incomodou.

Nem é uma crítica à feira, que aliás cumpriu bem o seu papel, é apenas uma particularidade minha: o explícito não me causa fortes emoções.

O explícito está lá, exposto, fácil, pobre, ao alcance. O grande lance, para mim, é a conquista...

Por exemplo, um e-mail com tímidas segundas intenções me excita muito mais do que um fortinho de cueca lambuzado de óleo se esfregando em mim.

Aliás, não entendo como uma mulher pode ficar "louca" com um tipo desses, afinal, na grande maioria das vezes esses "performers do sexo" são garotos de programa que transam todo tipo de coisa! Sem contar que eles cheiram "futum" (não me pergunte o que é isso, mas o nome é perfeito) e parecem o porteiro do meu trabalho depois de tomar bomba.

Pronto! Fui preconceituosa, seletista e nojenta, ..., mas é a vida, ..., e eu tenho meus defeitos. Mas também tenho direito, apesar de respeitá-lo muito, de não sentir tesão pelo porteiro do meu trabalho, certo?!

Quanto às strippers, ..., bem, ..., não é muito o meu departamento! Mas o amigo que me acompanhava estava gostando tanto que nem piscava.

O "playground" da feira, segundo o folder que recebemos na entrada, eram cabines onde se curtia coisas "alucinantes" lá dentro, mediante pagamento de até 5 reais. Elas tinham nomes do tipo "Fantasia", "Contatos" e "Descubra-se", mas ao perguntar o que rolava lá dentro, a resposta era sempre a mesma:
"Vão passar a mão em você”

Claro que não paguei pra ver nenhuma das cabines!!!

Porque? Primeiro porque eu já tinha me descoberto travada o suficiente para aquela baixaria (meu Deus, estou falando como minha avó), e segundo, porque os mesmos porteiros bombados e fedendo a futum estavam lá, e eu definitivamente não queria nada com eles.

Tirando as cabines e os shows (ou seja, a galera pelada), o que sobrou foi os stands que vendiam de tudo. Repito: de tudo mesmo!!!

Das coisas que mais me chamaram mais atenção, cito: 1) "pussy and ass", um brinquedo perfeito para o homem que acredita naquela expressão "mulher é um monte de carne com uma vagina e um ânus (substitua ambos pelo nome vulgar) no meio”;   2) bolinhas para praticar sexo anal, ou seja, uma seqüência para penetração que começava com uma pequenininha e crescia para uma maior;   3) abelhinha, que é feita para a mulher vestir como se fosse uma calcinha, sendo que a antena fica no clitóris e as patas na vagina;   4) pintinhos, pintos, pintões e um tão gigante que eu juro que me deu vontade de ficar esperando plantada para ver quem ousaria comprá-lo;   5) géis de todos os tipos também podiam ser encontrados e a vendedora complementava, com a naturalidade de quem comenta sobre a novela das oito: "esse para sexo anal é o predileto das mulheres da Buttman, que gravaram cenas de sexo explícito ontem, aqui mesmo".

Ah.... Vale dizer que elas (as Buttman girls) são bem bonitas e simpáticas, e até me parecem felizes. E se são felizes, quem sou eu para desejar uma vida melhor para elas, né?!

E já que abri uma exceção para elogiar, vale elogiar também a apologia ao uso de camisinha, que já começava na entrada: o monumento-símbolo da feira era um pinto gigante, usando camisinha.

Entre um stand e outro, enquanto eu me recuperava de tudo o que estava vendo, fui abordada por uma garota com papel e caneta na mão:
"Quer se inscrever para a palestra, acabou de começar. É sobre Sexo Anal".

Putz... O tabu voltava a me perseguir!

Dei uma espiada na sala onde rolava a palestra e vi vários casais, alguns acompanhados de adolescentes inclusive (seriam os filhos?), e me dei conta que até o sexo anal já virou assunto para se discutir em família...

Que belo mundo moderno! Que medo!

Por fim, fui apresentada à Love Machine, que por ter sido responsável por um momento tão descontraído (eu e meu amigo tivemos um ataque de riso que não acabava mais), mereceu virar título desta crônica.

A Love Machine pareceu-me um aspirador de pó que presta serviços domésticos sexuais: vem com uma prótese de pinto (você pode escolher entre vários tamanhos) e tem regulador de profundidade e velocidade.

No stand da Love Machine tinha uma TV com demonstrações reais (e explícitas) do uso da máquina e um cartaz com frases animadoras do tipo: "Você não precisa lavar nem cozinhar para a Love Machine"  e  "A Love Machine não cheira à álcool e nem funga no seu pescoço”  e ainda  "
A Love Machine só brocha se houver um apagão".

Que bom que substituíram o aspirador de pó, um presente clichê para submissas donas de casa, por uma coisa mais moderna e mais preocupada com o prazer delas...

Mas eu juro que depois de lá só quis uma cama limpinha, com travesseiros de penas de ganso, Pink Floyd tocando ao fundo e juras de amor (verdadeiras) feitas por um homem de verdade, ..., aquela minha máxima já tão conhecida:
olhos nos olhos, beijo na boca, “eu te amo”  e muitaaaaa sacanagem!

Retrô? Eu? Não... Só sou sincera e realista!!!!


Escrito por Mariana Tonin às 19h09
[ ]



Odiamos a sua ex, por Mariana Tonin

Eu estava inconformada com a beleza da desgraçada!!!

Minhas amigas tentavam me convencer que o importante mesmo é a inteligência, e que o meu cérebro era muito mais lindo que o da ruiva.

Aliás, aqui entre nós, minha massa cinzenta merecia ser capa de revista internacional, saindo de pernas abertas numa foto, né?!

Poxa... Por que ele tem que ter aquela ex- namorada ruiva, com as pernas lindas, os seios grandes, o desenho da boca perfeito e olhos verdes acinzentados?

Rose sorri superior, não por nunca ter sentido isso, mas por não estar sentindo naquele momento, e diz:

- Relaxa! Ele não está com você? Não diz que te ama? Não está bom? Então deixa a gostosona para lá! Vai ver ela tinha bafo, chulé ou não devia saber a tabuada do sete… Ou às vezes era tão bonita que achava que não precisava ser boa de cama…

Gabriela suspira e parece não concordar nem com meu desespero e nem com a solução otimista de Rose:

- Ah... Cansei desse papo! É sempre a mesma desculpa, de que as lindíssimas são burras e limitadas! Olha, eu tenho uma teoria boa a respeito de tudo isso…

Eu e Rose aproximamos a cadeira para ouvir mais de perto a grande revelação, e o barzinho todo parece fazer silêncio para Gabriela falar:

- Vai ter sempre uma mulher mais bonita, mais gostosa, mais inteligente e mais rica do que você! E pronto! Fazer o quê?

Eu e Rose, incrédulas com essa máxima, voltamos à posição original e nos entreolhamos decepcionadas.

Gabriela sente que pode ser vaiada a qualquer momento, e continua:

- É verdade, gente... Deixa a ex dele ser bonita! Você também é bonita e têm várias outras qualidades... Mas o mais importante é que você tem uma coisa que ela não tem: ele! Você tem ele!

Ah não! Assim já era demais! Nem minhas amigas me entendiam...

Não era o caso de ter ou não ele (ele tava fora do jogo), ..., era uma dor egoísta e solitária e nada tinha a ver com a possessão do amor ou com ciúmes.

Tudo isso tinha muito mais a ver com as lembranças do colégio, aquela época desgraçada da vida de qualquer mulher que demora muito para ter “corpão” enquanto as amiguinhas do recreio já desenvolveram cara (e até ações) de sexo...

Era a competição pura e simples!!!

Rose tenta ajudar contanto uma história própria, afinal, nada melhor do que a desgraça alheia para a gente se sentir menos humilhada pela vida:

- Olha, quer saber o que é muuuito pior do que uma ruiva gostosa? Uma mulher pós- graduada em Londres, formada em cinema, premiada em Cannes, escritora e além de tudo com o péssimo hábito de ser humilde e simpática!!! Pois é... A ex do meu ex era exatamente assim! A bunda cai minha filha, e a mulher gostosa um dia acaba, envelhece. O que fica é uma mulher interessante para compartilhar o resto da vida. A ex do meu ex era uma puta mulher interessante.

Todas ficamos em silêncio!!!

Na verdade, olhávamos para dentro de nós mesmas, nos perguntando o quanto éramos bonitas, interessantes e o quanto poderíamos incomodar as outras mulheres, afinal, incomodar as outras mulheres era o que importava.

E os homens?

Bem, ..., os homens eram meros coadjuvantes nessa competição.



Escrito por Mariana Tonin às 09h58
[ ]



Tudo é só isso: amor e dor, por Mariana Tonin

Eu estava indo ao município de Itacoatiara atender um paciente em domicílio e era guiada por Chico, o motorista do Hospital onde trabalho.

De acordo com minha concepção de tempo e espaço (grandezas alteradas para aqueles que sofrem por amor), o Chico é um sujeito calmo, de gestos contidos, que parecia estar mais concentrado na viagem, como se eu não existisse.

Eu, de fato, não estava ali naquele momento... Apenas um farrapo de mim viajava largada no banco de trás, onde consegui me esticar até quase deitar.

Tínhamos mais de duas horas de estrada em péssimas condições pela frente e vivíamos num mundo onde somos obrigados a levantar e ir trabalhar minutos depois de levar um fora. Uma lei federal deveria proteger aqueles que se encontram na lama da fossa afetiva, né?!

Chico me perguntou se podíamos fazer uma parada e notou, nas entrelinhas da minha resposta silenciosa, que eu gostaria mesmo era que o mundo parasse. Paramos!

Ele fumou um cigarro e resolveu investigar para saber o que eu tinha, já que meus olhos estavam vermelhos.

Pensei em dizer que estava com conjuntivite, mas isso não ia convencê-lo, afinal, ninguém chora por uma conjuntivite no meio da rodovia AM 010, né?! Então encarei a dura realidade: disse que estava saindo de um relacionamento!!!

Me questionei se deveria contar tudo a ele (o homem da minha vida com outra mulher, fotos, e-mail, abraços, beijos, sexo e tempo pra colocar a cabeça em ordem). Como ele, um cara tão sério e simples, reagiria?

Tendo em vista que desabafar com um estranho parecia mais uma benção do que uma desgraça, decidi contar.

Chico ouviu tudo sem falar nada, sem sequer balançar a cabeça, e no final me disse apenas:
“Mesmo com tudo isso, acho que ele te ama. Sou homem, sei como é isso!”.

Eu esbocei um sorriso desconexo enquanto ele emendou:
“Então, tem solução! Não fica assim! Tenho certeza que o pior erro dele foi ser omisso, mas ele não fez por mal, só porque está confuso! Logo ele vai notar o quanto sente falta desse sentimento entre vocês. Vai por mim...”.

E eu, que raramente desmorono em público, coloquei a cabeça no ombro de meu condutor e caí em pranto profundo...

Ele, com a nobreza que só os simples e honestos têm, apenas me deixou ficar ali para, depois de alguns minutos, repetir:
“O amor é mesmo complicado. Essa dor vai passar”.

Dali em diante fomos conversando sobre a vida e sobre amores, o eloqüente Chico e eu, interior a dentro...

Notei que a história de cada um não muda muito desse drama que envolve amores e dores (porque não existe um sem o outro) e os grandes conflitos humanos são esses, não importa cor, credo, casta.

No fim, como diz a filósofa panteísta Paola, “tudo é só isso”. É só isso para mim, para você, para Paola, para Chico...

A piada cósmica é que, por mais que tentemos calcular, não podemos saber quando a última vez acontecerá, ..., quando daremos o último beijo, o último abraço, o último filme visto na cama, a última ida à Fortaleza em lua-de-mel, o último jantar no Tortelini, o último domingo passado em família, a última vez que penetramos na alma da pessoa amada...

O fim pode perfeitamente topar com você numa noite quente de segunda-feira, logo depois de intensos momentos de felicidade e prazer!

Ali, diante do inimaginável, você se vê flertando com a morte: hora de virar um farrapo, tentar se levantar, juntar os cacos e recomeçar, ..., e saber que, durante esse dolorido processo, é sempre possível contar com a bem-vinda gentileza de estranhos, como o Chico!



Escrito por Mariana Tonin às 11h48
[ ]


Depilação... (autor desconhecido - adaptada por Mariana Tonin)


"Tenta sim. Vai ficar lindo."

Foi assim que decidi, por livre e espontânea pressão de amigas, me render à depilação na virilha, mesmo não fazendo o tipo “peluda”...

Falaram que eu ia me sentir dez quilos mais leve, apesar de eu achar que pentelho não pesa tanto assim, ..., disseram até que meu ex-namorado, se visse, ia amar e voltar pra mim!

Eu imaginava que ia doer, e elas até me avisaram que isso aconteceria, mas não esperava que por trás disso, e bota por trás nisso, havia toda uma indústria pornô-ginecológica-estética.

- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.

- Vai depilar o quê?

- Virilha.

- Normal ou cavada?

Parei aí!!! Eu lá sabia o que seria uma virilha cavada.... Mas já que era pra fazer, quis fazer direito.

- Cavada mesmo.

- Sexta, às... deixa eu ver...13h?

- Ok. Marcado.

Chegou o dia em que perderia dez quilos!!!

Almocei coisas leves, porque não sabia ao certo o que me esperava, escolhi uma calcinha apresentável, e lá fui.

Penélope estava esperando! Moça alta, mulata, bonitona.

Oba!!!! Vou ficar que nem ela... Legal!!!

Pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado. Saimos da sala de espera e entramos num longo corredor: de um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas, de onde se ouvia gemidos, gritos, conversas, numa mistura de Calígula com O Albergue.

Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.

- Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca, mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha, onde estavam os aparelhos de tortura.

Vi coisas estranhas: uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. Meu Deus... Era O Albergue mesmo!!!

De repente ela vem com um barbante na mão. Fingi que era natural e sabia o que ela faria com aquilo, mas fiquei surpresa quando ela passou a cordinha pelas laterais da calcinha e a amarrou bem forte.

- Quer bem cavada?

- Sim....é, isso.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Berenice (nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes).

- Os pêlos não estão altos, só desalinhados demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.

- Ah, sim, claro.

Claro nada! Não entendia nada do que ela fazia, mas confiei.

De repente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente (via pela fumaça).

- Pode abrir as pernas.

- Assim?

- Não, querida. Que nem borboleta, sabe?! Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.

- Arreganhada, né?!

Ela riu... Que situação!!!

E então, Pê passou a primeira camada de cera quente em minha virilha virgem... Foi gostoso, quentinho, agradável, até a hora de puxar.

A puxada foi rápida e fatal! Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído e que apenas minha ossada havia sobrado na maca.

Não tive coragem de olhar.... Achei que havia sangue jorrando até o teto! Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para a ambulância da UNIMED.

Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa, já que eu havia esquecido de respirar.

- Tudo ótimo. E você?

Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha"...

E o processo medieval continuou... A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope, e lembrava da grande sacanagem de minhas amigas recomendando a depilação...

- Quer que tire dos lábios?

- Não, eu quero só virilha. Não tenho bigode!

- Não, querida! Os lábios dela aqui ó...

Não! Não! Pára tudo! Depilar os tais grandes lábios? Putz... Que idéia!!!

Topei!!! Afinal, quem está na maca tem que se f... mesmo.

- Ah, arranca aí. Faz isso valer a pena, por favor.

Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o cafofinho de Penélope e dá uma conferida na Berenice.

- Olha, tá ficando linda essa depilação.

- Será? Menina, to achando que pode ficar meio encravado aqui. Olha de perto.

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas, porque o rosto delas estava bem perto dali. Por isso, cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo: "Me leva daqui, Deus, me tele transporta".

Só voltei a terra quando entre uns blá-blá-blás ouvi a palavra pinça.

- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram uns pelinhos finos, tá?!

- Pode pinçar! Tá tudo dormente mesmo... Não tô sentindo nada...

Nossa! Eu estava enganada! Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida.... E quis matá-la, mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?

- Como assim???

- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.

Pior não podia ficar!!!

Obedeci à Penélope, deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.

- Segura sua bunda aqui?

- Como assim???

- Essa banda aqui de cima... Puxa ela pra afastar da outra banda.

Tive vontade de chorar... Creio que ninguém haviam visto, à luz do dia, aquela cena!!! Nem meu ginecologista...

Fui novamente trazida para a realidade ao sentir o aconchego falso da cera quente besuntando meu “aquele que não se pode dizer o nome”, e eu não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação.

E aí me veio o pensamento: "Oxe! Mas tem cabelo lá?"

Fui impedida de desfiar o questionamento... Pê puxou a cera!!!

Achei que a bunda tivesse ido toda embora, nenhuma preguinha pra contar a história...

- Vira agora do outro lado.

Virei e segurei novamente a bandinha, mais ou menos no momento que a intrometida da salinha do lado abre a cortina e pede um chumaço de algodão.

Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos...

Era dor demais, ..., era vergonha demais, ..., aquilo não fazia sentido. Eu estava me depilando pra quem?

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.

- Máquina de quê?!

- Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol.

- Dói?

- Dói nada.

- Tá! Passa logo isso!

- Baixa a calcinha, por favor.

Foram dois segundos de choque extremo!! “Baixe a calcinha”?, ..., Como assim? Como alguém fala isso sem antes investir numas preliminares?!?!

Mas o choque foi substituído por uma total redenção, afinal, ela já havia visto tudo (da Berenice à “aquele que não se pode nomear”). O que seria baixar a calcinha?

- Prontinha. Posso passar um talco?

- Pode! Vai lá... Deixa ela grisalha.

- Tá linda! Pode namorar muito agora.

Namorar? Eu estava com sede de vingança!

Queria matar minhas amigas! Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso de ficara lisinha e sedosa pra poder namorar! Queria fazer passeatas e criar uma lei antidepilação! Queria comprar o domínio www.preserveasberenicespeludas.com.br

Namorar??? Nem namorado eu tenho mais...



Escrito por Mariana Tonin às 09h29
[ ]


 

Um Dia dos Namorados para quem a saudade não é ex e o amor não é ex...

por Mariana Tonin

 

Ao contrário de seus outros relacionamentos, não há sobras da minha existência pela casa....

Minha camisola não está sufocada num canto qualquer e nem meus chinelos foram abduzidos no meio da tua "sapataiada"...

E não há fotos de nós dois, nenhuma sequer, paralisando momentos felizes e traduzindo uma vida que “quase foi”...

Não há mais nada, afinal, aquilo que “quase foi” não pode atrapalhar o que ainda “pode ser”, né?!

Agora, penso em quem vai suspirar protegida ouvindo Pink Floyd na sua cama... Penso em quem vai comer seu delicioso Penne com Camarão... Penso em quem vai rir apaixonada de algum provável barulho seu, para na manhã seguinte ouvir você jurar que não ronca...

Como hoje é DIA DOS NAMORADOS, me dou conta que saudade não é ex! Me dou conta que amor não é ex! Mas a vida da qual você abriu mão (por um ideal de vida ou por um erro) já faz parte do passado...

E de escolhas e de perdas foi feita a nossa história! E não há mais nada que eu possa fazer a não ser carregar por um tempo um peso sufocante de minha impotência: foi você quem escolheu assim!

Preciso acordar! Agora estou sozinha! Agora você não se perde mais nos meus braços e acha que minha presença trás alegria para sua vida! Agora não dá mais para fantasiar com "família, filhos e tal"!

Mas nossa história ainda está viva em mim, mesmo depois de tantas noites em claro, nomes trocados e objetos esquecidos...

Nossa história ainda está viva em mim, mesmo quando você se confunde tanto e quer se afastar de tudo para entender melhor estando de fora...

Nossa história ainda está viva em mim, mas me humilha tanto que eu quero me ajoelhar numa igreja diante de Deus e pedir ajuda ou perdão, me emocionar, não querer pensar mais nisso e acabar sendo aceita em algum lugar...

E a nossa história ainda me dá um tapa na cara para eu acordar, mas eu continuo sem ter você para cuidar do machucado e dizer que vai ficar tudo bem...

Você me disse que eu era o que de melhor tinha na vida, mas para valorizar-me você precisava viver mais e, que irônico, para viver mais você precisava me perder.

Se nossa vida fosse uma comédia-romântica-norte-americana, a gente se encontraria dentro de algum tempo e, depois de um quente flashback e 800 mil desculpas e promessas, nos acertaríamos e viveríamos felizes para sempre.

Eu diria que você era aquilo que eu sempre quis, desde sempre, mesmo quando me sentia tão cansada de lutar sozinha por nós dois, ..., mesmo depois de você nunca ter me pedido para ficar, ..., mesmo depois de eu ter conhecido homens que não brigavam quando eu acendia a luz do quarto, que não amavam suas casas acima de tudo, que não usavam cuecas velhas, que não tinham a mania de interromper aquilo que eu estivesse falando, que liam interessados as coisas que eu escrevia, que sabiam o tema do meu mestrado ou doutorado, que não menosprezavam minha profissão, que não insistiam em classificar minha cadelinha como ser de outro planeta, que me davam realmente atenção, que não ligavam se eu esquecesse minhas coisas em suas casas ou confundisse nomes de capitais, movimentos artísticos, datas de revoluções e nomes de queijo...

E você? Você me diria que eu era quem você sempre amou e quis, mesmo depois de ter “galinhado” muito e cansado da vida “de solteiro”, ..., mesmo depois de ter conhecido mulheres sofisticadas que conheciam o Oriente Médio, que não enchiam a casa ou o banco do carro com cabelos loiros, que não deixavam a toalha úmida jogada na cama, que não demoravam tanto para sentir prazer, que não tinham uma bolsa gigantesca e cor de cobre, que não eram dentuças e tampouco tinham a boca grande, que não cantavam tão mal, que não reclamavam do frio do ar-condicionado e nem tinham medo de perder os pais ou comer uma comida com pimenta...

Mas a realidade é que você é puro testosterona e nunca gostou desses filmes fracos, açucarados e com final feliz... Você adora os filmes com ação, no máximo aqueles filmes europeus cult, onde na maioria das vezes as pessoas sofrem e perdem, assim como aconteceu com a gente.

Porque? Porque?



Escrito por Mariana Tonin às 07h19
[ ]


 

Um minuto de silêncio, por Mariana Tonin

A brasileira Gilberta foi brutalmente assassinada na cidade do Porto, em Portugal. Seu corpo foi encontrado num poço com dez metros de profundidade. Apesar do fato ter acontecido há vários meses, os culpados (já identificados) continuam livres.

Finalmente, depois de muita pressão, o Parlamento Europeu aprovou resolução em que recomenda às autoridades portuguesas uma rigorosa apuração do caso e punição dos condenados. “Tortura e homicídio terríveis” é como os eurodeputados classificam o crime do qual Gilberta foi vítima.

Quem a matou? Um homem? Dois homens? Não!!! Quinze adolescentes a torturaram durante horas, abusaram de seu corpo de todas as formas e, depois, a jogaram num poço. O laudo pericial apontou como causa da morte afogamento, ou seja, ela ainda estava viva quando foi atirada no poço.

Por que a morte de Gilberta não repercutiu no Brasil? Por que o silêncio? Por que tanto ódio? E quem era Gilberta?

Como tantas brasileiras, Gilberta saiu do seu país para trabalhar, economizar, voltar ao Brasil, comprar uma casa para a família e “tocar sua vida”. Uma mistura de sonho e desejo que, como se sabe, leva milhares de brasileiros para fora do país.

Mas a história de Gilberta, no entanto, se distingue das demais quando sabemos que ela era uma mulher transexual, portadora do vírus HIV, pobre e que vivia nas ruas...

Em maio de 2004 o Governo Lula lançou o Programa Brasil Sem Homofobia – conjunto de ações que visa a combater todas as formas de preconceitos contra transexuais, travestis, lésbicas e gays. Essa foi a primeira vez na história que um governo tomou para si a tarefa de combater os preconceitos por orientação sexual e de gênero.

Bela iniciativa!!! Mas o que foi feito desde então?

Voltemos à inaceitável morte de Gilberta: se o governo toma para si o combate à homofobia, à lesbofobia e à transfobia, o que a Embaixada do Brasil em Portugal está fazendo para apurar o assassinato de Gilberta? Quais são as medidas tomadas e quais os motivos de tamanho silêncio?

São corriqueiras as notícias de brasileiras transexuais assassinadas em países estrangeiros – e, como se sabe, no Brasil também – sem que o governo brasileiro exija das autoridades locais a apuração e a punição dos culpados. Isso acaba produzindo uma hierarquia das mortes: algumas merecem mais atenção do que outras.

Um dos critérios para se definir a posição que cada assassinato deve ocupar na hierarquia dos operadores do Direito é a conduta da vítima em vida.

Nessa cruel taxonomia, casos como o de Gilberta ocupam a posição mais inferior. É como se houvesse um subtexto a nos dizer: “quem mandou se comportar assim”. Essa taxonomia, em realidade, acaba (re)produzindo uma pedagogia da intolerância.

E, assim, nessa lógica absurda, a vítima se transforma em ré!!!

Para garantir que as coisas fiquem como estão, há um processo medonho de esvaziar a vítima de qualquer humanidade. Seguindo essa lógica, a possibilidade de se reivindicar direitos humanos se restringe a um grupo muito reduzido de sujeitos que têm atributos que o lançam ao topo da hierarquia: são heterossexuais, brancos, homens, membros da elite econômica/intelectual/política.

Conforme o grau de afastamento desses pontos qualificadores de humanidade, reduz-se a capacidade do sujeito entrar na esfera dos direitos e de reivindicá-los. Os direitos humanos se transformam, nesse processo, num arco-íris: lindo de se ver, impossível de se alcançar.

Quantas Gilbertas já morreram? Não sabemos! Não temos dados precisos!

Mas sabemos que as mortes por crimes de homofobia, transfobia e lesbofobia não chegam a se constituir em processos criminais... Poucos assassinos chegam aos bancos dos réus, e quase nunca há condenação por esse tipo de crime.

Lembro de uma conhecida, transexual, que foi estuprada por um vereador de sua cidade do interior. Essa violação, como tantas outras, jamais aparecerá em qualquer estatística. Por quê? “Se eu fosse na delegacia eu é que ficaria presa”, ela nos explica com clareza estonteante.

Nesse mês de junho, em vários países do mundo, as ruas serão ocupadas pelas cores da diversidade. São dias de festa e de luta. Transexuais, travestis, gays, lésbicas, bissexuais e pessoas que não os discriminam (conhecidos como simpatizantes), cantam, se beijam, festejam e lutam pelo direito pleno à vida.

Nas manifestações do mês da luta pela diversidade sexual e de gênero, seria frutífero que, entre uma canção da Madonna e da Glória Gaynor, lembrássemos nossos mártires, aqueles que provaram com a própria vida que a humanidade é mais plural do que tentam nos fazer crer.

Nas paradas do mês do Orgulho Gay façamos um minuto de silêncio. Quem sabe, assim, o Estado brasileiro nos escute e passe da ineficaz e constrangedora política das boas intenções para a ação concreta.

Gilberta: presente!





Escrito por Mariana Tonin às 12h52
[ ]


(Tristan and Isolde, de Edmund Leighton Blair, 1902)

Amores impossíveis, por Mariana Tonin

Que coisa!!!

Parece meio clichê, mas a vida é feita de altos e baixos: altos, fortes, morenos, sensuais, bons de cama, possíveis; e aquele baixinho (quase mediano), pouco romântico, meio metido a machista, que não sai da sua cabeça.

Impressionante como a gente sofre por nada....

A gente sofre pelas lembranças, ..., a gente sofre pela saudade, ..., mas, principalmente, a gente sofre é pela impossibilidade!

Desde que o mundo é mundo não há nada mais afrodisíaco do que a proibição ou a dificuldade, já notaram?!

Pois é... Aquele baixinho esquisito não pertence ao grupo dos amores possíveis e, exatamente por isso, a graça dele pode durar uma eternidade, dependendo do nosso grau de criatividade.

Ou ele não quer nada com você, ou já tem alguém, ou pertence a um caminho que passa longe do seu. Resumindo: ele pertence ao campo dos impossíveis, idealizados, sonhados e distantes.

Bingo!!!! Isso já faz dele enorme, lá no pedestal. E nada melhor do que as lacunas da improbabilidade para esquentar uma paixão...

Nessas lacunas temos espaço para criar a história como quisermos, porque ele é nosso, nosso personagem, ..., nesses espaços livres colocamos todos os nossos sonhos, toda a nossa imaginação, cenas completas com fundo musical e palavras certas, finais e desfechos inesperados.

E quando a gente menos espera, ele faz mais parte da nossa vida do que nós mesmas!!!

Mas a realidade aparece mais cedo ou mais tarde e vem, sintomaticamente, como uma angústia... É aquela história que paixão sofrida nos adoece, que paixão reprimida pode nos dar câncer!

Meu pai... Não era só um cara interessante? E agora ele pode até te matar!!!

Pronto! Se pensou assim é porque você está apaixonada, e paixão tem suas etapas.

A primeira etapa é a negação: “Eu apaixonada? Imagina... Ele é impossível, nunca vai me dar bola.”

A segunda etapa é a maximização: “Ele é mais inteligente, mais bonito e mais engraçado que qualquer outro que já conheci!”, fazendo-o ter todos os “mais” possíveis para que ele seja mais desafio para você e mais neuras pro seu ego problemático.

A terceira é última etapa é superlativização. Em vez de ser mais, ele é "o mais": “Ele é o mais inteligente, o mais gostoso, o mais sensual...”, e você está a um passo do endeusamento, do "ele é único".

Ai começa o problema....

Se ele é único, ele é a sua única chance de ser feliz. E, se ele não quer nada com você, você acaba de perder a sua única chance de ser feliz.

Bem-vinda à depressão!!!

Amor platônico é para imaturos, sabia?! Vá viver um grande amor real!!! Vá viver um grande amor recíproco!!!

Lá fora há milhares de possibilidades de felicidade, de felicidades possíveis, de realidade, ..., e você eternamente trancada na porta que o mundo fechou na sua cara, fazendo questão de questionar e atentar o inexistente.

Antes de tremer as pernas pelo inconquistável e apagar as luzes do mundo por um único brilho falso, olhe dentro de você e pergunte: estupidez, masoquismo ou falta de coragem para buscar um amor de verdade?



Escrito por Mariana Tonin às 13h20
[ ]


Procura-se um desesperado, desesperadamente...  

por Mariana Tonin

 

O sorriso congelado e quente, nenhuma cor diferente na face, nenhum tique revelando descontrole, nenhum estalo nas mãos, os olhos com o mesmo brilho tranqüilo e inabalável de sempre....

Era a morte saber que ele não morria de amores por mim! Eu queria lágrimas, gritos, suores, feridas e murros no ar libertando um corpo retesado em disfarces, ..., eu queria ver algo surgir de dentro do seu peito de pedra, mostrando que eu valia a pena, que valia a pena correr o risco de viver e lutar por esse amor.

Quem em sã consciência neste mundo louco e incerto pode ser verdadeiramente calmo e feliz sempre? Como uma pessoa pode manter a cara de capa de revista sabendo que não se controla absolutamente nada nessa vida?

Tudo isso martelava na minha cabeça e me fazia perceber que ele nada sentia por mim!

A minha certeza de amá-lo me enlouquecia, corroia, dava medo, ciúme, uma saudade idiota de mulherzinha romântica, uma vontade boba de estar junto o tempo todo como uma mulherzinha romântica e sem vida própria.

Eu estava vendida, achava cada dia mais que amar era uma escravidão e me enxergava pequena naquela mão linda e forte que ele possuía. Mas essa mesma mão, de punhos cerrados que não demonstravam sentimentos, esmagava minha auto-estima.

Eu amo”, “eu entendo”, “eu desculpo”: falas mal ensaiadas de meu roteiro pobre! Eu preferia dizer “eu enlouqueço”, “eu estremeço”, “eu odeio”...

A negação do amor era o verdadeiro amor, o amor que não cabe em si, que extrapola, que não se aceita, que não se agüenta, que foge o tempo todo em círculos.

A cada frase pronta e controlada de um amor ponderado, eu me despedaçava em angústia por querer mais. Aquele quase-amor que ele me dava era tão pouco que me ofendia!!!

Mas ele apenas sorria com meus argumentos, duro para as fraquezas e mole para as tensões, ..., ele apenas sorria para as despedidas, para as impossibilidades, para as dúvidas e para os finais de domingo banais e sem emoção, ..., ele apenas sorria para a nossa vida juntos, dando a entender que o nosso “fim” não seria uma grande perda.

E eu terminei tudo por não agüentar aquele cuspe invisível em meu ego, e sai por ai, triste e solteira, com minhas amigas.

Fomos a um barzinho fashion que elas conheciam e, em homenagem ao lugar, Gabriela estava até usando um casaquinho lindo pra tentar esconder uma blusa decotada embaixo; Rose estava mais magra de tanto malhar e gastar o dinheiro do ex-marido; o quadro com a natureza morta surrealista era over demais, mas num contexto geral fazia o lugar ficar mais bacana; mas eu só conseguia enxergar o superficial do mundo, porque minha alma estava ausente.

Percebi que o garçom não era um desses aspirantes a humorista cearense ou um estudante de teatro; era um garçom tradicional, graças a Deus.... Percebi também que o banheiro era limpinho (isso deu a primeira pontinha de esperança em minha alma preenchida de decepções), apesar de alguém ter escrito "o ser humano é mesmo uma merda", bem ao lado do vaso sanitário.

Essas pequenas coisas estavam quase me fazendo sentir viva, tocando minha alma, mas eu ensaiava novamente o sorriso plástico e ouvia, sem escutar, a conversa de Gabriela e Rose sobre a nova neurose por alimentos sem agrotóxico.

Eu queria chorar, mas meu sorriso bobo enganava a todos...

Sim!!! Eu podia agir como ele, podia disfarçar, podia fazer de conta que a dor não era comigo, e ainda assim estar profundamente sentindo a vida e tudo o que ela tem de insana. Sim!!! Ele podia ser enorme e caótico mesmo usando sua máscara fria.

Vai ver ele me amava tanto, que disfarçar os desarranjos do amor fosse uma prova ainda maior de amor do que sair berrando inconstâncias.

E eu resolvi simplificar a vida, como o ditado do banheiro, e mandei uma mensagem pro celular dele dizendo "o amor é mesmo uma merda”...

E em pouco mais de meia hora, para minar ainda mais minha auto-estima, eu já estava disposta a perdoar novamente sua frieza e sua falta de iniciativa em me provar seu quase-amor.

Como eu fico linda quando estou sorrindo, né?!



Escrito por Mariana Tonin às 17h08
[ ]


("BIPOLAR", de Jorge Cárdenas Aceves)

 

Eu não preciso e nem devo ser perfeita em tudo!!!
por MARIANA TONIN



Depois de muito quebrar a cara e de ser cobrada em demasia por mim e por uma sociedade machista e limítrofe, resolvi relaxar e entoar diariamente um mantra em minha vida: Eu não preciso e nem devo ser perfeita em tudo!!!

É isso mesmo! Eu não estou brincando! Repito: Eu não preciso e nem devo ser perfeita em tudo!!!

Claro que eu adoraria ter uns 8 anos a menos pra poder competir com as gatinhas recém-saídas da escola que habitam as fantasias masculinas, ..., adoraria ter um corpo fenomenal e exibi-lo sem vergonha nas minhas próximas férias na praia, ..., adoraria me sentir bonita, desejada ou pelo menos faceira aos olhos dele, ..., adoraria ser amada por ele, não apenas vista como a “uma opção pré-solteirice crônica”, mas...

Paralelo a isso, sou uma mulher moderna e inserida no mundo atual... Eu sei que a igualdade dos sexos é necessária, que o feminismo é importante, que a valorização da mulher perante a sociedade é uma das maiores conquistas ocidentais do último século, que as mulheres devem mesmo ter autonomia financeira e grandes objetivos profissionais.

Bingo! Perceberam como meus pensamentos já ficaram confusos?!?! Quero ser amada e quero ir a luta, e me perco ao tentar achar a medida certa entre a feminilidade (inata) e a fortaleza (imposta)...

Já notaram que nunca antes as mulheres tiveram tantas doenças motivadas pelo alto estresse?! Hoje, o coração feminino não sofre mais somente pelas desventuras do amor, mas também pela bolsa (não a da Victor Hugo, mas a de valores)... Ela nos faz enfartar rapidinho quando ameaça quebrar em algum lugar da Ásia!

Pois é... Isso é um reflexo de falta de equilíbrio!

Como eu não quero adoecer ainda mais, decidi que chega dessa coisa de mergulhar de cabeça em auto-cobranças loucas e absurdas por uma perfeição inexistente, algo inatingível e até certo ponto imbecil! Cansei!!!

Não sou e nunca vou ser perfeita! O padrão que me impuseram é muito alto! Assim, antes de eu pensar me afogar em cobranças que mimam minha já baixa auto-estima, ou quiça antes de eu cometer um suicídio (real ou imaginário), resolvi mudar.

Anotei meu novo mantra nas agendas, grudei nos espelhos de casa, coloquei no painel do carro, deixei dentro do estojo de maquiagem e dentro da gaveta de calcinhas, aderindo ao melhor (pior?) estilo auto-ajuda possível...

Eu não quero mais ser cobrada pra ser mãe, e pior ainda, ser a melhor mãe do mundo, ..., não quero provar ser a profissional do ano, ..., não quero mais deixar a casa brilhando todos os dias, ..., não quero mais acumular mil tarefas loucas, ..., não quero mais sustentar a casa sozinha, ..., não quero me questionar se seria uma boa esposa, caso consiga me casar algum dia, ..., também não quero me questionar se, caso nunca venha a me casar, serei a melhor amante ou namorada face da Terra, ..., não quero mais enlouquecer por causa da beleza eterna, dando-me o direito a engordar, de ter celulite, estrias e barriguinha (ou barrigona, como eles têm e nós, mulheres, nem reclamamos).

Pena que quase ninguém joga nesse time, o das mulheres por elas mesmas...

Agora é hora de pisar no freio, tirar a fantasia de Mulher-Maravilha e largar essa história de ser a heroína do dia.

Sonho em ver a gente se libertando da escravidão imposta pela sociedade consumista e dos ridículos padrões de beleza, jogando no lixo essa obsessão pela magreza, livrando-nos da culpa por não lambermos nossas crias 24 horas por dia, parando de competir ferozmente no mercado de trabalho, dando uma pé na bunda desses homens folgados que não nos ajudam nas tarefas da casa e dos filhos, mas nos exigem disposição para um kama-sutra de 12 horas seguidas.

Mulheres, vamos nos salvar enquanto ainda há tempo!!!

Que nesse processo não banquemos as heroínas, mas que sejamos nós mesmas! Até porque Mulher-Maravilha já era, né? O negócio agora é ser como a Docinho, uma Menina Super-Poderosa!





Escrito por Mariana Tonin às 09h15
[ ]


Uso da Vírgula, por SILVIA PAZ.


"Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de quatro à sua procura"

Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois da palavra "mulher"...

Se você for homem, certamente colocou a vírgula depois da palavra "tem"...



Escrito por Mariana Tonin às 06h26
[ ]


Ausência, por MARIANA TONIN

 

Acordo diferente!  Meu banho é quente e demorado.

 

Tomo café com ela (a solidão!) e, assim como eu, ela não está num daqueles dias de comer muito.  Acho que é porque precisa manter a forma para me acompanhar, assim como a Danka, minha cadela de estimação bicentenária.

 

Visto uma roupa confortável e despretensiosa, coloco aquele colar cheio de patuás que trouxe da Bahia (que você tanto odeia), calço um sapato baixo que não me deixa nada feminina e nem passo batom.   Adoro não precisar parecer uma moça com dono!

 

No carro escuto Nação Zumbi bem alto! Tão pouca gente sabe sobre eles, né?! Como pode? É um movimento tão charmoso ou, no mínimo, uma música boa pra dançar.

 

Sim! Sim! Começo a perceber que posso estar bem acompanhada dentro do meu universo.  Eu e a Danka, ..., eu e Nação Zumbi, ..., eu e a organização da minha casa, ..., eu e minhas contas pagas em dia, ..., eu e a paz no meu carro, sem ninguém para me dizer que eu ando muito mais lento do que deveria.

 

Acho que hoje vou alugar um daqueles filmes europeus P&B e assistir esparramada na cama, usando um pijama velhinho e com o ar-condicionado bem frio (dane-se sua renite, sinusite, chatice).  Posso até fazer pipoca ou comer brigadeiro na panela...

 

Encontro com uma amiga para um brunch e conversamos divertidamente sobre essa nossa mania de não se achar feliz, mas impor ao mundo nossa cartilha de felicidade.

 

Volto pra casa e noto como o mundo fica enorme sem você!!!  Apesar do mundo estar cheio de opções, todas elas me parecem azedas e murchas demais.

 

Hoje, a única opção que me interessa é aquela que eu nutri anos a fio: família grande, café da manhã barulhento, Natal cheio de presentes, cachorro correndo com crianças pela cozinha, contas de escola/farmácia/supermercado chegando, e beijo de boa noite.

 

Me sinto só quando te vejo como minha família e percebo que tudo que tenho para o café da manhã são duas opções de suco “natural” em caixa e uma sobra de pão de supermercado.

 

Eu continuo só, querendo escrever uma vida com você,..., justo com você, que detesta minha história, minha calma, minha mania de compreender os outros, meus caminhos anotados e minhas regras.

 

O que me entristece é ter visto em você o fim de uma história contada sempre com a mesma intensidade individual, ..., é ter pensado que sua solidão e minha solidão pudessem sofrer juntas, enquanto a gente se divertia.

 

Hoje eu vejo você saindo pela porta e as paredes se fechando, se fechando, se fechando... e eu sem poder berrar para, pelo amor de Deus, você me levar junto nessa aventura.

 



Escrito por Mariana Tonin às 07h00
[ ]



Eu só queria andar de mãos dadas...

por MARIANA TONIN

Eu sonho em ficar com você desde o dia em que nos “re-encontramos”, sabia?

Não?!?! Você não sabia?

Que estranho... Pensei que você soubesse!!! Eu me acho tão transparente...

Só que estamos com um problema sério, eu sei: vai ser um pouco difícil a gente se acertar porque você não me “vê”.

Bem, ..., me ver até que você me vê, mas não consegue me enxergar... Não consegue enxergar quem eu sou hoje e as coisas que valorizo.

Sim, meu amor! Eu mudei! Já se passaram mais de 10 anos desde o fim de minha adolescência e seria muito estranho que eu continuasse me comportando como criança crescida, né?!

Hoje sou mulher, assumo meus atos e luto pelo que quero, ainda que pra isso eu precise ser redescoberta.

Não, meu amor! Não vou grudar no seu pé ou viver as suas custas! Não se preocupe porque não sou seu apêndice e não dependo de você nem para andar e nem para ser feliz... Mas como seria bom andar e ser feliz ao seu lado.

Sim, meu amor! Eu realmente acho você bonito e atraente! Você não precisa viver a neurose da barriga ou coisa assim, afinal, minha bunda nem de longe lembra a da Sheila Carvalho e meus peitos balançam de leve, e naturalmente, quando corro.

Não, meu amor! Eu não vivo num conto de fadas! Não quero que você me receba com flores, bombons e poesias todo dia... Quero apenas que quando você me beije eu não deseje mais nenhuma força do universo.

Não, meu amor! Os jantares estereotipadas de filmes românticos não me interessam! Gosto mesmo é de lugares onde a gente se esquece das mesas ao lado e ri a noite toda, brindando ou não com água de bolhinhas.

Não, meu amor! Não sou rica ou muito consumista! Não precisamos ir a uma pousada 800 mil estrelas, com ofurô ao ar livre, decoração vitoriana, lareira e carrinhos charmosos que trazem o café da manhã no quarto... Basta você conseguir passar algumas horas encantado pela gente, nem que seja no sofá da sua sala, antes do dia de faxina.

Não, meu amor! Eu não acho tecnologia uma coisa indispensável! Gosto mesmo é quando a internet e o celular não pegam mas, em compensação, a gente se pega muito.

Não, meu amor! Não sou baladeira! Curtir com você a noite é legal, mas será que às vezes a gente não pode colocar um Sinatra bem baixinho e namorar no escuro?

Não, meu amor! Eu não acho você pouca areia pro meu caminhão! Eu jamais namoraria um super-homem! Tenho horror a pessoas falsamente infalíveis; por isso, não busco em você um homem que sempre vence, que sempre impressiona, que sempre salva e sorri impecável em dentes brancos e músculos ressaltados.

Só gostaria que você me visse, ..., que visse que eu não tenho necessidade de adjetivar as coisas para que elas sejam boas...

Como parece difícil você me “ver”, quero que você saiba que vou me esforçar para me adequar ao seu mundo!

Prometo que vou refletir se estou sendo muito elitista. Quem sabe até eu pare de implicar com as garotas em série e seus namorados em série, e até consiga compreender que essa é a forma que eles escolheram ser (ou comodamente aceitaram?)...

Juro que vou parar de ser deprê ou filosofar, naquelas intermináveis conversas sobre como o mundo está perdido e as que as pessoas lutam todos os dias para se parecerem ainda mais com o perdido ao lado, se perdendo ainda mais...

Te garanto que não vou mais me sentir superior áqueles que cuidam do corpo mas esquecem da alma, ..., que cuidam do cabelo mas esquecem da mente, ..., que cuidam da superfície mas fazem eco por dentro, ..., que colocam um peito de silicone mas esquecem de dar mais uma chance ao amor. Não sou nem melhor e nem pior que eles, né?! Então porque devo me sentir superior?

Vou tentar me inserir em algum grupo por definitivo, fazer o possível para me relacionar com a galera feliz em pertencer a um mesmo barco; e eu juro, juro mesmo, não vou mais questionar se esse barco vai nos levar a algum lugar...

Quero que você se orgulhe quando eu conseguir fazer parte dessa feira de egos, que compete para ver quem tem a casca/invólucro mais bonita e de melhor certificação...

Garanto a você que vou até me divertir e distrair com as mentiras modernas do mundo e jamais vou lembrar que tudo que eu queria era apenas que você me visse como sou hoje, sem máscara, e que pudesse andar de mãos dadas comigo pela vida, como minha avó e meu avô fizeram por mais de 50 anos...



Escrito por Mariana Tonin às 11h42
[ ]


Amor Responsável, por MARIANA TONIN


No encontro de dois futuros amantes é pouco provável que um clarão rasgue o céu, que clarins toquem, ou que qualquer outro sinal celeste lhes dê a certeza que ali está a alma gêmea tão esperada. O que costuma acontecer é bem mais terreno e prático!

O que nos leva a preferir aquele a tantos outros?

Penso que é a soma de muitos fatores e que para cada pessoa existe uma diferente chave de atração, espécie de centelha que desencadeia o processo: a inteligência pode ser fator preponderante para uma mulher, enquanto outra se sente atraída pelo dinamismo, outra se liga ao senso de humor e outra, ainda, se interessa pelo físico.

Daí a importância de se prestar atenção! Atenção para verificar se a primeira impressão estava certa e se aquele é realmente o homem cujo arcabouço principal nos interessou, ..., atenção e sinceridade para não fazermos julgamentos sob pressão, estando ávidas a procura de alguém que nos sirva, ..., atenção para saber decifrar aqueles elementos imprevisto de personalidade, e que podem se tornar mais importante do que o esboço inicial: ele é lindíssimo, mas a única mulher que considera ideal é a mãe dele; ele é inteligente, mas egoísta demais para compartilhar seus conhecimentos; ele tem um raro senso de humor, mas usa sempre contra os outros; e por ai vai.

Temos, principalmente, que ter atenção em não prestar atenção demais! Isso acabaria tirando o brilho do primeiro encontro, do encantamento, da descoberta e, principalmente, da esperança meio cega do acerto.

Logo após o encontro começa a delicada fase em que estabelecemos a base de nossa igualdade, em que criamos condições para que o amor nascente não seja apenas um amor romântico, enfeitado de sonhos; e sim um amor real, estruturado para durar.

Ao falar de igualdade, quero dizer que cada um deva encontrar sua identidade (masculina ou feminina) dentro de si, em não na caixinha dos rótulos que a sociedade impõe; e que estas duas identidades, por sua vez, procurem estabelecer a convivência dentro de iguais direitos e deveres partilhados.

Bonita essa conversa de partilhar, né?! Mas partilhar por quê?

Simplesmente porque em amor as pessoas querem dar e receber, e o melhor é que isso seja feito na mesma medida!

Se pararmos para pensar, compartilharmos inconscientemente desde o inicio da relação. Procuramos a pessoa que, parecida conosco, nos complete. E só há um meio para testar essa identidade: entregar nossos pensamentos, nossos desejos e nossos objetivos para ver se coincidem com os desejos, objetivos e projetos dele.

Isso no início... Porque logo depois coisas mais concretas e às vezes bem mais prosaicas têm que ser partilhadas, pondo a prova a nossa real capacidade de conviver.

Partilhar é, enfim, viver em harmonia com o outro. É como andar de tandem (aquela bicicleta para dois ciclistas) que só funciona realmente se as pedaladas estão no mesmo ritmo e, sobretudo, se os dois querem ir na mesma direção.

Partilhar não é apenas dividir tarefas e despesas, é estar junto no modo de ver a vida, é fazer dos próprios sentimentos uma área livremente transitável. E isso só se consegue com intimidade.

Mas sabemos que um amor pode ser intenso sem ser intimo. Fazer sexo não implica necessariamente em intimidade; não naquela intimidade de sentimentos a qual me refiro.

Que intimidade é essa então?

Ela começa no desejo de realmente conhecer o parceiro e profundamente dar-se. Pudor nenhum pode barrar-lhe o passo, nem medo. E se estabelece aos poucos, à medida que os amantes se interpenetram.

Mas intimidade não é invasão! É justamente saber respeitar a privacidade do outro. É também aquilo que vem do reconhecimento dos defeitos, nosso e dele. É um conhecimento que elimina a necessidade de esconder-se em máscaras. Não é preciso fingir, já que o outro nos ama exatamente por aquilo que somos.

A intimidade não é indispensável à paixão, mas o é ao amor responsável, àquele amor que pretende ser mais sólido que apenas uma labareda.

No amor responsável está a grande possibilidade de sucesso de uma relação. Não se trata de compromisso, e sim de uma intenção consciente que o amor está bom, nos faz feliz, e por isso deve ser protegido e conservado.

O amor responsável sabe que tem um raro tesouro nas mãos, mas sabe igualmente que ele não é dado de presente pela sorte. Ele é construído a cada dia, pelos dois juntos, numa obra que não é só vertical (empilhação de experiências), que pode ser demolição para reconstruir, que é feita de muitas reformas e que, sobretudo, nunca tem um projeto definitivo.

Incluir o amor no dia-a-dia, fazer dele matéria primeira do nosso viver, é o passo inicial em direção ao amor responsável. Vivido profundamente, ele se irradia em todas as direções, permeia todas as atividades, tornando-nos pessoas melhores e mais receptivas.

Não há como garantir a duração de um amor. Responsabilizar-se por ele pode não eterniza-lo, mas nos dá a certeza de uma qualidade melhor e mais sólida de amor, a única que realmente pode configurar um casal.



Escrito por Mariana Tonin às 11h35
[ ]


Cadê?, por MARIANA TONIN


Já está em ebulição, vazando, transbordando, ..., e nada da tampa da panela pra socorrer a lambança.

E o meu pé então... Coitado!!! Meu pé cansado já tentou calçar (à força) de tudo: do chinelão que descola as tiras ao sapatinho de cristal, mas nenhum serviu e o coitado está todo esfolado.

E o que fazer com essa laranja??? Não tem ninguém pra descascar, chupar ou fazer uma laranjada comigo. Em compensação, laranjas na minha vida não faltam.

Chega!!! Há anos peço um príncipe encantado moderno, mas só me mandam o cavalo antiquado...

Será que é culpa da pressão que eu ponho em tudo isso? Deve ser!!!

Mas passar um final de ano sozinha foi muito deprê...

Fui megera o suficiente pra ver uma família feliz no shopping e pensar que aquela instituição "image bank" não passava de uma união solitária de aparências, ..., fui megera o suficiente pra furar a fila do Papai Noel e pedir de presente um homem bem exclusivamente apaixonado por mim, ..., fui megamegera o suficiente pra não admitir minha carência e dar uma risada debochada de todas as luzes, canções e emoções de boas-festas.

Mas na hora da queima de fogos não deu pra ser megera...

Incrível, mas isso sempre me faz chorar. É impressionante como a gente se sente sozinha na hora da passagem do ano, né?!

É claro que fechei os olhos e me desejei saúde, alegria, muitos amigos, sucesso profissional, blá, blá, blá, ..., mas não saí atacando para todos os lados nas simpatias deste réveillon. Isso não dá certo!!! Este ano foquei no amor.

Usando um vestido branco com vermelho, calcinha cor-de-rosa e fitinhas de Santo Antônio, dei os sete pulinhos com a mão no coração. Não sei se meu desejo de encontrar “o cara” vai se realizar, mas pelo menos a mão no coração já segurou meus seios naquele vestido frente-única que usei...

Posso ser uma mulher moderna e tudo, mas ainda sou mulher, certo?! Ainda quero alguém pra dormir protegida no peito (de preferência largo, forte e levemente cabeludo) durante e depois de uma noitada (ou várias), ..., quero sentir aquela coisinha do "é esse”, e não o já cansado “se ele quisesse, poderia ser esse”.

Não!!! Isso está errado!!! Quero a plenitude!!!

Dizem que materializar os sonhos escrevendo ajuda, então lá vai: quero cineminha com cabeça nos ombros, ..., quero casar por amor, ter uma casinha nossa, filhos e cachorros, ..., quero transar com beijo na boca, olhos nos olhos, eu te amo e muita sacanagem, ..., quero ouvir Sinatra numa noite chuvosa, tendo um bom livro de um lado e o homem que amo do outro, ..., quero almoço de domingo com as famílias reunidas, ..., quero que ele perceba quando meu peito estiver amargurado e precisando de riso, ..., quero que ele esqueça, de vez em quando, seu lado egoísta e lembre do meu, ..., quero que a gente brigue de ciúmes, porque ciúmes faz parte da paixão, e que faça as pazes rapidamente, porque paz faz parte do amor, ..., quero ser lembrada em horários malucos, todos os horários, pra sempre, .., quero ser criança, mulher, megera ou maluca e, ainda assim, olhada com total reconhecimento de território, .., quero sexo na escada e alguns hematomas, mas depois descansar na nossa cama imensa e macia, ..., quero foto brega na sala, com duas crianças enfeitando nossa moldura, ..., quero o sobrenome dele, o suor dele, a alma dele, ..., quero que ele passe a mão na minha cabeça quando eu for sincera em minhas desculpas e que ele me ignore quando eu tentar enrolá-lo em minhas maldades, ..., quero ver o tempo levando um pouco de seu cabelo ou os mudando de cor, ..., quero que ele leia interessado as coisas que eu escrevo e me olhe com aquela cara de "essa mulher é única".

É mais ou menos isso!!!

Sei que pode parecer muito, mas não precisa ser exatamente assim, tintim-por-tintim.

Exigir demais pode me fazer acabar sozinha, em algum especial de fim de ano com o Roberto Carlos, né?! Deus me livre!!!

Bem, .., analisando aqui e ali, ..., dá até pra tirar umas coisinhas.

Basta que ele me ame (e me amar mesmo), que olhemos na mesma direção, que seja companheiro de vida (e de sexo) e a família que escolhi formar.

Pronto!

E quando eu tiver tudo isso e uma menina boba e invejosa me olhar e pensar que "aquela instituição feliz não passa de uma união solitária de aparências", vou ter pena desse coração solitário que ainda não encontrou o verdadeiro amor.




Escrito por Mariana Tonin às 06h31
[ ]


Amor é “modi-ficação”, por MARIANA TONIN


Em Estudios Sobre el Amor, José Ortega y Gasset diz que “a vida humana, em sua própria essência, é criadora de moda (...), é a modi-ficação. (...) Cada época possui seu estilo de amar, que se modifica sempre.”

Conversando sobre esse tema com meu grupo de estudo de gênero, ouvi o seguinte comentário: “Todas as mulheres, até as mais feministas, sonham com um grande amor; querem alguém carinhoso, atencioso, compreensivo e que nos entenda a alma. Isso não mudou com o tempo. Isso nunca vai mudar. E por isso buscamos incessantemente.”

Confesso que fiquei preocupada! Confesso que imaginei um alvo muito difícil de ser alcançado! Esses adjetivos descrevem uma pessoa perfeita, que só habita nos sonhos femininos, como a participante do meu grupo de estudo disse.

Mas fora da Matrix, no mundo real, esse “grande amor” é raridade, mas nunca cansamos de procurá-lo. E de procura em procura, vamos acumulando experimentações afetivas e sexuais para colocarmos em nosso currículo de vida...

O problema é que não fomos criadas para isso! Não fomos criadas para sairmos por ai, pulando de relacionamentos em relacionamentos, de cama em cama, até encontramos o homem certo!

Por mais que hoje sejamos mulheres adultas e donas dos nossos próprios narizes, éramos meninas ainda ontem; e a idéia de entregar-se sem amor ou garantias do parceiro ainda é um problema, e está lá, escondidinha em nosso inconsciente coletivo.

Paralelo a isso, não aceitamos mais ser passivas quanto aos relacionamentos; queremos participar do processo de conquista e escolhermos nossos parceiros. E obviamente isso gera um conflito: a menina que teme o “amanhã” X a mulher ousada que vive o ”hoje”.

Por isso que, pra amenizar essa ambiguidade, muito se fala no “infinito enquanto dure”, já perceberam?! Trata-se de um amor sem prazo marcado, que fica quando quer e enquanto quer, livre da prisão da eternidade, apenas medido pelo prazer e não pelo calendário.

Mas esse amor pode ser perigoso! Dito pelo poeta, fica muito bonito e romântico... É um amor ardente e intenso, vivido como se fosse eterno, capaz de dar poemas, samba, mas não felicidade!

Recentemente um homem que conheço me surpreendeu muito ao dizer que espera o “infinito enquanto dure, ..., mas que dure pra sempre”. Segundo ele, não existe amor ou felicidade absoluta, que isso deve ser contruído, e que por isso devemos ser adeptos daquilo que chamei de Amor Responsável.

Trata-se daquele amor que faz do casal uma unidade, fruto da dedicação e do cuidado que o construímos, em suas várias etapas.

Mas como disse Ortega y Gasset , o "amor é modi-ficação"... Assim, penso que o amor responsável é uma modificação de outros "amores" (de uma noite só, do infinito enquanto dure, etc.), que vem se construindo aos poucos, até se tornar real.



Escrito por Mariana Tonin às 08h53
[ ]


Esta é a época do ano que eu simplesmente adoro!!!

Adoro as cores, as luzes a piscar, as músicas a emocionar, o agito, etc.

Isso porque, mesmo sendo adulta, eu tenho um lado totalmente infantil que se recusa a partir...

É verdade!!! Eu acredito em Papai Noel!!! Eu acredito nas coisas boas da vida!!!

Acredito que o amanhã sempre vai ser melhor, ..., acredito que as pessoas podem ser boas e caridosas, ..., acredito que a gente vai acertar mais e errar menos, ..., acredito que os preconceitos e as diferenças deixarão de existir, ..., acredito na amizade e no carinho que unem as pessoas, ..., e, principalmente, acredito no amor incondicional de DEUS.

Enfim, acredito que cada um de nós pode ser uma pessoa melhor e que pode fazer muito mais pelo seu próximo e pelo mundo.

Assim, desejo a você um natal M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-O junto às pessoas que você ama e que amam você!!!

E para 2007, desejo que você acredite mais em você mesmo, ..., que não esmoreça diante dos desafios, ..., que sinta prazer no trabalho digno e nos estudos, ..., que consiga dizer NÃO nas horas abusivas e SIM nas horas especiais e únicas, ..., que se dedique algum tempo fazendo a caridade, ..., e, principlamente, que tenha coragem.

Falo isso porque enquanto ainda não conseguirmos promover a PAZ, o AMOR e a ESPERANÇA que ano após ano desejamos uns aos outros, a CORAGEM é tudo que nos resta nessa batalha.


Um forte e fraterno abraço,
                               Mariana Tonin


Escrito por Mariana Tonin às 17h59
[ ]


Desamor revisitado, por MARIANA TONIN

Realmente era um absurdo afetivo eu estar indo àquele lugar e passar alguns dias com ele, ..., realmente eu acreditei que era só amizade o que tinha restado a nós dois.

Mesmo quando ele chegou no aeroporto, de longe eu vi aquele rosto expressivo que eu tanto amei, ...., aquela carinha infantil que eu tanto amei, ..., aquele olhar de timidez tarada que eu tanto amei… E eu imediatamente me perguntei por que amei tanto e não amo mais.

Ele me abraçou saudoso, realmente com carinho, me apertando contra ele até quase estalar algum ossinho da minha coluna, e me disse: “Ô, lôra... O que você tem que eu sempre largo tudo e venho te ver?”

E eu? Bem... Eu espreguiçei para sugerir desinteresse, mas meu coração bagunçou tanto que tive um ataque de tosse.

Antes de deixarmos minha mala no apartamento dele, onde ia me hospedar por 2 dias antes de meu compromisso profissional, passeamos pela cidade num programa “amigos-nada-não”, almoçamos e entramos de mãos dadas no cinema, felizes como se estivéssemos estado junto todo esse tempo.

Ele me olhava sem parar, suspirava e observava encantado cada movimento que eu fazia, cada semblante, cada segundo do meu raciocínio. E eu fazia um esforço pra tentar me entender o porquê do nosso fim.

Apesar do filme ser um lixo, máster-clichê, ao lado dele tudo ficava divertido... E para amenizar o horror, brincamos de adivinhar as próximas cenas ao som de “shius” que os humanos limitados faziam, inconformados com aquele casal que tentava boicotar um filme tão "supimpa".

Sobrava pipoca no dente, entrava pipoca no sutiã, e cada vez que nossas mãos se encontravam salgadas, dentro do saco, a gente brincava de roçar os dedos, imitando pernas desesperadas.

Ao chegarmos ao elevador do prédio senti uma coisa estranha, um medo, um receio, sei lá... Me bateu uma sensação inexplicável de dejavu.

Já no apartamento, ele mostrou que tem todas as minhas músicas prediletas (que eu ensinei a ele tempos atrás) no seu iPod última versão, que comprou toddynho para eu tomar antes de dormir, e que abarrotou a geladeira de frutas diversas, para eu ter opção ao fazer minha tradicional vitaminada pela manhã.

Sim! Sim! Ele lembrava de todas essas coisas a meu respeito...

Realmente ele era um híbrido de super-homem com criancinha fofa, e comecei a me culpar por ter deixado esse cara sair da minha vida.

Me cercando de mimos, ele parou o mundo todo, se ajoelhou no sofá deixando as mãos no meu colo e disse: “Você não sabe a saudade que eu senti todo esse tempo. Nada mudou com relação a nós!

Seus olhos brilhavam; a música se tornava instrumental, matando qualquer palavra; a cidade não respirava; o tempo não existia; a solidão era coisa de gente que morava muito longe dali; minha mente aquietava todos os monstros; a poluição virava oxigênio puro e cor-de-rosa; os porquês desagradáveis do nosso “fim” explodiam no ar, deixando apenas estrelas para iluminar nosso recomeço; as dúvidas todas do que fazer pelos próximos mil anos se simplificavam...

Sim! Sim! Eu desejei viver aquele momento e zerar tudo de antes... Eu quis amar aquele homem naquela hora, como antes, como nunca. Por que não?

Mas depois de tudo, enquanto eu ainda estava deitada na cama dele, o vi na sacada olhando a cidade, totalmente pensativo, como se estivesse num imenso conflito e desejasse mais que tudo se virar e não me ver mais ali.

Quando finalmente nossos olhares se cruzaram, ele entendeu que eu tinha entendido, e abaixou a cabeça... Ele até pôde ter sentido pena, mas me considerava forte e resolvida demais para ter pena de mim. Penso que sentiu pena dele mesmo por não conseguir aceitar o óbvio, por relutar em admitir essa entrega!

Eu, corcunda de constrangimento, me enrolei numa toalha, corri para o banheiro, me joguei no chão do boxe e deixei a água quente me dizer que tudo ia ficar bem, que não era a primeira vez que eu me sentia tão perdida, usada, burra e sozinha.

Os restos dele grudavam em mim como tudo de ruim que gruda na nossa memória e nos faz viver cheios de medos e traumas, e eu quis tomar o banho mais urgente e demorado do mundo. Lá, mirei meus olhos traídos e esquecidos, tentando pedir desculpas não aceitas a mim mesma!

Antes dele sair pra resolver "algo urgente", deixando-me sozinha hospedada em sua casa, deixou dois chocolatinhos na mesinha de cabeceira.

E eu?  Bem... Arremessei um dos chocolates pela janela, com ódio; e o outro eu comi, afinal, é sempre com a metade de tudo que eu fico quando se trata dele.

Ninguém nessa vida consegue se dar e ser por inteiro, já notaram?!

Agora me lembro perfeitamente porque deixei de amar esse homem... Lembro exatamente que por causa dele uma vez deixei de me amar...



Escrito por Mariana Tonin às 17h34
[ ]


Te perdôo por te trair,
por MARIANA TONIN


“... te perdôo por contares minhas horas, nas minhas demoras por ai, ..., sim, te perdôo, ..., te perdôo porque choras quando eu choro de rir; te perdôo por te trair.”
(Mil perdões – Chico Buarque)

A palavra Traição vem do latim traditione e significa entrega; ato ou efeito de trair; crime de quem, perfidamente, entrega, denuncia ou vende alguém ou alguma coisa ao inimigo; perfídia, deslealdade, aleivosia; infidelidade no amor. Já a palavra Fidelidade vem do latim fidelitate, e significa qualidade do fiel; constância nas afeições e sentimentos; perseverança; observância rigorosa da verdade.

Etiologicamente, nota-se um conteúdo moral, carregado, que dá significado a uma ação muito mais comum do que se imagina.

Ser fiel é virtude! Trair é crime! E assim aprendemos...

Foram ensinamentos passados de geração a geração, embora sabíamos tratar-se de mais uma das “meias-verdades” que a sociedade insiste em manter.

Mas sempre me questionei muito mais que isso.... Me questionei por que a traição do homem ainda é aceita socialmente e a da mulher não...

Marina Colasanti, na obra A Nova Mulher, diz que a raiz desse comportamento social está na “opressão lingüística” que os homens exerciam sobre as mulheres. Segundo ela, como proibir o adultério (ou mesmo a traição entre amantes) era difícil, proibiu-se falar sobre ele e o silêncio virou lei. Assim, preservava-se a honra dos amantes, resguardava-se a instituição familiar, evitava-se os escândalos, enfim, salvava-se toda a estrutura social.

Simone de Beauvoir, antropóloga e feminista, diz que a “representação do mundo é tarefa dos homens. Eles os descrevem segundo seu ponto de vista particular, que confundem com a verdade absoluta.”

E assim se instaurou o silêncio, a opressão linguística... E nunca mais nossas santas avós traíram nossos honrados avôs...

Hoje, as mulheres maduras e independentes não suportam mais opressão, muito menos lingüística. Não toleram argumentos do tipo “os homens traem por natureza, porque são instintivamente polígamos”,  ou  “os homens traem porque suas companheiras estão sempre grávidas ou em período menstrual”, ou ainda “os homens traem porque gostam mais de sexo do que as mulheres”.

Encaramos isso como “argumentinhos” infantis, que merecem respostas concretas e atualizadas: 1) olhando o homem primitivo nota-se tanto a poligamia quanto a poliandria (que ainda existe no Ceilão, Índia e Tibet); 2) as mulheres hoje usam contraceptivos para não engravidar; 3) a menstruação só ocorre uma vez ao mês e não impede a relação sexual em hipótese alguma; 4) não há comprovação fisiológica ou psicológica de que as mulheres gostem menos de sexo do que os homens, ao passo que há constatação científica que nem todos os homens são potentes a vida toda.

Eu, como todas as mulheres de longa linha que me antecediam, também fui traída, também aceitei os argumentos masculinos e também suportei com elegância a traição. Fiz isso porque estava certa de estar cumprindo corretamente meu papel feminino mas, só muito mais tarde me dei conta desse tremendo engodo social, dessa mitologia acerca da mulher traída e do homem conquistador.

Hoje, não serão esses argumentos que vou aceitar! Não será devido ao meu comportamento sexual que meu companheiro vai “precisar” procurar outra!

Com toda nossa independência, grosso modo, a mulher da vida agora somos nós mesmas! Somos a “mulher da vida” no sentido mais bonito, que além de dar vida gerando, ainda dá vida na plenitude do prazer.

Mas será que isso é suficiente para que nossos companheiros não nos traiam?

Penso que talvez não seja! O homem não nos trai devido ao que somos ou deixamos de ser, e sim por aquilo que ele próprio é.

Um homem pode trair por insegurança, afirmando-se a cada nova conquista e garantindo sua masculinidade; pode trair na busca da imagem da mulher ideal; pode trair por “solicitação”, por não poder recusar um convite feminino; podem trair por frustração, deslocando para o sexo seus conteúdos reprimidos.

Essas são apenas algumas razões que levam um homem, relacionado com uma excelente mulher e de quem ele gosta bastante, a traí-la com outra menos bonita, menos inteligente ou até menos mulher.

E quando essa traição masculina se abate sobre nós, mulheres, a primeira pergunta que fazemos é “Por quê?”, em seguida vem a máxima “O que está errado comigo?”.

Ai que está o problema!

Talvez nada esteja errado conosco, e sim com a nossa criação! Cada vez que alguém nos trai, inconscientemente nos cobrando e nos culpando, certas de que o fracasso é nosso, e assim como nossas antepassadas, continuamos deixando que os homens vivam na íntegra o pensamento Rodriguiano cantado por Chico Buarque no início, o “te perdôo por te trair...”



Escrito por Mariana Tonin às 06h51
[ ]


Amor de uma noite só,
por MARIANA TONIN


“Não tenho paciência para televisão; eu não sou audiência para solidão. Eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também...”

Não é raro hoje, encontrarmos uma mulher interessante procurando alguém para “estar”. Se conseguirmos entrar em seus pensamentos quando esse alguém surgir, certamente ela estará dizendo a si mesma: Por que não?

Talvez para estar atualizada aos novos conceitos de “amor”, ela acaba deliberadamente disposta a viver um AMOR DE UMA NOITE SÓ; uma noite de sexo que terminará com as roupas pelo chão e a maquiagem desfeita, sem falar de uma despedida discreta e ás vezes até constrangedora.

Mas é só sexo que ela busca? Eu penso que não! Ela quer sexo sim, mas também quer amor; quer sexo e afeto; quer sexo e calor. Mas quando a possibilidade do sexo aparece, mesmo sem nenhum desses outros componentes, ela aceita. Ou finge (nega para si própria) que não precisa do resto, ou fantasia que esse resto vem junto.

R.S., 25 anos, diz que “o amor de uma noite só, nem sempre é de uma noite só. Geralmente temos algumas expectativas. Quando vamos para cama com alguém, mesmo sem compromisso, significa que essa pessoa realmente mexeu com a gente. E se mexeu, imaginamos que vai ser bom e que pode acontecer outras vezes; que pode até se transformar em compromisso”.

E se isso não acontecer?

R.S. diz que “.. é complicado, mas de forma alguma a experiência é negativa; podemos ir aprimorando nossa busca por alguém ou até mesmo por prazer”.

Evidentemente também encontramos mulheres interessantes a procura de um sexo descompromissado, que quebram os tabus de sua formação e vivem seus desejos na íntegra, preenchendo suas noites com a alegria de um orgasmo. Mas mulheres assim são raras! A maioria não se permite tal experimentação.

O que ocorre em ambas situações, é que as mulheres não se satisfazem como imaginavam. Ou o “resto” esperado através do sexo (amor, afeto, calor e possibilidade de um “amanhã”) não vem depois; ou o sexo por sexo não é tão bom assim, haja vista que a primeira noite de um casal tem um rendimento reduzido e há, mínima que seja, uma tensão natural que pode gerar uma satisfação precária.

E como a experiência não é gratificante e nem sempre oferece o previamente imaginado, a experimentação continua...

No IV Congresso sobre Representação da Imagem Feminina (Brasília, 2005), a psicanalista Suzana Alves Vieira disse que "toda nossa realidade se tornou experimental. Na ausência de destino, o homem e a mulher moderna estão entregues a uma experimentação sem limites sobre si mesmos".

E esse dar-se hoje a um e amanhã a outro, está fazendo com que as mulheres vivenciem uma grande ressaca sexual, antigamente privilégio masculino.

Mas para eles, existe uma facilidade social. Eles foram criados para isso! Eles foram criados para exibir a quantidade em seu currículo sexual! Eles cumprem um ritual de virilidade!

E é ai que penso estar o problema. Ao tentar afirmar igualdade, buscando a alegria (sexo) onde os homens sempre disseram que ela estava, as mulheres correm o risco de repetir o mesmo ritual viril. Podem deixar de ser “usadas” para ser apenas “usuárias”.

Contrariamente ao que eu pensava, os homens maduros não acham esse ritual de virilidade tão bom assim. Segundo M.F. (homem, 35 anos), “até próximo dos 30 anos realmente era a quantidade o mais importante; hoje, só vou pra cama com alguém que me desperte um interesse além do sexual, que possa me acrescentar algo, que me motive a troca de prazer e me proporcione um orgasmo pleno. Sexo por sexo, às vezes é melhor se masturbar sozinho, porque nem sempre uma ejaculação corresponde ao um orgasmo...”

E assim, quebrando alguns estigmas, restam às mulheres fantasiar...

Pena que as fantasias femininas costumam ser delirantemente românticas ou delirantemente sensuais, mas nunca delirantemente realistas. Mas a vida é!

O amor de uma noite só é uma experiência que faz parte da vida moderna. Pode acontecer de ficarmos frustradas com a situação e não quereremos mais outros encontros desse tipo; acontecer de esperar um “amanhã” e o homem simplesmente sumir após trocar de roupa; acontecer da relação não emplacar para ambos; ou também acontecer de ser vivenciada em toda sua plenitude, como era inicialmente para ser: numa noite só.

O fato é que ela acontece, quer a gente queira, quer não... Portanto, é importante ter em mente que tais inesperados podem acontecer e que, mesmo que eventualmente seja um jogo saudável, não é uma boa prática de vida e exige seu momento certo, aquele que chamamos de maturidade.



Escrito por Mariana Tonin às 15h09
[ ]


Rupturas Necessárias,
por MARIANA TONIN


“A vida que me ensinaram era uma vida normal. Tinha trabalho, dinheiro, família, filhos e tal... Era tudo tão perfeito, se tudo fosse só isso. Mas isso é menos do que tudo; é menos do que eu preciso... Agora você vai embora e eu não sei o que fazer. Ninguém me ensinou na escola, e ninguém vai me responder.”

Cresci no auge do Pop Rock Nacional, ouvindo Paulinha Toller cantar extasiada os trechos acima. A música é o reflexo dos conflitos internos das mulheres de minha época e retrata como nossa capacidade de desvincular afetivamente demanda tempo e, em geral, traz consigo culpa emocional e vários questionamentos.

Isso ocorre porque fomos criadas para sermos filhas exemplares (entenda-se: que ninguém tivesse motivos para nos cobrar), boas alunas, excelentes profissionais e, em paralelo, esposas e mães dedicadas. Mas nesse currículo grandioso, quase utópico, estariam as nossas “experimentações” afetivas e as nossas buscas.

E essas “experimentações” ocorrem porque o amor existe, o amor acontece, e o amor acaba, quer aceitemos, quer não.

Sabendo que o amor é uma emoção, das mais nobres, porque nos é tão difícil aceitar que ela acabe e vá, como todas as outras emoções?

Elaine Hatfield, psicóloga e pesquisadora da Universidade de Minnesota, criou a Teoria da Equidade para explicar a dificuldade feminina em romper, em desfazer os vínculos. Segundo ela, buscamos no outro um pedaço de nós mesmos e, quando o encontramos, reincorporamos como parte necessária. Abrir mão disso é como abrir mão de um pedaço nosso, e traz a sensação de estarmos mutilando carne e sentimento.

Mas é ai que nos enganamos... Vai-se o objeto de amor, mas nem tudo vai com ele!

Evidentemente não encontraremos alguém tal e qual, mas certamente encontraremos outros tantos como nós, com os quais iremos compondo o mosaico das nossas identificações amorosas, as já citadas “experimentações”.

Queremos um amor eterno, apesar de sabê-lo tão improvável, porque esta é a única maneira de evitarmos rupturas.

Romper é mais angustiante do que a realidade do fato em si. É fácil deduzir que o que nos assusta não é exatamente a perda do companheiro ou do amor, mas a perda, pura e simplesmente.

Eu penso que ao medo da perda soma-se o medo de recomeçar. Significa reacender as esperanças, arrumar tudo de novo e de novo submeter-se ao risco de encontros e desencontros. Significa viver mais uma vez a emoção e os riscos da disponibilidade, e mais outra “experimentação”.  E isso cansa...

Mas significa também a possibilidade de um novo e radioso amor, de descobertas propícias e de horizontes mais amplos... Isso dificilmente conseguimos ver, afinal, estamos de testa baixa, carregando a culpa de um fracasso.

Imbuídos da obrigação de viver uma relação perfeita e infinita, sentimos a ruptura como uma falha pessoal, um grave fracasso.

Para área do amor convergem todas as emoções, todas as pressões sociais e familiares, as pequenas e grandes neuroses e as carências. Há muito mais coisas envolvidas do que um homem, uma mulher, e o momento da separação.

No livro Love and Limerence (Amor e Paixão), da psicóloga norte-americana Dorothy Tennov, os sintomas de paixão são descritos como: pressão no peito, desejo agudo de reciprocidade, medo de rejeição, mudanças drásticas de humor e pensamento voltado para o objeto da paixão. Segundo ela, a Limerence é uma emoção e tem um prazo de vida de dois anos, em média.

Assim, dito por uma especialista no assunto, podemos até concordar, mas em nosso inconsciente coletivo é muito difícil não esperar a durabilidade e o controle. Sendo uma emoção, escapa de todas as juras e de boas intenções.

Viver o amor como sendo infinito pode parecer ideologicamente bonito, mas nem isso é! É como perseguir o inútil sonho da perfeição.

Cada amor é único. Pode ser circunstancial, intenso, descontrolado, quase-perfeito ou ir mudando aos poucos. Mas será, SEMPRE, intensamente aproveitado se tirarmos da nossa cabeça essa terrível preocupação temporal.

Está certo! Fomos criadas na convicção que uma relação séria é fundamental, que nos garantirá o prosaico amor eterno. Mas de que vale a garantia temporal se nele não está mais a nossa felicidade?

Assim, não estaríamos mais defendendo o amor, e sim usando-o como desculpas para escamotear nosso medo de enfrentar a vida com seus vãos de desconhecidos e momentos de solidão.

Lutar para conservar um amor que existe e que está ameaçado é bonito e é justo. Mas é preciso examinar bem esse amor, confirmar sua força e sua validade, para não findar defendendo um fantasma.

Assim como é importante deixarmos as portas abertas e os sentimentos disponíveis para a chegada de um amor, também devemos deixar livre a passagem para que ele se vá quando sua hora chegar



Escrito por Mariana Tonin às 07h14
[ ]


 

(Obra INSANIDADE, de Júlio Pablo)

Tragicômico,
por Mª Alice B. Zuckermam

 

Estive recentemente no Congresso de Psicologia e Profissão, em São Paulo, e confesso que andar pelo centro da cidade tem se tornado a cada dia uma aventura, na qual Indiana Jones perderia o chicote e Crocodilo Dundee, o facão e a pose.

É algo realmente trágico, mas a nossa mente esperta deixa quase tudo com ares cômicos, para poder sobreviver:

Uma voz fininha e lamurienta de uma mulher com lenço na cabeça quase me convenceu que eu precisava ajudá-la mas, duas ruas dali no dia seguinte, peguei a tal mulher saindo no berro com a funcionária do banco (Não é o banco da praça! É aquele banco que tem dinheiro). A mulherzinha queria exercer a profissão de pedinte fora do espaço pré-estabelecido pela associação municipal dos mendigos, ou seja, dentro do estabelecimento bancário, e foi impedida pela funcionária. Levei o maior susto ao ouvir o berro da mulher de voz fininha e lenço na cabeça, pois de soprano em falsete, ele passou para um barítono autêntico. Isto é trágico, mas é cômico.

A outra mendiga chorava de maneira desesperada, soluçando e falando ao mesmo tempo, e as suas lágrimas quase se juntaram às minhas, tão desolada eu fiquei ao assistir a dor da pobre e ainda imaginar o drama que esta criatura deveria estar vivendo. Mas... em questão de segundos, ela se irritou com alguma esmola irrisória, parou imediatamente de chorar e soluçar, e soltou um bando de palavrões que até o cais mais ordinário ficaria ruborizado ao ouvir. Cada um tem seu trabalho neste teatro urbano... Isto é cômico, mas é trágico.

Continuando a caminhar, passei por uma loja imensa e a música sertaneja que saía lá de dentro era tão feia e tão brega que obrigou meus passos a saírem do ritmo. Com isto, fiquei meio manca e totalmente desengonçada, e gritei uma ordem para as minhas pernas: “Não escutem! Não escutem! Voltem ao passo normal e finjam que nada está acontecendo! “

A letra era tão ridícula que eu não pude deixar de revirar os olhos e torcer a boca, num desprezo absoluto pela proposta que o peão estava fazendo para a amada: "Venha para mim e eu te prometo casa, comida e roupa lavada. Paro de beber e chego cedo em casa."

Pensando bem, se ele realmente possuir boa mão na cozinha, deixar a louça limpinha, lavar e passar toda a roupa e ainda parar de beber, eu acho que a amada poderia considerar a proposta. Meu Deus! Será que estou tão desesperada assim atrás de um homem? Isto é trágico, ... e cômico.

O carro do corpo de bombeiros passou voando, com a sirene ligada. Era uma favela próxima do centro da cidade que estava em chamas. Fiquei arrepiada de angústia. Isto é trágico, e nada cômico.

Nessa confusão, a mulher que estava na minha frente tropeçou, ficou com vergonha e olhou para mim. Eu segurei o riso e fiquei olhando fixamente para ela, tentando passar alguma solidariedade. Isto é cômico.

Finalmente, cheguei ao meu destino: um foto qualquer da cidade.

Sentei ao lado da mocinha gentil com ares competentes e entreguei o CD com as fotografias que eu queria imprimir. Decidimos o tamanho e o preço das fotos e o horário para pegá-las.

Antes de sair, resolvi perguntar se ali no estabelecimento era possível escanear fotos e qual seria o preço. Ela me disse que se fossem recentes era tanto e se fossem antigas, dois tantos.

- Ah, que beleza! Então vocês fazem um trabalho de restauração nas velhas fotos?

- Sim, mas, para isso cobraremos os dois tantos mais outro tanto.

- Desculpe a minha ignorância, moça, mas, eu acho que não entendi absolutamente nada. E pelo nada que eu entendi, o scanner teria receio de entrar em contato com o papel idoso da fotografia e ficar gagá? É por isso que fica tão mais caro escanear uma foto antiga?

Saí de lá sem a explicação, mas absolutamente decidida a mandar arrumar o meu próprio scanner que já anda enfiando caraminholas no fusível, querendo uma aposentadoria por tempo de serviço.

Andei por ali, por lá e por aqui, e peguei as fotografias prontas na hora marcada.

Surpresa! Quando olhei, não pude acreditar. As pessoas das fotos só possuíam uma parte da cabeça. Estavam sem testa e sem cabelos. Reclamei de forma educada, mas, firme.

- Veja, as fotos estão mal enquadradas e vocês vão precisar refazê-las.

- Claro! Mas a senhora terá que pagar um pouco mais por isto.

- Como assim?

- É o seguinte: para que a foto seja enquadrada de forma correta, a senhora precisa pagar um preço adicional por este serviço.

- Isto aqui é realmente um serviço fotográfico sério?

- Sim, claro.

- Que susto, moça! Por um milésimo de segundos achei que era um laboratório de pesquisas científicas, daqueles que montam gente com pedaços de gente. Mas, me diga, uma loja de fotos não tem a obrigação de fazer um trabalho decente?

- E nós fazemos.

- Fazem? - perguntei colocando um enorme ponto de interrogação ao final da frase irônica.

- Sim, senhora.

- Olha, moça, você não tem culpa de nada, mas isto é a coisa mais pervertida que eu já escutei na minha vida. Eu trouxe ótimas fotografias e vocês me entregaram pessoas sem cabeça. E para ter as cabeças de volta eu preciso pagar um adicional?

- As coisas aqui são assim.

- Tudo bem. Vou pagar pelas cabeças.

E assim foi... Voltei algumas horas depois e consegui pegar as testas e os cabelos que haviam ficado presos no enquadramento automático do computador. Ainda pude avistar lá no fundo da máquina alguns olhos, orelhas, pés, mãos e até mesmo outras partes que prefiro nem mencionar. Que trágico!

Mas, esta é a era da automatização. Precisamos nos acostumar!

Precisamos mesmo?

Sem gagueiras ou brincadeiras, isso tudo é tra-gi-cô-mi-co.

É... Pois é...



Escrito por Maria Alice Becker Zuckermam às 06h51
[ ]


Fálica,
por Mª ALICE B. ZUCKERMAM


Mariana é uma mulher fálica!!!

Ok! E o que fazer com essa nova informação? Usar isso para “comer uma outra mulher”?

É... Sabe que até não seria uma má idéia para ela que estava cansada de atrair homens "xânicos"?!?!

Eu explico, calma!

Mariana, minha amiga, acabou de descobrir na sua terapia que é uma mulher com pinto. Não na vida real, evidentemente, mas na vida comportamental.

Resumindo: ela se comporta, em alguns muitos casos, como homem!

Ela entra pisando firme num restaurante e já pede uma mesa para dois não fumantes; ela leva, sozinha, o carro para oficina a fim de averiguar os pneus ou fazer troca de óleo; ela quebra o pau numa reunião de trabalho e depois sai de lá numa boa, para um almoço informal; ela mesma pinta a casa quando está sem grana para pagar um pintor; ela paga suas próprias contas há uns 10 anos; ela agarra o cara respeitoso, para acabar logo com aquele papo furado de elocubrações da vida; ela não gosta de discutir muito o relacionamento a dois quando estão sozinhos e num lugar reservado, achando que essas situações só poderiam pedir gemidos; e por ai vai...

Bingo! Mariana descobriu na terapia que o que ela queria mesmo era um homem com o pinto maior do que o dela. Só isso! Era tão difícil assim entender?

Ela queria um homem que a fizesse sentir tão mulher que a deixasse descansar dessa auto-defesa homem de ser.

Rose, uma amiga de Mariana que vive da pensão do ex-marido, passa o dia lendo revistas idiotas e acaba por ficar mais metida a Freud do que metida por homens, lhe diz sempre: “Se você quer um homem de verdade, seja uma mulher de verdade. Mas você fica aí querendo competir com eles, não é?”

Mas o que era então uma mulher de verdade? Ou, pelo menos, como seria uma mulher que atrairia um homem de verdade?

Na cabeça de Mariana passavam mil coisas...

Seria a meiga falsa que já deu pra meia cidade mas mantêm o semblante de virgem com medinho? Seria a submissa que apenas sorri para toda e qualquer opinião do bonitão? Ou pior de tudo, umas cem vezes, seria aquela mulher que espera o príncipe encantado que vai ensinar a vida para ela, mostrar a vida para ela e pagar a vida para ela?

“Uma mulher de verdade é feminina, só isso”, lhe dizia Gabriela (amiga de infância que vivia querendo competir com ela, mas no fundo a admirava muito e acabava por fazer o papel de alterego vulgar em sua vida), ajeitando os peitos no decote.

Mariana se irrita com a sugestão de não ser tão feminina assim e pensa em falar um milhão de palavrões à amiga que tem seus dias nada meigos, como os de hoje. Mas daí se retrai! Quem era ela pra falar em feminilidade? O simples fato de Gabriela ajeitar os peitos no decote já se mostrava nada delicado, sem falar que falar palavrão seria pouquíssimo feminino da parte de Mariana...

Perfeito! Constatando isso ela solta alguns palavrões, num híbrido de catarse e brincadeira, na maior gargalhada, se libertando do assunto e da feminilidade.

As amigas Rose e Gabriela percebem que os homens nas mesas em volta olham-na surpresos.

Ai, naquela momento, era apenas a Mariana, a fálica, que sempre põe “seu” pênis a mostra e afasta todos os testosteronas medrosos em volta..

Mariana permanece confusa durante exatos dez minutos, e depois abre o maior berreiro, desabafando sobre sua vida e sobre suas dificuldades ao ter que matar um leão por dia, 365 dias por ano, durante muitos anos.

E ela chora, soluça, enfia o rosto no meio das mãos...

Naquele momento, ainda que vermelha e toda borrada de rímel, a frágil Mariana atrai mais o interesse dos homens do que quando chegou ao restaurante em seu carro novo, feliz, bem sucedida e vestindo um pretinho básico de fechar o comércio.

Acho que minha amiga Mariana se livrou temporariamente de seu pênis....


Escrito por Maria Alice Becker Zuckermam às 19h24
[ ]


Tudo o que ele me deu,
por MARIANA TONIN.



Depois de um bom tempo dizendo que eu era maravilhosa, ..., blá,blá, blá, ..., um belo dia ele disse que eu era maravilhosa, mas..., não dava mais.

Fiquei pra morrer por algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele... Quem sabe se eu ficasse mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não voltaria pra mim, né?!

Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro de ensinamentos espíritas e em um curso de psicodrama.

Nos meses que se seguiram eu me tornei um dos seres mais malhados, espiritualizados e psicodramáticos do planeta.

E sabe o que aconteceu? Nada! Absolutamente nada! Ele continuou não lembrando que eu existia.

Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum. Eu precisava ser ainda melhor para ele... Sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito.

Decidi ser uma mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve.

Para isso, parei de vez de me incomodar com aquele grupo “inóspito” do meu trabalho "institucionalizado" e resolvi me empenhar na minha carreira como psicóloga-pesquisadora. Assim, atendi clinicamente dezenas de pessoas, participei de vários congressos, terminei meu mestrado, ganhei uma coluna definitiva no Caderno Pagu, quintupliquei o número de leitores do “Fazendo Gênero”, ..., mas nada aconteceu.

Mas eu sou brasileira, e não desisto nunca, como dizia aquela propaganda de sei lá o que... Eu não desisto fácil assim de nada, ainda mais de um amor. Então, resolvi que eu tinha que ser uma super-ultra-mega mulher para ele voltar pra mim.

Foi então que passei 35 dias circulando por países da América Central, exclusivamente em minha companhia e sem nenhuma razão específica para estar lá (nem turismo, nem estudo, nem visita a amigos, absolutamente nada!). Conheci lugares geniais, controlei meu pânico por estar sozinha e longe de casa, e me tornei mais culta, ponderada e vivida. Voltei de viagem e nem sinal de vida da criatura.

Comecei a escrever um livro sobre minhas experiências com grupo psicoterápico de mulheres, ..., cortei e pintei o cabelo 800 mil vezes, ..., diminui a freqüência de minha terapia (eu, enquanto paciente), ..., li mais uns 40 livros, ..., me tornei voluntária de uma casa de apoio aos pacientes com câncer, ..., rezei pra Santo Antonio todo dia 13 de junho de cada ano, ..., me apaixonei por praia e tentei ficar morena no sol nordestino sempre que dava, ..., fiz milhares de cursos, ..., aprendi a nadar, ..., me viciei em comprar bolsas, ..., e como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha.

Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente e do meu jeito, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso tudo: silêncio absoluto.

O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias pensando nele, querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele, ..., até que algo sensacional aconteceu: um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher, que eu acabei me tornando mulher demais para ele.

Ele? Ele quem mesmo?



Escrito por Mariana Tonin às 11h40
[ ]


       

A ditadura do bom desempenho sexual,
por MARIANA TONIN


Antes de tudo, quero definir a palavra “liberado”, que ouvimos com tanta freqüência e acabamos por empregá-la de forma errada, por não sabermos o significado.

Liberado, segundo o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, é o indivíduo: 1) Tornado livre; 2) Desobrigado, dispensado; 3) Que está livre de ônus ou restrição; 4) Que é beneficiário da liberação; 5) Que se acha em livramento condicional.

Assim, a pessoa liberada seria aquela que tinha preconceitos e restrições, e agora não tem mais. Ela está livre!

Mas como é essa liberdade, então?

Ela não é restrita, como tantos querem crer; também não é total, como muitos apregoam. Ela está na medida de cada um e é contida pelas limitações individuais e pelo meio social.

A liberação, na verdade, tem tantas nuances que ao ouvirmos alguém dizer que fulano(a) “é liberado”, deve-se desconfiar. Não da pessoa dita liberada, logicamente, mas de quem a está rotulando, afinal, tudo nos leva a crer na liberação alheia, não na nossa, pois talvez ainda tenhamos dúvidas e ansiedades frente a determinados comportamentos sexuais.

O clima quase orgiástico que anima a civilização ocidental tem muito de encenação e deve seu sucesso aos veículos de comunicação em massa. Mas nem todo mundo é tão liberado assim como a sociedade moderna coloca...

Antes do final dos anos 70 já se imaginava que isso poderia acontecer. Em 1975, a sexóloga Helen Kaplan declarava para revista Veja que
“... a revolução sexual feminina separou os conceitos sexo e pecado, antes indissoluvelmente ligados. E a medida que a idéia de sexualidade vem sendo divorciada da idéia de culpa, o efeito tem sido fazer as pessoas mais felizes, mais abertas, mais capazes de amar livremente. (...) Por outro lado, há também os efeitos negativos. A liberdade pode ser mal usada, ir-se de um extremo a outro, sair da escuridão sexual para ênfase exagerada.”

Apesar da enorme discrepância entre aquilo que realmente somos e o que a sociedade apregoa, não podemos negar o avanço destas últimas décadas no que diz respeito à liberação sexual, principalmente a da mulher.

Pessoalmente, penso que romper com os preconceitos, acabar com os complexos de culpa e apresentar-se aberta para o amor e o sexo, é sinônimo de plenitude e felicidade. Entretanto, o que noto é que a maioria das pessoas que se diz liberada e que alardeia um comportamento sexual livre, não é tão feliz como demonstra. E eu continuo me perguntando o porquê desse contra-senso....

A hipótese que mais me parece cabível nos remete novamente a definição de “liberado”, por trata-se de uma liberdade condicional, passageira, que pode voltar a qualquer momento a antigo estado de “prisão”. Penso que são os modistas, os liberados de fora para dentro.

Contabilizando os benefícios da revolução sexual, noto uma obrigatoriedade em super-resultados e em super-desempenhos. Seria uma forma de estarmos provando pra nós mesmos (homens e mulheres) e para o mundo nossa adequação ao modelo de igualdade vigente.

A verdade é que explodindo a repressão que sufocava as mulheres até cerca de 40 anos atrás, acabou-se por estabelecer padrões altíssimos, muito acima do que a maioria pode alcançar. E inicia-se ai uma nova ditadura: a DITADURA DO BOM DESEMPENHO SEXUAL.

Trata-se aqui daquele desempenho que nos torna capaz de obter orgasmos múltiplos, bater recordes de freqüência, superar as habilidades das gueixas, acrescentar novas e acrobáticas posições àquelas já ensinadas no Kama Sutra, não conformar-se com a monótona monogamia e experimentar tudo além do heterossexualismo em si.

Mas esses novos conceitos sociais e morais apóiam o direito de cada um reconhecer e atender os seus desejos sexuais, desde que dentro de uma normalidade física e psíquica. Se pensarmos na Declaração dos Direitos Humanos seria, grosso modo, nosso direito universal à busca de felicidade.

Mas direito é uma coisa, e obrigação é outra!


(continua abaixo...)



Escrito por Mariana Tonin às 06h47
[ ]


(continuando...)


Dr. Gebhard, que dirigiu por mais de 20 anos o Instituto Norte-Americano de Pesquisas Sexuais, diz que “a atmosfera sexual do mundo moderno é muito nociva”, fazendo com que as pessoas se sintam obrigadas a demonstrar uma sexualidade constante, ou até mesmo a fingi-la.

Basta olharmos para o lado e veremos que se faz apologia ao sexo em todas as partes e que ele é o melhor tópico de conversação. Na verdade, o sexo é in. Daí a importância de tão alto desempenho nesse campo de “atuação”.

Digo ”atuação” assim mesmo, entre aspas, para que fique bem claro o que se quer dizer: a performance tem se tornado mais importante do que o sexo em si.

Normalmente espera-se “atuações” olímpicas, com rugidos, lavas ardentes, sininhos tocando e o mundo despencando aos pés. E serelepes para fazermos parte dessa nova moral sexual, acabamos por pegar o caminho errado e não prestar atenção nas sensações, na entrega, no deixar levar-se pelos impulsos do corpo.

E o sexo mesmo, como fica? O que queremos dele?

Em relatos de amigas e pacientes, a resposta é unânime: que seja bom; que nos dê prazer e uma sensação de plenitude.

Bem, ..., isso é muito bonito, desde que não se acate essa ditadura nosense de super-desempenhos, que está deixando homens e mulheres confusos, loucos na tarefa de agradar um ao outro e sentir prazer ao mesmo tempo.

Certa vez, conversando com um homem inteligente, maduro e bastante importante na minha vida, perguntei o que ele espera encontrar numa mulher. A resposta não me surpreendeu nem um pouco! Além de outros adjetivos que condizem com o perfil dele, ouvi aquela máxima de “uma lady na mesa e uma louca na cama”; alguém socialmente moral e sexualmente imoral.

Não acho que ele esteja errado! Muito pelo contrário! Almejamos alguém que seja adequado ao nosso convívio social, que nos acompanhe e que possamos admirar; mas queremos também alguém sexualmente ativo que nos desperte o desejo.

E é exatamente ai que começa nosso problema. Para sermos essa “louca na cama” em dias de hoje, estaremos aceitando a ditadura do super-desempenho. Afinal, não é isso que se espera das pessoas hoje em dia?!

Para que uma mulher normal se encaixe nesse perfil, não lhe basta ser autêntica. Ela tem que incorporar a supermulher, ou a devoradora de homens capaz de garantir extraordinários orgasmos diariamente, para si e para seu parceiro. E de tão empenhada em se adequar a essa nova forma de ver o sexo, se transforma em vítima dela mesma, representando um papel que nem sempre condiz com sua realidade...

John Messenger, antropólogo e especialista em comportamento sexual, afirma que “muitas pessoas fazem sexo quando na realidade não querem; fingem gostar apesar de não obterem nenhuma satisfação, só para garantir aprovação do parceiro e ser aceito”. Para ele, trata-se de um novo tipo de conformismo, o “conformismo pós-moderno”. Gebhard diz que a pior coisa desse novo conformismo é que as pessoas incutiram a idéia de que “devem estar prontas e ansiosas para o sexo a qualquer hora, todos os dias da semana, e com qualquer parceiro”.

Em nosso convívio certamente encontraremos uma ou outra que possa fazê-lo (ou diz que pode!), mas a maioria não pode, devido a seus padrões individuais de capacidade sexual, ou de limitações, ou de questões psicológicas.

Muitas mulheres, entretanto, desconsideram tais individualidades e, pelo simples prazer amoroso do ato sexual ou para não se sentirem sozinhas, vão para cama com alguém sem estarem completamente seguras quanto a isso. Agem assim por estarem “pós-conformadas”. E quando tal experiência não é exatamente deslumbrante, fingem orgasmos, sofrem em silêncio e culpam-se por não terem alcançado a meta sexual dos novos tempos.

Essa meta, esse super-desempenho, é uma situação atraente e perigosa, que promete nos levar ao Nirvana dos sentidos mas, em troca, nos exige sempre mais do que podemos de fato dar.

Mas mesmo sendo uma Ditadura, podemos escapar dela! Basta sermos coerentes e conhecermos nossos limites e vontades, não usando o comportamento ou desempenho sexual dos outros como parâmetro de comparação ao nosso.

Particularmente, gosto de crer que o sexo deva ser desfrutado por sua pura magnificência. Mas sexo só é magnífico quando feito do nosso jeito, de acordo com nossos gostos ou preferências, e com a pessoa que escolhermos.

Nessa situação, sim, alcançaremos o super-desempenho, o melhor de todos, que é exatamente o nosso!!



Escrito por Mariana Tonin às 06h46
[ ]


 

Mas esse dia chega...
por Mª ALICE B. ZUCKERMAM


Eu bem tentaria te explicar, mas não posso!!! A posição de "rainha da verdade absoluta" não me cai bem, nem ao menos procuro dar respostas prontas aos que me perguntam.

A única coisa que sei é que um dia você vai cair da cama, depois de chorar horrores por um amor mal resolvido e vai descobrir que nada é perfeito.

Pode demorar uma hora, cem dias, uma vida, mas esse dia chega...

Essa realidade medonha e que apavora, encosta as mãos no seu ombro e te dá a pior notícia que você pode receber depois de anos de ilusão: seu príncipe encantado não vai bater na tua porta e te levar pra Terra do Nunca e que nada do que te disseram para acreditar é verdade.

Sim, relacionamentos acabam! Acabam sutilmente ou arduamente, escandalosamente ou com histórias hilárias, com muita raiva ou com uma paz inexplicável. O fato é que certo dia eles chegam a um ponto da estrada em que precisam ser acabados e toda aquela história de amor vira um capítulo a parte na sua vida e você chora as pitangas até os olhos esbugalharem de frente para o espelho.

E eu nem estou sendo tão fria quanto parece, viu.

Acho mesmo é que a gente não nasceu pra perder, mas perde; nem nasceu pra entender essa história por completo, mas entende, na marra, com gosto amargo na boca e uma tentativa frustrante interna dizendo pra si mesmo: eu vou mudar essa história!

Minha tristeza é ver que o amor virou item de prateleira no supermercado chamado vida. Ele é só mais uma das representações embaraçosas que a nossa linda sociedade pós-moderna criou...

Como quem se esfola na rua depois da queda, descobrir o fato real dessa coisa "amor" é como perder o meio que tem dentro da gente; é sentir-se um pouco (ou totalmente) vazio; é destruir um pouco da mágica da infância sadia e costumeira de cada um.

A boa verdade - doa a quem doer - é que você chega a um certo estágio da vida e descobre que essa coisa chamada amor pintada de cor de rosa, azul, vermelho e lá vai cacetada de cores lindas e brilhantes, não existe; que foi realmente coisa que colocaram na sua cabeça.

Isso não é regra! Claro que existe gente que encontra essa “pessoa”... Dentro de uns cem mil exemplos é possível achar uns 3 ou 4 felizardos.

Mas não é meu caso!!!!!!!!!

Enquanto não tiver cores lindas e brilhantes nos meus relacionamentos perfeitos, queria aprender a agir como aquelas pessoas que sabem lidar com a situação! Elas cortam o mal pela raiz quando terminam uma relação, e dão a impressão que nem foi tão difícil assim...



Escrito por Maria Alice Becker Zuckermam às 06h40
[ ]




Lembranças dos domingos,
por GUSTAVO CAPRIOLI.



Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora marcada para sair da cama, e depois ir tomar café na padaria, mesmo que já seja quase hora do almoço.


Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e quem sabe nem vou conhecer, como se fossem meus velhos conhecidos.


Quero ver você me olhar entre um gole e outro de café, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a ler o caderno de cultura.


Quero a sua mão no meu colo, dentro do carro, no caminho de volta para casa.


Quero deitar no sofá e ver você dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, nossas roupas esquecidas em cima da cama.

Quero também que, sem mais nem menos, você desista da arrumação e me jogue sobre a bagunça, me beije, me abrace e me ame.

Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede da varanda, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado.

Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que é possível que eu não esteja lá. E ao ignorar a improbabilidade da nossa jornada, quero que você passe a mão nas minhas costas e me beije o rosto, falando da casa que teremos na praia em Salvador, do jardim que construiremos nela, dos cachorros que criaremos e dos 3 filhos que teremos.

Quero que você me prometa ter entendido que a felicidade não está no destino, mas na viagem... E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que compartilhamos enquanto olhávamos a lua.

Quero que você acredite que não me deve nada, simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento.

Quero que você nunca se arrependa da gente, do que fomos ou de tudo que vivemos; e que me guarde na memória, mais do que nas fotos.

Quero que você fique com a sensação de ter me degustado por completo, entretanto, de ter saído da mesa antes da sobremesa.

Quero que até o último dia da sua vida você espalhe delicadamente a nossa história para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido uma história linda; e que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida.

Quero que você nunca deixe de pensar em mim quando for a Londres ou à Sampa outra vez, quando escutar Corazón Partio ou ler algo antigo da Carmem Silva, aquela "baiana arretada", como você diz.

E, por fim, quero que você continue a dançar na vida, a ser feliz, para sempre, mesmo quando eu não estiver mais olhando.



Escrito por Mariana Tonin às 12h00
[ ]


 

O processo de triagem social,
por MARIANA TONIN


A crônica abaixo (Primeira Impressão Rotulada) mostra muito bem alguém que descartou propositalmente uma boa relação, baseando-se apenas nos rótulos, no invólucro, naquilo que ele tomou como verdade pronta e acabada.

Mas o processo de “descarte” não é característica masculina ou feminina; é uma característica social!!!!

Eu descarto, tu descartas, ele(a) descarta, nós descartamos...

E por que fazemos isso?

Tudo me leva a crer que a gênese da questão está exatamente naquelas características idealizadas que esperamos encontrar em alguém, seja em nível afetivo, de contato social, ou mesmo de aparência; naquela “coisa” tida como compatível ao nosso jeito, ao nosso estilo, e que vem se construindo desde a nossa infância.

E é exatamente ai que corremos o risco do “descarte”, de estarmos buscando um rótulo ou uma imagem; ignorando a essência, o conteúdo, as características que nosso primeiro julgamento não consegue ver. Mas esquecemos que o primeiro julgamento segue o primeiro encontro, e dele captamos apenas a impressão.

E infelizmente é a primeira impressão que nos formará a imagem mental de alguém....

Não quero ser fútil, mas tenho que admitir que a primeira impressão é importantíssima! Ela nos dirá se nos agradamos ou não da pessoa, se confiaremos ou não nela, se acontecerá um aproximação ou uma antipatia declarada.

Pessoalmente, não gosto de rotular ninguém, muito mais num encontro que pode ser breve. Mas a sociedade faz isso! É como se o instinto de defesa social estivesse agindo, fazendo uma triagem.

Daí a relevância de causar uma boa impressão! Por isso nos esforçamos tanto! Sabemos que, mesmo sujeita a revisões, a primeira impressão sempre conta como um cartão de visitas a nosso favor.

Se analisarmos com cuidado, veremos que a quantidade de fatores utilizados, ao julgarmos a primeira impressão, é espantosa. Só mesmo simultâneas sinapses nervosas conseguem fazê-lo com tamanha rapidez.

Afinal, o que observamos na primeira impressão?

Segundo Marina Colasanti, na obra A Nova Mulher, a triagem passa pelo seguinte processo de análise: silhueta, andar, roupa, linguagem corporal e maneira de receber a informação.

Ao olharmos silhueta e andar, imediatamente começamos a fazer combinações inevitáveis, algo do tipo: uma pessoa endomorfa (gorda) e de braços pendentes, nos remete a alguém lento, indolente, de paquidérmicos reflexos; ao passo que uma pessoa esguia e de faces ruborizadas, nos remete a alguém ágil.

Entrando num conceito burguês lamentável, tenho que admitir que a roupa faz parte da análise da primeira impressão. É através dela que “mostramos” nosso jeito, nossas preferências. Mesmo que estejamos iguais, uniformizadas, há sempre alguma característica pessoal a nos diferenciar. Pode ser a escolha dos acessórios, o salto do sapato, a cor das unhas...


Roupa e andar evidentemente não são tudo! Ainda há a linguagem corporal a se considerar, aquele conjunto profundamente entrelaçado de mente e corpo, que dá significado a situação.

Lembro-me de uma amiga que, querendo causar uma boa primeira impressão ao homem com quem ia sair, acabou metendo os pés pelas mãos. Ela estava linda, com uma roupa nova e o cabelo escovado no salão. Mas estava nervosa.... E ele estava atrasado... E quanto mais ele demorava a chegar mais as mãos dela suavam, e mais ela mordia os lábios, e mais manchava os dentes superiores de batom. Quando ele finalmente chegou, ela já estava toda desfeita, e a noite ficou rodeada de rótulos mútuos.

As mãos suadas, o batom borrado e o tremor nos gestos tratam-se da linguagem corporal que entra na composição da imagem. Mas, além disso, têm-se o jeito de cruzar as pernas, a maneira de afastar os cabelos com as mãos, a suavidade do perfume, a escolha do toque do celular, as palavras e, principalmente, a forma de ouvir. Trata-se, desse último, da maneira de receber a informação.

Certa vez, um amigo engenheiro me convidou para acompanhá-lo numa confraternização de trabalho, e eu fui. Após apresentações, e eu já bastante incomodada com as brincadeirinhas do tipo “Cuidado com o que você vai falar! Agora temos uma Psicóloga na mesa analisando tudo..”, me peguei numa conversa infindável sobre o papel do Psicólogo. Claro que o meu interlocutor estava exausto. Claro que ele queria falar um pouco dele também.

Nada nos vale apenas transmitir o que somos, oferecer recursos para análise. Temos também que darmos ao interlocutor o sinal verde, uma mensagem de aceitação. Tudo isso irá compor a nossa imagem.
Infelizmente, a imagem é um dos grandes apelos desse começo de século! Elas são fabricadas e consumidas em alta escala, num processo contínuo de renovação.

A meu ver, a imagem é bastante perigosa. Em princípio, ela aparenta algo diferente do real, um invólucro, um outro “eu”, um “tipo” aprendido para ser socialmente aceito.

Preocupo-me com essa tendência a falsificação, a oferecer uma primeira impressão muito diferente da realidade. Daí a importância de uma boa leitura, da percepção dos outros sinais...

Mas isso nem sempre é perceptível no primeiro encontro, ou numa sucessão de pequenos momentos. Isso leva tempo! Talvez tempo suficiente para que o “descarte” não tenha mais retorno....



Escrito por Mariana Tonin às 19h07
[ ]


Primeira Impressão Rotulada,
por MARIANA TONIN


“Ela tinha algo que me atraia muito. Não sei bem... Talvez fosse sua segurança nos argumentos, misturada com uma doçura no olhar.


Não éramos exatamente colegas de trabalho, apenas trabalhávamos para a mesma Instituição.


Nos víamos esporadicamente e, nos esboços de conversa um pouco além dos limites profissionais, ela sempre era agradável e despedia-se sorrindo, nada mais.


Curioso, investiguei sobre ela nas fichas da empresa, a observei por algum tempo, e colhi informações aqui e ali, com colegas em comum. Confirmei o que eu já tinha percebido: ela era uma mulher muito inteligente e dona do seu nariz.


Nessa investigação, soube que sempre fora boa aluna, que tinham se envolvido em política estudantil, que havia morado alguns anos no exterior, que fazia sucesso com os homens, que adorava a produção acadêmica e que tinha uma situação financeira satisfatória.


Pronto! Isso me bastou! Algo dentro de mim gritou um `Deus me livre!


Imaginei logo uma filhinha de papai mimada (primeiro rótulo), metida a intelectual politizada (segundo rótulo), possível devoradora de homens (terceiro rótulo), que se transformou numa profissional frustrada (quarto rótulo) e numa mulher moderna demais pro meu gosto (quinto rótulo).


Não! Isso era demais! Jamais poderia participar desse mundo que ela estava acostumada...


Não poderia me imaginar com uma mulher filosofando numa mesa de bar, entre um gole e outro de uísque escocês, e música de Zeca Baleiro ou Nando Reis ao fundo....


Não ia gostar de estar com alguém incapaz de me considerar ao tomar uma decisão...


Não seria saudável pra mim estar ao lado de uma mulher tão cheia de atitudes, que poderia mostrar sua subversividade na hora errada, no círculo social errado...


E assim, depois de tê-la coberto de rótulos, depois de ter visualizado como seria o nosso possível romance, joguei-a no esquecimento.


Um dia, com seu jeito superior absolutamente insuportável, ela me entregou uma publicação que tinham feito, e despediu-se, dizendo que estava indo para Portugal fazer doutorado.


Na hora nem me toquei para o título, pensando tratar-se de uma obra menor, do tipo auto-ajuda ou essas coisas que as mulheres dondocas e modernas chamam de literatura (sexto rótulo).


O paper ficou rolando pela minha mesa, depois pelo banco de trás do meu carro, até que finalmente eu decidi lê-lo.


E o final de semana ficou pequeno.... E eu não conseguia desgrudar do artigo... E eu fui conhecendo-a através das coisas que ela escrevia, notando que ela era muito diferente daquilo que eu imaginava... E eu não conseguia mais apagar da minha mente aquela imagem, aquele olhar que me chamou atenção ao conhecê-la...."



Escrito por Mariana Tonin às 18h57
[ ]




Uísque com gelo e lágrimas,
por MARIANA TONIN


Quando meu celular toca, ou recebo um e-mail, ou alguém me procura num desses bate-papos virtuais, só para falar da vida, do tempo, essas coisas meio “nada-não”, sempre acho estranho. Imediatamente percebo que ali do outro lado tem alguém sufocado.

Sem me conter, dou início a mais um plantão afetivo em prol dos necessitados!!!

E é com um imenso sorriso e afetuosa disposição que eu recebo esse alguém (amigo, familiar, colegas de trabalho) para um “uísque com gelo e lágrimas”, mesmo nem sempre gostando da forma como sou solicitada ou de como ficam as coisas depois.

Com a sensação de peso por alguém ter derramado em mim seus problemas, me questiono pela milésima vez porque todo mundo me procura para pedir ajuda, para pedir carinho ou para contar suas desgraças, a qualquer hora do dia ou da noite.

A verdade é que eu permito! Eu os atraio, mesmo sem sair por ai como uma bandeira escrita “Procuram-se Pessoas Aflitas”.

Começa que meu estilo é declaradamente maternal, não só com as crianças ou com os necessitados, mas com a humanidade em geral. Sempre acabo conversando com o motorista de táxi durante toda a corrida, ouvindo o desabafo do garçom da lanchonete, dando dicas a uma balconista sobre como atender melhor, tentando convencer um pedinte a buscar ajuda do Estado, oferecendo minha vez na fila para alguém visivelmente apressado e nervoso, cuidando da minha bisavó senil tendo mais 800 mil parentes que poderiam fazê-lo, tomando conta dos filhos de amigos para que eles possam sair e se divertir um pouco, ..., e por ai vai.

E além desse jeito de “mãezona” ainda tenho verdadeira vocação para ouvir e compreender os outros. Talvez, inconscientemente, seja por isso que tenha me tornado Psicóloga.

Nos momentos de confidência não me coloco no papel de censora ou repressora (superego), e sim de aliada (ego auxiliar), apontando sutilmente os erros e o foco do problema. E eu vibro quando a situação se desenrola! Ah, como vibro...

Sinto-me como se tivesse ajudado várias pessoas com meus conselhos, meus carinhos, meu apoio e minha presença no momento necessário. E assim eu vou vivendo, com meus imensos seios carregados de leite, alimentando a todos de fraudas que batem a minha porta ou cruzam meu caminho...

E você, que age exatamente assim como eu, também se sente uma grande virtuosa, resolvendo os dramas alheios e tentando salvar o mundo?

Pois é... Ledo engano esse nosso “sentir”!

Como tenho anos de divã nas costas (eu, enquanto paciente), não considero esse meu comportamento uma grande virtude. Ele nada mais é que uma grande onipotência! Nos sentimos, ainda que inconscientemente, acima do bem e do mal a ponto de achar soluções para os conflitos alheios.

“Onipotência?”, me perguntaria assustada a maioria das pessoas....

Onipotência sim!

Mas uma onipotência frágil, mascarando uma pseudo-superioridade mais frágil ainda; que só emerge para sermos aceitas, para sermos necessárias nos melhores e nos piores momentos dos outros. Ela não nos mobiliza a buscar altos poderes, força ou comando (isso é puxa-saquismo mesmo), mas nos garante a retribuição em moeda afetiva.

Ao resolvermos os problemas do mundo também não estamos distribuindo nosso amor em ilimitada extensão afetivo-territorial?

Pois é! E evidentemente esperamos algum tipo de retribuição por parte dos outros...

Ai eu justifico meu (nosso) comportamento como não sendo tão virtuoso assim. Sob meu espírito maternal e minha devoção amiga, encontra-se minha grande necessidade de afeto!

E tendo tomado consciência disso, decidi sair do plantão full time, deixando que a sessão “uísque com gelo e lágrimas” aconteça só quando for realmente necessária....

Não quero dizer que ando me esquivando. Muito pelo contrário! Até porque minha individualidade não me permite fazê-lo. Quero dizer que estou tentando moderar o “uso físico” e o “uso moral” que tal situação demanda: estou aprendendo a trazer para minha vida pessoal o distanciamento crítico que tenho no consultório, com meus pacientes.

Mas a verdade é que a vida é uma troca contínua e, para vivermos qualquer relação de forma saudável, todos devem se beneficiar.

Se você às vezes se incomoda por ser o SOS dos seus amigos, o muro de lamentações, o plantão afetivo 24 horas ao dia; faça uma troca! Aproveite os ensinamentos valiosos que isso traz, amplie sua ótica e seu conhecimento do ser humano e, conseqüentemente, de você mesma. Mas não esqueça de colocar-se em primeiro lugar!

Confesso que isso não tem sido fácil para mim! Mas estou tentando, apesar do medo de, ao abandonar meu papel de “mãezona”, não ser mais necessária...



Escrito por Mariana Tonin às 07h26
[ ]




“Neuro”,
por GUSTAVO CAPRIOLI



Ele era “neuro”, como diziam lá no Hospital: neuropsicólogo!

Não sabia se queria mesmo atuar nessa especialidade, já que tinha escolhido isso não para “salvar mentes”, e sim para “salvar sua conta bancária”.

Trabalhava que nem um condenado, ganhava muito bem, mas estava longe de ser rico ou emergente. Para piorar, não agüentava mais a vida real com toda aquela galera doente que achava que era Deus, Jesus Cristo ou coisas afins.

Ela era “neuro” também: neurótica!


Já estava indo para o sexto ano de análise e continuava sem compreender o porquê de seu comportamento afetivo a meia-distância.


Era quase viciada em trabalho, metida a cult e colunista de um site, onde escrevia quase numa catarse. Detestava os escritores de auto-ajuda que comem o queijo dos outros, incorporados pelo espírito de monges, executivos, pais ricos e pobres.

Em comum, além da abreviação “neuro”, eles tinham a vontade de deixar de ser singular!


Foi aí que ele, um dia, depois de tomar banho e não ter vontade nem de se vestir (pra quem?), resolveu visitar um site que um colega do Hospital indicou, caindo direto no site da garota neurótica, onde o post do dia era uma crônica chamada “Desamor revisitado”.

“Essa internet expõe mesmo as pessoas”, ele pensou.

“Ainda bem”, ele pensou concluindo, ao ver a foto dela, achando a mistura daquele texto com aquele rosto algo merecedor de mais exposição.

E postou: - Ei, figura, tudo bem? Caí aqui no seu site, nessa noite quente por fora e fria por dentro. Sou neuropsicólogo; posso abrir sua cabeça. Não que você seja limitada.

Ela, que não estava acostumada a responder esse tipo de e-mail (seus pais modernos sempre diziam: “naum tc com estranhos, bb”), resolveu abrir uma exceção porque achou o máximo falar com um neuropsicólogo.

E respondeu: - Oxe!!! Até que tô precisando de uma lavagem cerebral... (risos!!!)

- Só se for ao vivo.

- Fechado.

Se encontraram no Palácio da Justiça, onde estava acontecendo uma exposição da Camylle Claudel, a amante secular do Rodin.

Ele era alto demais para o gosto dela, e ela baixa demais para o gosto dele. Foto engana!

- Nossa, menina! De perto você é mais normal do que eu imaginava.

-
Mas eu sou normal!!!! É que isso é estranho... Nunca saí com alguém que conheci na internet.

-
E quem te disse que isso é um encontro?

- Não????

-
Que nada! Não que você não seja interessante... Aliás, você até que é linda, mas não faz meu tipo.

- Bom saber... Fico até aliviada! Uma amizade dura mais que um amor, né?!

Ela foi falsa com as palavras, ele com o sorriso...

Conversaram amenidades, comeram pão de queijo, tomaram café expresso, divergiram quanto ao fato da Camylle ser ou não a sombra de Rodin, falaram mal de um casal freak que se beijava escandalosamente na frente de crianças, ensaiaram um afeto desconexo para manter viva a chama do teatro e desceram as escadas, dando graças a Deus quando tudo acabou em pizza.

Que coisa! Ela achava que por trás daquele e-mail morava o homem da vida dela: inteligente, sensível, engraçado e charmoso. Ela não podia perdoá-lo por não ser ele!

Pior... Ele achava que por trás daquele e-mail morava uma loira fenomenal, resolvida e que ia convidá-lo para transar. Aquela menina metida a intelectual merecia a morte!



Escrito por Mariana Tonin às 08h44
[ ]



Síndrome de primeira da classe,
por MARIANA TONIN



Eu sabia que se aceitasse mais aquele plantão no Hospital Psiquiátrico ia me enrolar toda, afinal, já tenho meu trabalho full time e ainda faço mestrado.

Mas por que aceitei, já que a remuneração não era lá tão boa?

Porque não consigo marcar limites para mim mesma, só por isso!

Trabalho, enquanto todos em casa dormem, ..., passo horas lendo e pesquisando enquanto meus amigos estão passeando de barco, ..., faço comida enquanto falo com clientes ao telefone, ..., e vou vivendo minha vida nessa correria, fazendo coisas simultaneamente, me ocupando em demasia.

Infelizmente, essa não é uma realidade só minha... Ela ocorre com milhares de pessoas, a maioria mulheres! Trata-se de um mal comum, conhecido como “síndrome de primeiro(a) da classe” - termo originalmente escrito em 1980 por Marina Colasanti, na obra A Nova Mulher, e usado pelo senso comum desde então.

Ocorre com aquelas pessoas que sempre estão na linha de fogo, comendo pólvora e achando ótimo; aqueles que fazem tudo e mais um pouco e não podem falhar.

Se você também faz parte dessa equipe, vou descrever rapidamente sua/nossa biografia: Você era uma menina ativa desde pequena; não tinha medo de nada, muito menos de cair daquela árvore enorme do quintal da sua avó, a qual seus primos a desafiaram a subir. Você sempre dizia “Você duvida que eu consigo?", como se a dúvida dos outros a estimulassem a mostrar sua capacidade. E além de tudo você ainda era prendada e sabia fazer aquelas pequenas tarefas domésticas que sua mãe ou sua avó a ensinavam. Na escola e na faculdade você sempre foi boa aluna, perguntava muito, participava ativamente das aulas e envolvia-se em atividades extra-curriculares. Durante toda vida você acabava fazendo o seu serviço e dos outro, no princípio por escolha e depois por imposição, afinal, vendo seu élan em fazer algo bom, as pessoas (familiares, amigos, colegas de trabalho ou estudo) deixavam para você parte da atividade. Você sempre encontrou em casa, nos livros, na religião, a mesma constante: os bons serão premiados. Então você decidiu ser boa e se encher de qualidades, afim de garantir seu prêmio maior, que era ser amada. E no aprendizado das virtudes, mandavam você fazer isso, você fazia; mandavam você fazer aquilo outro, você fazia também; e assim ia aprendendo... Mas ao invés de notar como suas qualidades iam aumentando, você só via aquilo que precisava melhorar, aquilo que chamavam de defeitos. Assim você esmerava-se cada vez mais, aperfeiçoando-se nas qualidades... Às vezes você sentia o “prêmio” em suas mãos e isso lhe bastava; outras, como se ele nunca pudesse ser seu (sua amiguinha a trocava por outra, o amor “daquele” homem especial não vinha, a promoção no emprego não saia, etc.), e você sofria, se questionando o porquê das coisas não darem certo, já que você era tão dedicada e hábil. E de uma menininha esperta, passou a adolescente brilhante e mulher competente, preocupada em alcançar excelentes resultados...

Na descrição dessa biografia, sua e minha, fiz questão de terminar com a palavra resultados, porque resultado é fundamental para nós! E ele tem que ser perfeito...

Queremos o resultado global, social, aquele que transmite segurança a quem nos chefia ou a quem chefiamos; aquele que exprime nossa competência; aquele que nos faz aceitas; aquele que dá garantia a nossa família e amigos que podem contar conosco quando precisarem.

Mas se é o resultado o que mais almejamos (e cá entre nós, ele quase sempre é positivo), penso que temos que conquistá-lo em sua magnitude, ou seja, também temos que ter um resultado individual satisfatório.

Por resultado individual satisfatório não entendo, apenas, ficar satisfeitíssima cada vez que aceito um desafio e o resolvo com excelência. Não! Penso ser bem mais que isso! Penso ser a sensação agradável do dever cumprido, a confirmação das qualidades e, principalmente, uma vida afetivo-social boa.

Sempre que nossa amiga ou nossa mãe estiver estressada e nos despejar suas aflições, tentamos acalmar os ânimos e propomos soluções, mas certamente nos culpamos, sentimos que nossas qualidades não foram suficientes para ela... Sempre que “aquele” homem especial não se mostrar apaixonado, decidimos conquistá-lo, fazendo tudo que for necessário, inclusive agüentando seu descaso.

Fazemos isso porque esperamos ser reconhecidas por nossas qualidades. Não foi isso que nos ensinaram e nos cobraram? Não foi nisso que nos apoiamos a vida toda?

Eis ai, aberto, o caminho do nosso sofrimento...

Mas se isso não nos é satisfatório, porque continuamos agindo assim? Simplesmente porque temos “síndrome de primeiras da classe”! E isso pode dificultar e muito nossas relações afetivo-sociais.

Mas a relação afetivo-social é uma relação dinâmica, de troca. Se alguém nos cobra, deve estar preparado também para a nossa cobrança; se alguém nos ignora, deve estar preparado também para nossa rejeição futura; se alguém nos fecha as portas, deve estar preparado também para nos ver mudar de caminho. Essa é a dinâmica da vida!

Para nós, agir assim é difícil e causa uma dor imensa. Por isso, faz-se mister entendermos o mecanismo que nos leva a “síndrome de primeiras da classe” e, principalmente, a compreensão de que a perfeição não só é impossível, como também é pretensiosa e agressiva. Ou seja, temos que conhecer e aceitar nossos defeitos.

Isso seria apenas o começo, o fácil início... Depois, temos que oferecer aos outros nossos defeitos, correndo o risco de sermos recusadas, de não sermos amadas e de ver fechar-se algumas portas a nossa frente.

Como uma “primeira da classe” assumida, sei que isso é muito difícil! Mas estou aprendendo... Já consigo deixar que meu lado menos glorioso ou admirável seja visto; já descobri que para viver uma boa relação afetivo-social (familiar, de amizade ou entre homem e mulher) perdemos alguns “prêmios” menos importantes, algumas relações superficiais; já aprendi também que para alguém nos amar, precisa amar a exposição completa de nós, com nossos defeitos e qualidades. Hoje já falo em alto e bom som quando “não sou boa” em algo, e espero ser amada ainda assim.

Isso é um exercício de coragem, que vamos aos poucos aprendendo. E é somente através dele que conseguiremos o troféu definitivo de “primeira da classe”, sem estar aprisionadas a rótulos e incansáveis demonstrações de qualidades.



Escrito por Mariana Tonin às 06h41
[ ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil





BRASIL, Mulher, de 26 a 35 anos, Arte e cultura, Psicologia e Estudo de Gênero



Meu humor



Histórico
01/02/2008 a 29/02/2008
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 Cadernos Pagu - Núcleo de Estudos de Gênero
 Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA)
 Revista Mulheres e Literatura
 Mulher Governo
 Feminist Women in Philosophy
 Simone de Beauvoir
 Quero mais Brasil
 Blog da Rosely Sayão
 Blog da Soninha
 Blônicas
 Blog do Juca
 Macaco Simão
 Meninas são Gigantes
 Bolsa de Mulher
 Taqui pra ti
 Humor Tadela
 Rabo de Arraia
 Erotismo na Cidade
 Mulé é um bicho burro mermo!
 Go 2 learn
 Escritoras Suicidas
 Brutti, Sporchi e Cattivi
 Círculo de Crônicas